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Economia

A Itália na educação ocidental: Reggio Emilia

O cooperativismo setentrional que ergueu a pedagogia Reggio Emilia


Imagem gerada por IA

Na primavera de 1945, na aldeia de Villa Cella, nos arredores da cidade de Reggio Emilia, norte da Itália, as mulheres da União das Mulheres Italianas levaram ao Comitê de Libertação Nacional local uma proposta incomum. Queriam vender o tanque de guerra e os 3 caminhões que os alemães haviam abandonado na retirada de derrota, além de 6 cavalos, para financiar a construção de uma escola infantil. Os homens da comunidade preferiam investir o dinheiro num teatro. As mulheres insistiram, e venceram.

A obra foi erguida à mão, com pedras recolhidas no rio Enza e tijolos retirados de casas bombardeadas. Um carpinteiro doou as cadeiras das crianças, e um técnico da cooperativa de pedreiros acompanhou os trabalhos. A instituição recebeu o nome de 25 de Abril, data da libertação italiana do fascismo.

A contribuição do Prof. Malaguzzi

Loris Malaguzzi soube da obra e foi de bicicleta até Villa Cella para a ver com os próprios olhos. Tinha 25 anos, ensinava desde os 20 em vilarejos dos arredores, e aderiu ao projeto em abril daquele ano. Aprendeu com um movimento que já estava em curso antes da sua chegada, e permaneceu ligado à rede autogerida da União das Mulheres Italianas ao longo de quase 2 décadas, período em que as próprias mulheres abriram outras 8 escolas na cidade e cerca de 20 na província.

O Prof. Malaguzzi viria a formar-se em pedagogia na cidade de Urbino só em 1946, e em 1950 tornou-se psicólogo no centro médico-pedagógico do município, cargo que manteve por quase 20 anos, em paralelo à direção da nova estrutura pública de educação infantil da cidade, assumida em 1963.

A formação psicológica marcou profundamente o pensamento de Malaguzzi, mas em direção oposta à leitura clínica que tinha orientado Séguin e, por extensão, Maria Montessori. Ele recusou os materiais com grau de dificuldade predeterminado e o diagnóstico como ponto de partida, e passou a defender que cada aluno poderia expressar-se por vias múltiplas, verbais e não verbais, todas com igual valor cognitivo.

A sua convicção foi nomeada Cem Linguagens da Criança, poema que se tornou manifesto e nome de uma exposição itinerante que percorreu o mundo a partir dos anos 1980. A ideia central é simples de enunciar e difícil de aplicar, a inteligência infantil revela-se em como a criança desenha, constrói, argumenta e questiona, mais do que numa escala de acertos e erros diante de uma tarefa fechada.

A escola Reggio Emilia vs. Montessori

A arquitetura das escolas reggianas traduziu essa filosofia em espaço construído. Em vez de salas fechadas organizadas para o trabalho individual e silencioso, cada unidade ganhou uma praça central, ponto de encontro entre turmas, e um ateliê dirigido por um artista plástico contratado como parte do corpo docente. A presença desse profissional, estranha ao quadro tradicional de professores, rompia o modelo pedagógico antigo, já abalado pela prática de 2 educadoras por turma e pela participação das famílias na gestão do dia a dia.

No lugar da observação diagnóstica que orientava Maira Montessori, instalou-se a documentação contínua, o registro sistemático em fotografias e gravações do que as crianças diziam e faziam, discutido semanalmente entre educadoras e pais em busca de sentido para o que ali acontecia.

Rede pública municipal gratuita

A municipalização não nasceu de um gesto espontâneo do poder público. Em 1959, numa conferência regional do Partido Comunista Italiano com a presença de Palmiro Togliatti e Nilde Iotti, a professora Loretta Giaroni, uma das fundadoras de Villa Cella, levantou-se e perguntou por que Reggio Emilia, com 160 mil habitantes, ainda não tinha uma escola infantil municipal. A pergunta encontrou terreno fértil na administração comunista e socialista que governava a cidade desde o pós-guerra. O prefeito Renzo Bonazzi, eleito em 1962, assumiu o compromisso, mesmo à custa de deixar as contas municipais no vermelho, e inaugurou a rede pública entre 1963 e 1975.

A rede abriu com a escola Robinson, em novembro de 1963, batizada em homenagem ao náufrago de Defoe, seguida no ano seguinte pela creche Anne Frank, no bairro planejado de Rosta Nuova. Em 1971, o primeiro berçário recebeu o nome de Genoeffa Cervi, mãe dos 7 irmãos fuzilados pelo fascismo em 1943, escolha que amarrava explicitamente a nova etapa pública à memória da resistência que a tinha originado.

Reconhecimento internacional

Malaguzzi, que só reconheceria plenamente em 1985 o papel fundador da União das Mulheres Italianas nesse processo, diria então ter aprendido com homens e mulheres que, antes dele, já sabiam transformar a história ao tomá-la nas próprias mãos. O reconhecimento internacional chegou em 1991, quando a revista Newsweek elegeu a unidade Diana, também municipal, a mais avançada do mundo em educação infantil, título que projetou Reggio Emilia para um público muito além da Itália.

Malaguzzi morreu em janeiro de 1994, e nesse mesmo ano o município constituiu a Reggio Children, empresa de capital misto criada para atender à demanda internacional por formação e intercâmbio que já não cabia numa estrutura só municipal. A entidade detém hoje o registro da marca Reggio Emilia Approach e mantém uma rede paga de consultorias e seminários, além de visitas de estudo para educadores estrangeiros.

A Fondazione Reggio Children, essa sim uma fundação, só surgiu em 2011, a partir da transformação de uma associação internacional anterior. A experiência reggiana, portanto, não escapou à economia do prestígio internacional, apenas manteve o controle sobre quem pode usar o nome, diferença que separa a sua trajetória da diluição sofrida pelo termo Montessori, sem proteção de marca.

A explicação mais sólida para essa diferença de controle está no financiamento, mais do que na marca registrada. O sistema reggiano depende de investimento público municipal contínuo desde 1963, sustentado por uma administração de esquerda disposta a priorizar educação infantil mesmo em déficit, numa cidade situada na chamada faixa vermelha, socialista, da região Emília-Romanha.

Nenhuma escola estrangeira consegue importar essa estrutura, por mais que replique a estética do ateliê e o vocabulário da documentação pedagógica. A expressão inspirada em Reggio Emilia tornou-se, em redes privadas de elite no Brasil e na Europa, um chamariz comercial parecido ao que o rótulo Montessori já era havia décadas, usado por instituições sem vínculo formal com a cidade italiana ou com a Reggio Children.

Reggio Emilia e educação bilíngue

Há sinais, no entanto, de que parte do mercado brasileiro começa a tratar essa origem com mais rigor do que a simples decoração do ateliê. O São Paulo Open Centre (SPOC) oferece formação dedicada a cruzar a abordagem reggiana com a educação bilíngue, recorte raro entre os cursos genéricos sobre o método vendidos no país. É um contraponto modesto ao padrão mais comum, o de escolas que adotam a estética da documentação e a linguagem do ateliê sem qualquer vínculo com a rede que as originou, na Itália ou fora dela.

Longa vida às bravas e destemidas mulheres emilianas, renascidas da dor, construtoras de educação plena, pública, gratuita e universalizada.

Folha Vitoria

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