Portal de Notícias Administrável desenvolvido por Hotfix

Economia

Caminho se faz caminhando: a participação que ajuda o ES a construir seu futuro

Experiência das últimas décadas mostra como participação social, planejamento e transparência transformam o desenvolvimento do ES


Portos de Vitória e Vila Velha. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

José Armando de Figueiredo Campos, fundador e membro do Conselho Deliberativo do ES em Ação

A democracia não pode se resumir ao exercício do voto. Em ano eleitoral, é importante observar que a escolha dos nossos representantes é, sem dúvida, o momento mais importante da participação democrática. Isso, porém, não deveria significar uma transferência automática a quem elegemos, durante todo o mandato, da inteira responsabilidade sobre os destinos da sociedade.

Se somos nós, os eleitores, que delegamos o poder, parece razoável que também tenhamos a disposição para acompanhar como esse poder é exercido, quais decisões são tomadas e quais resultados produzem. Transparência, prestação de contas e participação deveriam ser componentes naturais de uma democracia madura.

É a partir dessa compreensão que podemos olhar para a evolução política, social e econômica do Espírito Santo nas últimas décadas. Mais especificamente, para o processo de mobilização da sociedade capixaba que começou a ganhar força no início dos anos 2000 e que ajudou a construir um ambiente de diálogo e participação na busca de soluções para os desafios do Estado.

Naquele momento, diferentes grupos da sociedade se organizaram em seus próprios núcleos, com diagnósticos e propostas de mudança. O desafio era grande: além das dificuldades financeiras e institucionais, havia um ambiente de negócios que criava obstáculos à atividade empresarial e dificultava a atração de novos investimentos.

A reação foi também coletiva. Movimentos empresariais, igrejas de diferentes denominações, movimentos sociais, associações e entidades de classe começaram a se mobilizar para pensar e construir um futuro diferente. Não se tratava apenas de apontar problemas, mas de identificar oportunidades e construir, de maneira organizada, alternativas para o desenvolvimento do Espírito Santo.

Foi nesse ambiente que surgiu, no início dos anos 2000, o Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação. Desde os primeiros anos, o movimento colocou seu foco na busca de oportunidades para o crescimento da economia capixaba e, para isso, investiu na experiência de seus membros e parceiros em trabalhos de planejamento de longo prazo para o Estado.

Já adianto que, nesse caso específico do Espírito Santo, não creio que tenhamos construído um modelo perfeitamente acabado. Mas, partindo de alguns princípios basilares, como ética, respeito e atuação apartidária, pudemos nos apresentar na defesa da livre iniciativa e na construção de um ambiente favorável ao desenvolvimento econômico e social do Estado.

De certa forma, o caminho foi sendo feito ao caminhar, com o entendimento de que, definido o rumo, as respostas seriam construídas na prática continuada e aprimorada, passo a passo, sem precisar saber tudo no início.

A experiência mostrou que planejamento não pode ser confundido com um documento que se produz, publica e arquiva. A exemplo do que acontece na trajetória de uma empresa, em que as estratégias precisam ser permanentemente confrontadas com a realidade, também o planejamento de um Estado não pode ficar inerte. É preciso acompanhar a evolução, ajustar rotas, redesenhar prioridades e mitigar resistências, sempre buscando assegurar a sustentabilidade das estratégias adotadas.

Foi dessa experiência que surgiu, em 2005, o ES 2025 – Plano de Desenvolvimento do Espírito Santo 2025, construído em parceria entre o governo estadual, o ES em Ação e empresas parceiras. O plano representou uma primeira grande visão de futuro compartilhada para o Estado, traçando cenários para o crescimento estadual e definindo projetos estruturantes.

A partir dele, resultaram outros trabalhos de planejamento, como o PELTES – Plano Estratégico de Logística e Transportes para o Espírito Santo, o PNLT – Plano Nacional de Logística e Transporte, em uma perspectiva de integração nacional, e o PEDEAG – Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba. A esses trabalhos somaram-se ainda alguns estudos na área de mobilidade urbana.

Dessa forma, ficava cada vez mais clara a vocação do ES em Ação para, em conjunto com segmentos do poder público para articular parcerias com segmentos dos setores público e privado, em trabalhos de planejamento de longo prazo. E a relação de parceria e cooperação sempre foi tratada de modo transparente, com uma governança que buscava trazer para a discussão as áreas de governo diretamente relacionadas aos temas tratados.

O planejamento, num modelo de parceria entre os setores público e privado, traz em seu conceito a necessidade de um diálogo permanente e qualificado com as instâncias de poder, tanto na vertente técnica quanto na política. Além disso, variáveis internas e externas interferem nos cenários ao longo da execução de um plano e justificam sua revisão.

Por essas razões, ao ES 2025 seguiram-se o Plano de Desenvolvimento Espírito Santo 2030 e, posteriormente, o Plano de Desenvolvimento de Longo Prazo ES 500 Anos.

O ES 2030, lançado em 2013, aproveitou a experiência do plano anterior, tomando-o como uma espécie de resenha das lições aprendidas. Como em tudo que se planeja, dependendo do prazo de alcance da visão desejada, há coisas que dão certo e outras que merecem ser revisitadas ou até esquecidas.

Uma das críticas feitas ao plano anterior era a de que ele havia deixado de dialogar mais amplamente com a sociedade. A construção do ES 2030 procurou responder a essa questão, mobilizando inteligência coletiva por meio de oficinas temáticas regionais, grupos técnicos e audiências públicas em todas as microrregiões do Estado. Foram dezenas de oficinas, com a participação de mais de mil pessoas de diferentes segmentos da economia, além de gestores de políticas públicas.

A própria articulação empresarial foi ampliada, com a participação do FEF – Fórum das Entidades e Federações, reunindo as Federações das indústrias, do comércio, dos transportes e da agricultura, além do ES em Ação.

Com isso, o planejamento foi deixando de ser percebido apenas como uma tarefa de governo. Passou a ser compreendido como uma construção que exigia a participação de diferentes setores, o alinhamento de instituições e, principalmente, a continuidade das ações para além dos ciclos político-partidários.

Pode-se afirmar que esse foi um dos grandes legados do ES 2030: a confirmação do planejamento de longo prazo como instrumento capaz de dar maior continuidade às políticas de Estado, vinculando os instrumentos de planejamento e orçamento a metas técnicas e mensuráveis.

Em 2025, esse processo alcançou uma nova etapa com o ES 500 Anos. O novo plano incorpora metodologias voltadas ao enfrentamento de problemas complexos e trabalha com o conceito de missões, entre elas a de Resiliência Climática e Descarbonização, refletindo desafios que já impactam economias e sociedades em todo o mundo.

Há, ainda, uma diferença institucional importante. O ES 500 Anos foi estabelecido por lei, com uma estrutura de governança voltada à articulação entre os setores público e privado, ao monitoramento contínuo, à avaliação periódica e à participação da sociedade capixaba.

Esse talvez seja um dos maiores aprendizados dessas últimas décadas: planejamento e monitoramento são indissociáveis. Não basta definir onde queremos chegar. É preciso acompanhar o caminho, verificar os resultados, identificar o que não funcionou e ter disposição para corrigir o caminho tomado.

E os resultados dessa cultura de planejamento podem ser percebidos nos indicadores sociais, econômicos e fiscais do Espírito Santo. A redução da pobreza e do desemprego, os avanços em educação, saúde e infraestrutura, o crescimento econômico e o fortalecimento da gestão fiscal são dimensões que ajudam a demonstrar que planejamento não é apenas um exercício técnico. Ele precisa produzir efeitos concretos na vida das pessoas.

O mesmo vale para a transparência e a prestação de contas. A democracia participativa que defendemos não pode se limitar ao momento em que escolhemos nossos representantes. É preciso acompanhar o exercício do poder e exigir transparência sobre as decisões e seus resultados.

Nesse contexto, merece destaque o trabalho desenvolvido na elaboração do Ranking Capixaba de Transparência e Governança Pública, em parceria com a Transparência Capixaba, que vinha apontando avanços significativos nos municípios e contribuindo também para estimular as Câmaras Municipais a ampliar a transparência de seus atos.

São experiências que mostram que uma sociedade pode aperfeiçoar suas instituições quando transforma participação em prática permanente, planejamento em instrumento de gestão e transparência em compromisso.

Não construímos, no Espírito Santo, um modelo perfeitamente acabado. O que fizemos foi caminhar, com erros, acertos, aprendizado e revisão de rotas, construindo pouco a pouco uma cultura baseada na ética, no respeito, na atuação apartidária e no diálogo entre diferentes setores.

Essa cultura também nos ensinou que o desenvolvimento econômico e social não é obra de um único governo, de uma única entidade ou de um único grupo. É uma construção coletiva que exige desapego ao protagonismo ou vaidades.

O desafio que temos pela frente é preservar essa cultura e, ao mesmo tempo, continuar aprimorando-a. As eleições são parte essencial do processo democrático, mas não podem representar uma interrupção daquilo que a sociedade construiu ao longo do tempo.

Além de escolher governantes, precisamos ser capazes de discutir projetos, acompanhar resultados e preservar aquilo que funciona, independentemente de quem esteja no poder.

O caminho continua sendo feito ao caminhar. E, se há uma lição que as últimas décadas deixaram, é que participar, planejar, acompanhar e corrigir são formas concretas de uma sociedade assumir responsabilidade pelo seu próprio futuro.

Folha Vitoria

Assine o Portal!

Receba as principais notícias em primeira mão assim que elas forem postadas!

Assinar Grátis!

Assine o Portal!

Receba as principais notícias em primeira mão assim que elas forem postadas!

Assinar Grátis!