Do café da manhã ao lanche da tarde, o leite está presente nos hábitos alimentares mais comuns dos brasileiros. Seja puro, acompanhado de café, em queijos, iogurtes ou receitas tradicionais, ele faz parte da rotina de milhões de pessoas.
No entanto, diante do crescimento das bebidas vegetais e das discussões sobre intolerância e alergias, uma pergunta ganhou espaço nos últimos anos: será que o leite faz bem para todo mundo?
Neste Dia Mundial do Leite, celebrado nesta segunda-feira (1º), o Folha Vitória consultou a nutricionista Rayanne Pimentel, especialista em saúde intestinal, para saber quais são os benefícios nutricionais do alimento, quem deve evitar o consumo e por que a decisão de retirar o leite da alimentação não deve ser baseada apenas em tendências ou informações que circulam na internet.
Segundo a nutricionista, o leite continua tendo espaço na alimentação da maioria das pessoas, desde que não existam condições que impeçam o consumo.
Quais são os benefícios do leite?
O principal nutriente associado ao leite é o cálcio, mineral essencial para a saúde óssea. No entanto, os benefícios não se limitam a isso.
De acordo com a nutricionista, o alimento também é uma importante fonte de proteínas e aminoácidos, contribuindo para diversas funções do organismo.
“Acaba que o cálcio é um dos principais pontos a serem tratados nesse caso. O leite é um dos produtos hoje que a gente tem mais rico em cálcio, mas ainda assim a gente pensa como uma fonte proteica”, explica.
Bebidas vegetais substituem o leite?
Embora sejam frequentemente utilizadas por pessoas que não consomem leite, as bebidas vegetais não são equivalentes ao produto de origem animal do ponto de vista nutricional.
Segundo Rayanne, trata-se de alimentos diferentes, produzidos a partir de ingredientes como aveia, amêndoas ou castanhas, com composições distintas.
A bebida vegetal vai ser usada para aquelas pessoas que têm algum tipo de intolerância ao consumo do leite, uma pessoa que é alérgica à proteína do leite de vaca ou sente qualquer desconforto gástrico.
Rayanne Pimentel, nutricionista
A especialista lembra ainda que o termo “leite vegetal” deixou de ser utilizado justamente para evitar comparações equivocadas entre produtos com características nutricionais diferentes.
Entre os mitos mais comuns envolvendo o alimento está a ideia de que ele provoca inflamação no organismo.
Para a nutricionista, a afirmação não é verdadeira para a maioria das pessoas. “O leite, por si só, não vai ter o poder de causar um processo inflamatório. Dentro de um contexto onde o meu corpo está inflamado, meu intestino não está legal, ele pode piorar os meus sintomas”, afirma.
Ela ressalta que a necessidade de restringir ou retirar o leite da alimentação deve ser avaliada individualmente, principalmente quando o consumo provoca desconfortos frequentes.
Quando o leite deve ser evitado?
Segundo a especialista, pessoas que apresentam sintomas persistentes após o consumo de leite e derivados devem investigar possíveis intolerâncias ou alergias. “O principal ponto é prestar atenção como o corpo responde. Se você se sente mal, deve averiguar o real motivo”, orienta.
Ela explica que a intolerância à lactose pode surgir inclusive na vida adulta, principalmente quando há alterações na saúde intestinal.
Se a pessoa está passando por um processo inflamatório intenso, com o intestino passando por um processo de desbiose, ele perde a funcionalidade dos filamentos intestinais e para de produzir a enzima lactase. Aí, a pessoa vira intolerante, independente da idade.
Rayanne Pimentel, nutricionista
Outro cuidado importante envolve o horário de consumo dos lácteos. Segundo a nutricionista, alimentos ricos em cálcio podem dificultar a absorção de ferro quando consumidos logo após refeições principais, especialmente em pessoas com anemia.
“Em restaurantes é muito comum servirem o leite queimado, por exemplo. O ideal seria evitar esses alimentos pelo menos uns 30 ou 40 minutos depois da refeição.”, alerta.
Diagnóstico deve ser individualizado
O diagnóstico da intolerância à lactose pode ser feito por meio de exames específicos, como o teste de intolerância à lactose. Entretanto, a avaliação clínica também é considerada fundamental.
De acordo com Rayanne, a observação dos sintomas após a retirada temporária do leite da alimentação costuma fornecer pistas importantes. “Eu gosto muito de olhar a clínica do paciente. Muitas vezes, quando a pessoa retira o alimento que está causando desconforto, a resposta tende a ser muito rápida.”
Ela ressalta que cada organismo reage de forma diferente. Algumas pessoas toleram determinados derivados, como queijos e iogurtes, enquanto outras apresentam sintomas mesmo com pequenas quantidades. “É importante identificar qual é a tolerância, como que o corpo responde.”
Nem só o leite fornece cálcio
Para quem não pode ou não deseja consumir leite, existem outras fontes alimentares do mineral.
Segundo a nutricionista, alimentos como chia, gergelim, linhaça, folhas verde-escuras e sardinha também podem contribuir para a ingestão adequada de cálcio.
As pessoas ficam muito preocupadas. Hoje em dia a gente tem outros alimentos que são riquíssimos em cálcio e que conseguem fazer essa substituição muito bem.
Rayanne Pimentel, nutricionista
Sinais mais comuns de intolerância à lactose
Flatulência com odor intenso;
Desconforto abdominal após consumir leite ou derivados;
Em alguns casos, alterações na pele.
Diferença entre intolerância à lactose e alergia ao leite
O organismo produz pouca ou nenhuma lactase, enzima responsável por digerir a lactose;
Provoca principalmente sintomas gastrointestinais;
Produtos sem lactose costumam ser bem tolerados;
O uso de enzimas lactase pode ajudar em situações pontuais.
Alergia à proteína do leite
Trata-se de uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite;
Pode causar sintomas mais intensos (fissura anal, fezes com sangue e dermatites);
Mesmo produtos sem lactose podem provocar reações;
Exige exclusão completa do leite e dos derivados;
É mais frequente em crianças.
Quando procurar orientação profissional
Embora o leite continue sendo uma importante fonte de nutrientes para grande parte da população, a decisão de mantê-lo ou não na alimentação deve considerar os sinais apresentados pelo próprio organismo.
Sintomas frequentes após o consumo, como desconforto abdominal, gases, diarreia ou dores, merecem investigação profissional para identificar possíveis intolerâncias, alergias ou outras condições relacionadas à saúde intestinal.
Segundo Rayanne, a avaliação individual é fundamental antes de qualquer restrição alimentar. Além disso, ela destaca a importância de observar a qualidade dos produtos consumidos, dando preferência, sempre que possível, a opções menos processadas e de procedência confiável.
Em caso de suspeita de intolerância à lactose ou alergia à proteína do leite, a recomendação é procurar orientação médica e nutricional.
O acompanhamento profissional ajuda a confirmar o diagnóstico e a garantir que eventuais substituições mantenham o aporte adequado de nutrientes importantes, como cálcio e proteínas, evitando deficiências nutricionais ao longo do tempo.
*Texto sob supervisão do editor Leone Oliveira
Folha Vitória