*Artigo escrito por Rafael Monteiro, psicólogo forense e especialista em Família
Nem toda criança que sofre está abandonada. Algumas têm casa, escola, alimentação e até acesso a tecnologia, mas vivem uma realidade silenciosa: a ausência emocional.
Nos últimos anos, tenho observado, na prática profissional, um fenômeno cada vez mais recorrente. Crianças que não foram negligenciadas materialmente, mas que cresceram sem presença afetiva consistente. Estão acompanhadas, mas não se sentem vistas. São cuidadas, mas não se sentem conectadas.
Como psicólogo forense com atuação em casos envolvendo famílias, infância e violência, tenho me deparado com histórias que revelam uma mudança importante na dinâmica familiar contemporânea. A negligência, hoje, nem sempre está na falta, muitas vezes está na desconexão.
É nesse contexto que surge o conceito de “órfãos de pais vivos”: crianças que, embora tenham seus pais presentes fisicamente, crescem sem vínculo emocional suficiente para sustentar seu desenvolvimento psicológico de forma saudável.
A infância é o período em que se constrói a base da segurança emocional. Quando essa base é fragilizada, os efeitos podem aparecer de diversas formas: dificuldades de relacionamento, baixa autoestima, comportamentos de risco e, em casos mais graves, sofrimento psíquico significativo.
Não se trata de apontar culpados, mas de reconhecer uma realidade. Vivemos em uma sociedade acelerada, hiperconectada e, paradoxalmente, cada vez mais distante nas relações humanas. Pais exaustos, rotinas intensas e o uso excessivo de telas têm ocupado o espaço que antes era preenchido por presença, escuta e convivência.
Presença não é apenas estar no mesmo ambiente. É olhar, ouvir, perceber, validar. É estar emocionalmente disponível.
A boa notícia é que essa realidade pode ser transformada. Pequenas mudanças na forma como nos relacionamos com as crianças têm um impacto profundo. Momentos de atenção genuína, conversas sem distrações, interesse real pelo que elas sentem — tudo isso constrói aquilo que nenhuma estrutura externa consegue substituir: conexão.
Mais do que nunca, precisamos refletir sobre a qualidade da presença que estamos oferecendo às nossas crianças.
Porque, no fim, o que marca uma infância não é apenas o que foi dado, mas, principalmente, quem esteve verdadeiramente presente.
Folha Vitória