O Produto Interno Bruto (PIB) capixaba cresceu 4,4% no primeiro semestre de 2026, mais do que o dobro do resultado brasileiro, de 1,9%. Com um avanço de 12,4%, a indústria respondeu por 3,5 pontos percentuais, ou quase 80% da expansão da economia do Espírito Santo. A atividade econômica capixaba avançou 4,4% em relação ao mesmo período do ano passado, mais do que o dobro do resultado brasileiro, de 1,9%.
“Quando olhamos para os grandes setores, fica muito claro que esse crescimento do Espírito Santo veio lastreado pelo desempenho industrial. Os serviços cresceram 1,6%, ou seja, de forma parecida com o Brasil, enquanto a agropecuária apresentou um leve recuo de 0,4%”, afirma a economista-chefe da Findes e gerente-executiva do Observatório Findes, Marília Silva.
Projeção para 2026 sobe para 3,7%
Com o desempenho do primeiro semestre, o Observatório Findes elevou para 3,7% a projeção de crescimento da economia capixaba em 2026. No fim de 2025, a entidade esperava uma alta de 1,9%.
A produção de petróleo e gás em patamar elevado, o avanço da pelotização de minério de ferro, a resistência da construção civil aos juros altos, o mercado de trabalho aquecido e uma produção de café próxima ao recorde sustentam a nova estimativa.
O resultado, contudo, ainda pode mudar. A inadimplência, o comprometimento da renda das famílias, a oferta menor de bovinos, os possíveis efeitos do El Niño e as incertezas internacionais aparecem entre os principais riscos.
O desempenho industrial recebeu força principalmente da indústria extrativista, ou seja, produção de petróleo e gás e da pelotização de minério de ferro. No setor, a alta foi de 36,3%. Os principais motivos são a retomada da produção de petróleo e gás, após dois meses, do FPSO Maria Quitéria e o início da produção, em março, no Campo de Wahoo, pré-sal da Bacia de Campos, litoral do Espírito Santo.
Já o segmento de energia e saneamento avançou 7,9%. Além disso, a construção civil manteve crescimento de 2,7% mesmo diante dos juros elevados. Entretanto, a redução da velocidade das vendas pode aparecer com mais força nos resultados de 2027.
“Os investimentos da construção civil são de médio prazo. Um edifício leva dois anos ou dois anos e meio entre o projeto, a aprovação e o início das obras. A velocidade de vendas diminuiu um pouco, mas os prédios não podem parar. O objetivo é evitar estoques, porque o estoque na construção civil não é saudável”, afirma o presidente da Findes, Paulo Baraona.
A indústria de transformação seguiu na direção contrária e recuou 2% no primeiro semestre. A produção de alimentos e o segmento de papel e celulose puxaram a queda. Na indústria de alimentos, diminuíram as produções de água de coco, açúcar e, principalmente, carnes bovinas. A redução da oferta de gado para corte também afetou o resultado.
Já a produção de papel e celulose caiu 6,5% diante da demanda menor da China e de um ambiente internacional mais complexo. Metalurgia, minerais não metálicos e fabricação de coque e derivados de petróleo apresentaram variações positivas, mas não compensaram as perdas dos demais segmentos. Por outro lado, o setor de serviços teve alta de 1,6% no semestre, puxado por transporte e comércio.
A agropecuária capixaba recuou 0,4% no primeiro semestre. A pecuária caiu 7,5%, enquanto a agricultura avançou apenas 0,1%. Entre as lavouras analisadas, somente o café arábica apresentou crescimento. O conilon, a pimenta-do-reino, o mamão e outras culturas registraram retração, explica Marília Silva.
Além disso, o El Niño acrescenta uma incerteza ao segundo semestre. O fenômeno pode provocar mais estiagem no Norte do Espírito Santo e aumentar as chuvas no Sul, com efeitos diferentes sobre as lavouras, a pecuária e a infraestrutura rural
Bolso das famílias acende alerta
A desaceleração recente da inflação trouxe algum alívio, mas a avaliação de Marília Silva é de que parte desse movimento resultou do bônus de Itaipu. “Isso gerou uma queda momentânea, mas fica claro que continuaremos com uma inflação rondando o teto da meta. Esse cenário de inflação perto de 5%, somado à taxa de inadimplência nas máximas históricas e ao alto comprometimento da renda dos trabalhadores, acende um alerta sobre possíveis impactos no consumo e na capacidade de compra das famílias”.
O mercado de trabalho ajuda a contrabalançar esse cenário. A taxa de desemprego chegou a 2,3% no Espírito Santo, ante 5,4% no Brasil. Apenas Mato Grosso e Santa Catarina registraram índices menores.
No entanto, a informalidade capixaba permanece acima da média brasileira e distante de Santa Catarina, onde a taxa fica em torno de 25%. Como o trabalhador informal recebe, em média, menos do que o empregado formal, a ocupação elevada nem sempre se traduz em maior poder de compra.
A baixa taxa de desemprego também cria um obstáculo para as empresas que precisam contratar. O Espírito Santo já abriu mais de 20 mil empregos formais em 2026 e reúne aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos previstos para os próximos cinco anos.
Para a indústria, o desafio consiste em atrair trabalhadores que hoje atuam na informalidade, qualificar profissionais e ampliar o uso de inovação e tecnologia. Mesmo com a automação, a demanda por mão de obra continuará elevada.
“Hoje, o desafio do setor industrial tem sido o acesso à mão de obra. Isso resulta, em parte, dos bons indicadores do mercado de trabalho. Temos uma população muito ocupada e muitos investimentos chegando, que vão exigir ainda mais trabalhadores”, destaca Silva.
Folha Vitoria