A ideia de retirar um rim saudável para doá-lo a outra pessoa naturalmente provoca uma pergunta: é possível viver normalmente com apenas um rim? A resposta é sim. A doação renal em vida é possível porque os rins têm uma grande capacidade de adaptação.
Embora tenhamos dois rins, não precisamos utilizar toda a capacidade de filtração disponível para manter o organismo funcionando adequadamente. Após a doação, o rim que permanece aumenta sua capacidade de trabalho e assume boa parte da função que antes era realizada pelos dois.
É como uma equipe que perde um integrante, mas reorganiza suas funções para continuar trabalhando.
Quem pode doar um rim em vida?
Isso não significa, porém, que qualquer pessoa possa ser doadora. A segurança começa antes da cirurgia, com uma avaliação médica detalhada e individualizada.
As recomendações internacionais da KDIGO orientam que sejam analisadas não apenas a função renal atual, mas também as condições de saúde e o risco de o doador desenvolver doença renal no futuro.
Entre os fatores avaliados estão função dos rins, presença de proteína ou sangue na urina, pressão arterial, diabetes, obesidade, histórico de cálculos renais, tabagismo, doenças cardiovasculares e histórico familiar de doença renal.
Função renal é um dos principais critérios
A função dos rins merece atenção especial durante a avaliação. A taxa de filtração glomerular estimada é um dos parâmetros utilizados para verificar a capacidade dos órgãos de filtrar o sangue.
Em geral, valores iguais ou superiores a 90 mL/min/1,73 m² são considerados adequados para a doação quando avaliados dentro do contexto clínico. Já resultados entre 60 e 89 mL/min/1,73 m² precisam ser analisados individualmente, considerando idade, condições de saúde e risco futuro.
Valores abaixo de 60 mL/min/1,73 m², por sua vez, são considerados incompatíveis com a doação. A presença de albumina na urina, que pode indicar lesão renal, também faz parte da avaliação.
Quem doa um rim pode desenvolver doença renal?
Uma das dúvidas mais comuns é se o doador necessariamente desenvolverá doença renal no futuro. A resposta é não.
Em pessoas cuidadosamente selecionadas, a maioria mantém boa função renal e qualidade de vida após a doação. Estudos indicam, porém, que existe um pequeno aumento do risco de doença renal avançada em comparação com pessoas igualmente saudáveis que não doaram.
O risco absoluto permanece baixo para a maioria dos doadores. Por isso, a seleção criteriosa antes do procedimento é tão importante quanto o acompanhamento depois da cirurgia.
Cuidados continuam depois da cirurgia
A doação não encerra o cuidado com a saúde dos rins. O acompanhamento médico periódico permite monitorar possíveis alterações ao longo dos anos.
Entre os parâmetros que podem ser avaliados estão pressão arterial, peso, creatinina, estimativa da função renal e presença de albumina na urina.
Também fazem parte desse cuidado hábitos como praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada, não fumar e controlar fatores de risco para doenças cardiovasculares e renais.
Transplante pode mudar a vida de quem espera por um órgão
Do outro lado dessa história está uma pessoa com doença renal avançada que pode ter a vida profundamente modificada pelo transplante.
Para pacientes adequadamente selecionados, o transplante renal pode oferecer benefícios importantes em qualidade e expectativa de vida quando comparado à permanência em diálise.
Na doação após a morte, conversar com a família sobre o desejo de ser doador continua sendo fundamental. Já na doação em vida, a decisão precisa ser voluntária, consciente e acompanhada por uma avaliação médica criteriosa.
Informação também faz parte da doação
Durante o Setembro Verde, período dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, é importante que a discussão seja acompanhada de informação de qualidade.
Doar um rim pode transformar a vida de outra pessoa e, quando realizado dentro de critérios rigorosos de segurança, permite que o doador continue vivendo com apenas um rim.
A solidariedade inicia o processo, mas é a avaliação médica criteriosa que ajuda a torná-lo seguro.
Folha Vitória