Os irmãosJoesleyeWesley Batista, donos daJ&F, grupo daJBS, compraram 100% da participação daAvibras. Maior indústria bélica do País, a companhia está emrecuperação judiciale mantém contratos com oExército. A compra foi feita pela Globe, uma das empresas de investimentos dos irmãos Batista. Os valores não foram divulgados, e a transação depende de autorização doConselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)para ser concluída.
“A transação tem como objetivo dar sustentação à recente retomada das operações da Avibras, preservar sua capacidade tecnológica e industrial e criar as condições necessárias para que a companhia volte a crescer de forma sustentável nos mercados brasileiro e internacional”, afirma a Globe.
Como mostrou o Estadão, Joesley havia assinado em abril um contrato para participar do funding da Avibras, coordenado pelo Fundo Brasil Crédito, que arrecadou R$ 300 milhões com investidores privados.
Além de ser o principal credor da empresa, em recuperação judicial desde 2022, o fundo foi o autor do plano alternativo de reestruturação da Avibras, já aprovado pela Justiça e por credores.
OEstadãoapurou que, na época, a negociação já envolvia um termo de opção de compra da Avibras pelos Batista.
Os principais contratos mantidos atualmente pela Avibras são com o Exército e com a Força Aérea. A empresa é responsável pelo sistema de foguetes balísticos Astros, a joia da coroa da artilharia do Exército, um produto vendido para quase uma dezena de países, entre eles a Indonésia e a Malásia. E que segue despertando a atenção no exterior.
Por que a Avibras recorreu à recuperação judicial
A Avibras pediu recuperação judicial em março de 2022, com dívidas de R$ 394 milhões. A empresa alegou à Justiça que havia perdido competitividade no mercado em países doOriente Médioe noSudeste Asiáticocom a ascensão de empresas fortemente financiadas por governos estrangeiros.
Em uma recuperação judicial, a empresa pede auxílio do Poder Judiciário para suspender e renegociar o pagamento de dívidas. O processo pode durar anos e é acompanhado por um administrador judicial indicado pelo juiz do caso, que nomeou a Deloitte para o posto.
Em agosto de 2024, o fundo comprou um crédito de R$ 93 milhões de uma empresa da Indonésia e se tornou o maior credor da Avibras. Sob argumento de que a indústria tinha péssima saúde financeira, propôs um plano de recuperação judicial alternativo e reestruturação da empresa.
O plano de recuperação proposto pelo fundo foi aprovado e avalizado pela Justiça paulista. Até um novo CNPJ foi criado para a Avibras, e capitalizado com R$ 2,5 bilhões da empresa em recuperação judicial, em dezembro de 2025.
Uma greve que durou 1.280 dias terminou em acordo com a empresa firmado na Justiça no dia 26 de março. A dívida trabalhista de R$ 230 milhões com 1,4 mil antigos empregados será saldada em até quatro anos.
Quando a família Batista se aproximou da indústria bélica
Foi neste contexto que Joesley Batista demonstrou interesse no financiamento da empresa e assinou um contrato com o Fundo Brasil Crédito, mediante o cumprimento de algumas condições exigidas para efetivar o negócio, como a negociação das dívidas trabalhistas. O antigo dono da empresa, João Brasil, que levou a empresa à bancarrota, ficará de fora da nova Avibras.
O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, divulgou que foi informado, na tarde desta sexta-feira, 21, pelo fundo de investimentos Brasil Crédito, do negócio envolvendo a fábrica do setor de Defesa localizada em Jacareí (SP).
Em nota, o sindicato reitera que, independentemente de quem sejam os investidores ou detentores das ações da fabricante de produtos bélicos, preza pela manutenção dos empregos em Jacareí, garantia de direitos dos trabalhadores, bem como pelo cumprimento do acordo de retomada assinado entre a entidade e a Avibras Aeroco e homologado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região e pelo Tribunal Superior do Trabalho.
Para a entidade, é primordial que o cronograma de pagamento das dívidas trabalhistas seja cumprido, assim como seja respeitada a convenção coletiva da categoria metalúrgica.
“O acordo de retomada da Avibras é público e foi aprovado pelos trabalhadores em assembleia. O sindicato seguirá acompanhando de perto o cronograma de pagamentos e o cumprimento do acordo vigente, que tem de ser respeitado pelos proprietários da empresa, independentemente de quem sejam. Os metalúrgicos da Avibras fizeram uma greve histórica e sabem que o caminho para garantir empregos e direitos é a luta”, afirma o presidente do Sindicato, Weller Gonçalves.
“No sistema capitalista, em nome do lucro, é comum que holdings e grandes empresários invistam, façam aquisições e fusões para ampliar seu patrimônio. O papel do sindicato é garantir condições de trabalho melhores, e isso se faz por meio da luta”, complementa.
O sindicato também diz que permanece defendendo a estatização da Avibras. Em julho, durante a visita do presidenteLuiz Inácio Lula da Silvaà empresa, a entidade entregou a ele três cartas com reivindicações relativas aos setores de Defesa e aeronáutico. Em um dos ofícios, propôs a estatização da Avibras, da Embraer e de todas as empresas estratégicas para a soberania nacional.
Folha Vitoria