O senso comum acredita que atletas de elite nascem destinados ao pódio, como se o talento fosse uma sentença favorável da genética. A realidade é menos romântica e mais exigente. O que distingue quem chega ao topo não é o dom, mas a mentalidade, a capacidade de sustentar disciplina, regular emoções e converter fracasso em método. O talento abre a porta. A mente decide quem permanece.
A psicóloga Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia, demonstrou esse princípio no livro Garra. Após estudar contextos de alta exigência, concluiu que o melhor previsor de sucesso não é o talento nem o coeficiente de inteligência, mas a combinação de paixão e perseverança por objetivos de longo prazo. Quem desiste no primeiro obstáculo desperdiça o dom. Quem insiste o transforma em resultado.
A mentalidade de campeões: exemplos do esporte
Os exemplos confirmam a tese. Michael Jordan errou mais de nove mil arremessos, perdeu quase trezentos jogos e creditou a esses fracassos a origem do próprio sucesso. Guga Kuerten voltou de uma cirurgia no quadril para vencer Roland Garros em 2000 e fechar o ano como número um do mundo. Rebeca Andrade enfrentou três cirurgias no mesmo joelho entre 2015 e 2019 e ainda se tornou a maior medalhista olímpica da história do Brasil. Nenhum venceu pelo talento intacto. Todos venceram pela gestão do próprio limite.
Essa mentalidade não se aplica somente no esporte de alto rendimento; muitos ex-atletas levam para o mundo empresarial. Fabio Gurgel, tetracampeão mundial de jiu-jitsu, transformou a disciplina do atleta em método de gestão e construiu a Alliance, a equipe mais vitoriosa da história da modalidade, hoje com centenas de academias em quase trinta países. Em outro exemplo iniciado em solo capixaba, observa-se a mesma lógica Fabio Coelho, presidente do Google Brasil e vice-presidente global da companhia, construiu uma trajetória profissional marcada pela mesma consistência e capacidade de adaptação que caracterizam o alto desempenho. Em ambos, o diferencial não está na euforia do começo, mas na capacidade de sustentar esforço quando o aplauso ainda não chegou.
Disciplina e adaptabilidade: lições para o mundo empresarial
Há nisso um princípio claro de liberdade de escolhas, algumas difíceis, mas fundamentais. O desempenho não é concedido, é conquistado pela responsabilidade individual de quem assume o próprio desenvolvimento em vez de terceirizar o êxito ao acaso. O dom pode ser um ponto de partida desigual, mas a disciplina está ao alcance de quem decide pagar seu preço.
No fim, não se trata de genética, de sorte nem do aplauso fácil dos primeiros minutos. É a escolha silenciosa de continuar quando o corpo dói e o resultado tarda. O dom apenas convida. Quem sustenta a permanência é a mentalidade. E é sempre ela, no esporte ou na empresa, que transforma espectadores em vencedores.
Folha Vitoria