Corpo no IML pode ser de Dante Brito Michelini, o Dantinho, envolvido no caso Araceli. Fto: Arquivo e Thiago Soares/Folha Vitória
Um corpo encontrado carbonizado em um sítio em Meaípe, Guarapari, pode ser de Dante Brito Michelini, o Dantinho, 75 anos, um dos envolvidos no assassinato da menina Araceli Cabrera Sanchez, de 8 anos, em 1973.
O caso, que ganhou grande repercussão em todo o Brasil, envolveu Dantinho, o pai dele, Dante de Barros Michelini, e Paulo Constanteen Helal, conhecido como Paulinho.
O corpo em Guarapari foi encontrado sem cabeça e em meio a escombros de uma casa incendiada dentro do Sítio Pequeira. Dantinho, segundo informações recebidas pela Polícia Militar, mora sozinho no sítio.
O assassinato foi descoberto na tarde desta terça-feira (3), após uma mulher de 40 anos procurar a Polícia Militar por ter encontrado a casa onde estava o corpo destruída, com janelas e portas quebradas.
Dentro da casa, os policiais localizaram o corpo em estado avançado de decomposição, deitado com a barriga para baixo.
A mulher se apresentou como funcionária do sítio e disse que não tinha contato com Dantinho desde o dia 7 de janeiro. Ela teria ido ao local por se preocupar com o paradeiro do homem e procurou a polícia após encontrar a casa danificada.
Para encontrar o corpo, a Polícia Militar contou com a ajuda de um homem, que guiou os militares por dentro da propriedade, uma vez que a casa se encontrava em um local de difícil acesso.
Segundo o boletim de ocorrência da PM, um advogado da família e um irmão do homem morto estiveram no local. O advogado não teria se aproximado do corpo, mas relatou aos militares que Dantinho era o único morador do sítio. Além disso, disse que o idoso raramente saía da propriedade e quase não tinha contato com o mundo exterior.
Apesar do boletim de ocorrência e dos indícios, a Polícia Civil ainda não confirmou se tratar do corpo de Dante de Barros Michelini.
Por nota, a Polícia Civilinformou que o corpo da vítima foi encaminhado para o Instituto Médico-Legal (IML), da Polícia Científica, para identificação e realização do exame cadavérico, visando determinar a causa da morte.
Em situações que requerem exames laboratoriais, o processo pode levar mais tempo, especialmente quando são necessários exames de DNA (até 30 dias), exames toxicológicos amplos e exames histopatológicos, um procedimento laboratorial que envolve a análise microscópica de tecidos biológicos (entre 60 a 90 dias).”
Caso Araceli: crime em 1973
A menina Araceli Cabrera Sanchez tinha 8 anos quando foi assassinada. Ela desapareceu no dia 18 de maio de 1973, e esta data se tornou símbolo de luta contra violência infanto-juvenil e deu origem ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes.
O caso é considerado um dos mais emblemáticos da história judicial brasileira. A menina morava em Bairro de Fátima, na Serra, e havia saído de casa para ir à escola, na Praia do Suá, em Vitória.
Após as aulas, ela foi vista em um bar entre o cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória. Depois disso, Araceli não foi mais encontrada e a família iniciou as buscas.
O corpo de Araceli apareceu em um matagal seis dias depois atrás do Hospital Infantil, em Vitória, e a perícia da Polícia Civil concluiu que ela havia sido drogada, estuprada, assassinada, desfigurada e queimada.
Após as investigações, três suspeitos foram indiciados e denunciados pelo crime: Dante Brito Michelini, o Dantinho; seu pai, Dante de Barros Michelini; e Paulo Constanteen Helal, todos membros de tradicionais e influentes famílias capixabas.
Os dois Michelinis investigados pela morte de Araceli são filho e neto de Dante Michelini, empresário que dá nome à orla de Camburi e morreu em 1965.
Investigação e julgamento
A acusação alegou que Araceli foi raptada por Paulo Helal. No mesmo dia, a menina teria sido levada para o Bar Franciscano, na Praia de Camburi, pertencente à Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob o efeito de drogas por dois dias.
Em razão do excesso de drogas no corpo, Araceli teria entrado em coma e morreu. Paulo Helal e Dantinho teriam jogado o corpo da menina em uma mata atrás do Hospital Infantil.
Mais de 300 pessoas foram ouvidas ao longo das investigações, gerando mais de 12 mil páginas no processo de 33 volumes.
Na época, foi denunciado a forte influência dos acusados com a polícia local para dificultar as investigações. Além disso, testemunhas-chave do processo morreram durante as investigações.
Em 1980, a Justiça condenou Dantinho e Paulo a 18 anos de prisão. Já Dante de Barros Michelini (que já morreu) foi condenado a 5 anos por cumplicidade.
No entanto, a sentença foi anulada pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Em 1991, 18 anos após morte de Araceli, um novo julgamento, mas desta vez a Justiça absolveu os três acusados por falta de provas e até os dias atuais ninguém foi responsabilizado pela morte da menina.
O Ministério Público chegou a recorrer, mas o TJES manteve a absolvição. O crime prescreveu em 1993.
Fonte: Folha Vitória