O BRB comprou R$ 12,2 bilhões de carteiras de crédito consignado do Master, mas que tiveram origem de uma empresa de fachada, segundo a Polícia Federal. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
OBanco de Brasília(BRB) ainda calcula o volume das perdas pelo seu envolvimento com oBanco Master, mas especialistas entendem que o banco será obrigado a diminuir de tamanho ou receber um aporte maior do governo doDistrito Federal, que passa por problemas no Orçamento, para solucionar a equação.
O BRB disse aoEstadãoque tem até o dia 31 de março para divulgar os demonstrativos financeiros de 2025, mas não comentou a situação do balanço e das carteiras do Master. O governo do DF não comentou.
Em depoimento àPolícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central Ailton de Aquino afirmou que as perdas para o BRBpoderiam passar de R$ 5 bilhões, contabilizando provisões para a compra de carteiras de crédito podres do Master e também de ativos que foram trocados pelo BRB, mas que podem não valer o valor inicialmente previsto.
“A probabilidade é que seja mais de R$ 5 bilhões de ajuste(com provisões)”, afirmou Aquino à PF no dia 30 de dezembro.
O banco estatal precisa publicar até o final de março os balanços do terceiro trimestre – que está atrasado – e do quarto trimestre de 2025. Além disso, os números terão de mostrar o tamanho das perdas com as operações com o Master. Em paralelo, oBanco Centralvai exigir um plano de reestruturação crível para cobrir esse buraco.
Compra de carteiras e troca por ativos sob suspeita
O BRB comprou R$ 12,2 bilhões de carteiras de crédito consignado do Master, mas que tiveram origem de uma empresa de fachada, segundo a Polícia Federal, chamada Tirreno.
Após a descoberta dos problemas com as carteiras, o BRB as trocou por outros ativos do Master. Que também podem apresentar irregularidades ou valer menos do que o banco esperava. Uma auditoria interna do BRB ainda faz um pente-fino nesses números para entender os impactos finais no balanço.
Para levantar recursos e cobrir perdas, o banco estuda vender ativos, como outras carteiras de crédito ou lançar um fundo imobiliário. Além de fazer um empréstimo junto aoFundo Garantidor de Crédito (FGC)ereceber recursos do governo do DF, controlador da instituição. O mais provável é que aconteça uma combinação dessas alternativas, com o BRB diminuindo de tamanho, de um lado, e recebendo aportes, do outro.
“Quando um banco faz provisões, significa que ele vai separar recursos para cobrir perdas. Nesse caso, ele tenta vender ativos para levantar receitas e diminuir esse impacto”, explicouLuis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Ratings.
“Em paralelo, ele pode receber aportes do controlador para melhorar o patrimônio líquido e, assim, manter a instituição dentro dos parâmetros mínimos de adequação de capital.”
Risco de desenquadramento do Índice de Basileia
Com a baixa de ativos em seu balanço – ou seja, com o banco reconhecendo que eles valem menos do que achava -, o BRB provavelmente ficará “desenquadrado” do chamado Índice de Basileia – um indicador de prudência medido pelo BC que obriga os bancos a ter um determinado nível de patrimônio em relação aos seus ativos.
Isso também pode levar o BRB a ficar com patrimônio líquido negativo, uma situação ainda urgente para ter resolução.
Em ambos os casos, o Banco Central irá exigir esse plano de reestruturação para que os números voltem para o patamar de prudência do sistema financeiro.
Nesta terça-feira, 3, o BRB divulgou uma nota afirmando que encontrou“achados relevantes”em relatório preliminar de uma auditoria feita pelo banco junto à Machado & Meyer com suporte técnico da Kroll.
Essas informações foram repassadas à Polícia Federal e ao Banco Central. Além disso, dizem respeito a supostos “atos ilícitos” que possam ter sido praticados pela gestão do banco.
O BRB informa que vem adotando inúmeras medidas institucionais, administrativas, extrajudiciais e judiciais relacionadas a fundos de investimentos, garantias e carteiras de crédito, adquiridas pelo BRB, medidas estas que correm parte em sigilo, e que serão reforçadas por novas medidas, com a maior brevidade possível, para garantir a efetividade da preservação dos interesses do Banco
“Por fim, o BRB ressalta que segue sólido e reafirma seu compromisso com a preservação de seu patrimônio. Patrimônio de seus clientes e do desenvolvimento econômico e social de Brasília e região”, completou.
Na última sexta-feira, 30, a Polícia abriu um inquérito para apurar se houve gestão temerária no BRB, autor de proposta de compra do Banco Master – rejeitada pelo Banco Central em setembro.
De acordo com o último balanço divulgado pelo BRB, do segundo trimestre de 2025, os ativos totais do banco somaram R$ 74,5 bilhões. O banco ainda não informou qual será o valor ajustado após a compra de créditos do Master. E a troca de ativos que realizou com o banco de Daniel Vorcaro.
O patrimônio líquido era de R$ 4 bilhões. Por isso, uma baixa de R$ 5 bilhões, como disse Ailton de Aquino, poderia levar o banco a ter patrimônio negativo.
Integrantes do BRB e do governo do Distrito Federal apontam que a solução pode passar pela venda de carteiras de empréstimos a Estados e municípios com garantia da União e de financiamentos imobiliários – dois ativos considerados de qualidade por possuírem baixo risco de inadimplência.
Conforme oEstadãorevelou, obanco negocia a venda de quase R$ 1 bilhão em empréstimos com garantia da União aos bancos Itaú e Bradesco. Seria uma forma de antecipar os valores a receber e levantar recursos rapidamente neste momento.
“O BRB comprou ativos do Master questionáveis em termos de qualificação. Ou eles escondem isso ou ajustam agora e terão que fazer um aporte de capital no patrimônio.” Diz o economistaCamillo Bassi, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e ex-analista do Banco Central. “Um banco não pode ficar com um patrimônio negativo porque ele minguaria a capacidade de ofertar crédito.”
Segundo o especialista, o banco pode antecipar recursos a receber vendendo carteiras com deságio – ou seja, alguma perda. Isso diminuiria o tamanho do BRB em um primeiro momento, mas também reduziria a necessidade de aporte do governo distrital.
“É como se você perdesse algo para ganhar. O BRB perderia, mas poderia recompor o capital e ganhar alavancagem, dentro da relação do Índice de Basileia”, afirmou.
Fonte: Folha Vitória