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Politica

Entre acertos e tropeços: como os candidatos ao Governo do ES se saíram nas entrevistas

Além das propostas, também vieram à tona contradições, estratégias eleitorais, alianças e dificuldades que cada um poderá enfrentar na disputa pelo Palácio Anchieta


Helder Salomão, Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini (fotos: Thiago Soares/FV)

A Rede Vitória encerrou, na noite desta quarta-feira (19), a primeira rodada de entrevistas com os principais candidatos ao governo do Estado.

Passaram pelas sabatinas o deputado Helder Salomão (PT), o governador Ricardo Ferraço (MDB) e o ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), que responderam perguntas dos jornalistas sobre o plano de governo, experiências anteriores e arranjos políticos.

Ao longo dos 30 minutos de conversa com cada candidato, além das propostas, também vieram à tona contradições, estratégias eleitorais, alianças e dificuldades que cada um poderá enfrentar na disputa pelo Palácio Anchieta.

As entrevistas também permitiram observar como os três candidatos se posicionam diante de temas sensíveis, que escapam ao terreno mais confortável do discurso de campanha.

Alguns pontos chamaram atenção – tanto pelo que os candidatos conseguiram apresentar com clareza quanto pelo que ficou sem resposta ou ainda merece mais explicações.

As propostas de combater a criminalidade em todas as esferas – inclusive no “andar de cima” – e de endurecer o enfrentamento à corrupção estiveram entre os movimentos mais calculados da entrevista do deputado Helder Salomão (PT).

Não por acaso. A segurança pública é um dos temas em que adversários, sobretudo da extrema-direita, mais tentam desgastar o PT perante o eleitorado, associando a legenda e o governo Lula a uma suposta leniência no combate à criminalidade.

O candidato criticou o tempo de espera para atendimento no SUS e para a construção do Hospital Geral de Cariacica. Foram críticas sutis, até pelo fato do PT ter feito parte da gestão comandada pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB) – a quem apoia para a segunda vaga ao Senado.

Convicto de que Lula será reeleito para um quarto mandato e reforçando sua condição de candidato do Presidente no Espírito Santo, Helder apontou uma parceria com o governo federal como uma das garantias para viabilizar suas propostas.

Lula tem sido um dos principais ativos da campanha do candidato no Estado. Helder aposta que o Presidente terá uma votação superior a 40% dos votos dos capixabas já no primeiro turno, o que pode respingar nele. Entre os principais candidatos, Helder é o único posicionado na centro-esquerda e esquerda.

A estratégia, porém, enfrenta um desafio: nas três últimas eleições presidenciais, o capixaba não deu vitória ao candidato do PT e ainda que, o Presidente apareça como um ativo eleitoral para uma parcela do eleitorado, o governo federal também pode representar um ponto de vulnerabilidade.

Questionado sobre o endividamento público do País e sobre o impacto no custo de vida do eleitor, Helder teve dificuldades para justificar a situação fiscal do governo Lula. Afirmou apenas que manterá as contas em dia e que não está em seu radar aumentar impostos para os capixabas.

Outro ponto que ficou sem uma resposta mais detalhada foi a proposta contida em seu plano de governo de “coibição do encarceramento em massa”. Questionado se haveria alguma nova política para o sistema prisional, Helder limitou-se a dizer que o encarceramento “por si só não resolve o problema da violência”.

Amparado pela neutralidade anunciada por seu partido, o governador e candidato à reeleição Ricardo Ferraço (MDB) adotou como estratégia não declarar apoio a nenhum candidato à Presidência da República – uma postura que difere da sua trajetória política, marcada por posicionamentos historicamente críticos aos governos do PT.

Ricardo justificou a escolha como uma forma de preservar a “harmonia” e afirmou estar preparado para governar com quem for eleito ao Palácio do Planalto.

A estratégia pode ser interpretada tanto como cautela e pragmatismo – numa tentativa de manter pontes com diferentes campos políticos – quanto como uma opção por não se posicionar em uma disputa nacional que tende a repercutir na eleição estadual.

Ao ser questionado sobre se um eventual novo governo teria um perfil mais à direita – tendo em vista algumas ações tomadas nos quase cinco meses em que está à frente do Palácio Anchieta –, Ricardo também desconversou – o “ficar em cima do muro” é algo que, tradicionalmente, incomoda o eleitor.

Por outro lado, Ricardo não se furtou de dar esclarecimentos sobre um tema delicado: a crise financeira da plataforma Apex Partners, que tem o seu filho como vice-presidente.

Ao ser questionado, o governador defendeu uma “investigação rigorosa”, garantiu que não há recursos públicos investidos na empresa, disse acreditar na inocência do filho, mas ressaltou que ele também está sujeito às regras.

Foi a primeira vez que Ricardo tratou publicamente do assunto. As respostas, naturalmente, permanecem sujeitas a questionamentos e ao avanço das investigações, mas a disposição de encarar o tema, em vez de evitá-lo, resultou num ponto positivo para o governador.

Ao tratar da criminalidade – apontada como a principal preocupação da população, segundo enquete do Folha Vitória – Ricardo anunciou, para um eventual próximo governo, a criação de uma subsecretaria voltada a reunir as ações de combate às facções criminosas.

A proposta, porém, produz uma pergunta inevitável: por que uma estrutura específica para enfrentar as facções só seria criada agora, se Ricardo já está à frente do governo e foi vice-governador de Renato Casagrande (PSB)? A presença do crime organizado no Estado não é um fenômeno recente.

Na saúde, outro ponto ficou em aberto. Questionado três vezes sobre quando a fila de espera no SUS seria encerrada, Ricardo citou obras do governo Casagrande que estão em andamento, mas não se comprometeu com um prazo.

Lorenzo Pazolini (Republicanos)

Usando Vitória como vitrine, o ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) adotou uma estratégia que foi além da exposição de um projeto de governo.

A aposta foi de se apresentar como alguém que já foi testado nas urnas e na gestão pública e que, portanto, teria experiência para agora ampliar a escala de sua atuação.

Pazolini mostrou segurança ao falar da administração da Capital e tentou transformar resultados de sua gestão em credenciais para a disputa estadual.

Na Segurança Pública – terreno especialmente confortável para o ex-delegado –, atribuiu à gestão municipal parte dos resultados alcançados pela Capital na redução da criminalidade.

Na saúde, citou medidas adotadas no município e que, segundo ele, eliminaram filas de espera por consultas especializadas. Na educação, destacou os investimentos e, principalmente, a implantação de escolas em tempo integral.

Em praticamente todas essas áreas, ficou nítida a tentativa de transformar a experiência municipal em uma espécie de cartão de visitas para o Palácio Anchieta. “Como Vitória fez” foi repetido diversas vezes pelo ex-prefeito para sustentar o argumento de que, se funcionou na Capital, pode funcionar também no Estado. Trata-se de uma estratégia que encontra coro entre os eleitores.

A questão que se coloca, porém, é que o Espírito Santo não é uma Vitória ampliada. A realidade dos 77 municípios é muito mais diversa em população, estrutura, arrecadação e demandas.

Simplesmente replicar políticas da Capital – só para lembrar, Vitória é o menor entre os quatro principais municípios da Região Metropolitana – pode não ser suficiente para responder às diferenças e desigualdades regionais. E, quando questionado sobre como faria essa transposição, principalmente na área de segurança pública, faltou um aprofundamento maior por parte do candidato.

Pazolini também prometeu uma relação mais próxima entre o governo do Estado e os municípios. “Prefeitos serão prestigiados”, afirmou. A promessa, porém, contrasta com a relação marcada por atritos entre o governo do Estado e a Prefeitura de Vitória durante seu mandato como prefeito.

Quando o assunto entrou nas escolhas políticas que moldaram a candidatura de Pazolini – especialmente a aproximação com o bolsonarismo e a aliança com o senador Magno Malta (PL) –, mais lacunas foram abertas.

Pazolini foi questionado sobre o peso que Magno Malta e o bolsonarismo teriam em um eventual governo, mas evitou dimensionar essa influência. O PL ficou com a vice e com a primeira vaga ao Senado na chapa do candidato.

Além disso, Pazolini declarou apoio ao presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) – uma postura bastante diferente da que foi apresentada nas duas últimas eleições para prefeito da Capital, quando evitou ao máximo entrar na polarização.

Ao término da entrevista, restou a dúvida se o modelo de Vitória pode ser replicado nos outros 77 municípios e, acima de tudo, que tipo de governador Pazolini pretende ser: se priorizará o perfil de gestor técnico que o consagrou na Capital ou se colocará o alinhamento ideológico com o bolsonarismo no centro de um eventual governo.

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Folha Vitória

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