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Oportunidades

Trabalho híbrido exige mais do que domínio técnico: veja habilidades que fazem a diferença

Comunicação, autonomia, organização, inteligência emocional e capacidade de adaptação ganham peso em uma rotina que combina escritório e trabalho remoto


Foto: Magnific

O trabalho híbrido se consolidou como uma das principais formas de organização profissional após a pandemia, mas a flexibilidade trouxe novas exigências para trabalhadores e empresas. Levantamento do Insper mostra que, em março de 2025, profissionais brasileiros com atividades compatíveis com o trabalho remoto atuavam, em média, 2,32 dias por semana em home office. Na área de Tecnologia da Informação, a média chegava a 3,67 dias.

A pesquisa da EY Brasil reforça esse cenário: 45% das empresas brasileiras adotam o modelo híbrido com dois dias presenciais e três remotos, enquanto apenas 14% trabalham totalmente de forma remota. Ao mesmo tempo, cresce a pressão pelo retorno aos escritórios. Entre organizações internacionais de tecnologia, 85% mantêm algum formato híbrido, mas 51% estimulam ou exigem mais dias presenciais.

Nesse cenário, saber trabalhar bem deixou de depender apenas da capacidade técnica. Comunicação, autonomia, organização, colaboração, inteligência emocional e adaptação passaram a ter papel ainda mais evidente na rotina de quem precisa alternar entre casa e escritório. Para entender quais competências fazem diferença nesse modelo, o Folha Vitória conversou com Caroline Bezerra, coordenadora do curso de Psicologia da FAESA.

Confira a entrevista completa:

O trabalho híbrido exige uma combinação diferente de habilidades em comparação ao trabalho totalmente presencial? Quais competências são fundamentais para um bom desempenho?

Sim. Muitas dessas competências sempre foram importantes, mas o trabalho híbrido tornou algumas delas muito mais evidentes. No presencial, parte da organização é sustentada pelo próprio contexto: horário de chegada, colegas por perto, reuniões e uma rotina mais visível. No híbrido, o profissional precisa assumir uma parcela maior da gestão do próprio trabalho.

Por isso, considero fundamentais autonomia, organização, comunicação, adaptabilidade, colaboração e inteligência emocional. Não basta dominar tecnicamente aquilo que se faz. É preciso administrar o próprio tempo, comunicar o andamento das atividades, pedir ajuda quando necessário e compreender que nem todas as interações acontecerão da mesma maneira. O trabalho híbrido transfere parte da estrutura que antes estava no ambiente para o próprio profissional, exigindo maturidade e autorregulação.

A comunicação ganha ainda mais peso quando parte das interações acontece presencialmente e outra parte por mensagens, chamadas e reuniões virtuais. Como evitar ruídos?

Um dos principais desafios é não pressupor que o outro entendeu simplesmente porque a mensagem foi enviada. Na comunicação digital, perdemos elementos que ajudam a interpretar uma conversa presencialmente, como tom de voz, expressão facial e contexto.

Por isso, precisamos desenvolver uma comunicação mais intencional e contextualizada. É importante deixar claros prazos, responsabilidades e expectativas, além de escolher o canal adequado para cada conversa. Nem tudo precisa virar uma reunião, mas também nem todo assunto deveria ser resolvido por uma mensagem rápida. E comunicação não é sinônimo de disponibilidade permanente: uma equipe que envia mensagens o tempo inteiro não é necessariamente uma equipe que se comunica bem.

Como construir e manter relações profissionais de qualidade quando os colegas não estão juntos todos os dias? A convivência presencial ainda é importante?

A convivência presencial continua tendo um papel importante porque as relações humanas também são construídas a partir de encontros informais. Muitas vezes, a confiança não nasce em uma reunião formal, mas naquela conversa antes da reunião, no café ou em uma troca espontânea.

Isso não significa que vínculos não possam ser construídos à distância. Podem, mas, no trabalho híbrido, precisamos ser mais intencionais. Criar momentos de troca que não estejam relacionados apenas as tarefas, conhecer minimamente as pessoas, oferecer ajuda, reconhecer o trabalho do outro e criar espaços de escuta contribuem para o sentimento de pertencimento. Equipes não são formadas apenas por pessoas que compartilham tarefas, mas por pessoas que precisam construir confiança para trabalhar juntas.

A autonomia é uma das características mais exigidas no trabalho híbrido. Como desenvolvê-la?

Primeiro, precisamos diferenciar autonomia de independência. Ser autônomo não significa fazer tudo sozinho ou nunca pedir ajuda. Significa compreender suas responsabilidades, tomar decisões dentro daquilo que lhe compete e reconhecer quando precisa acionar outras pessoas.

Essa competência pode ser desenvolvida estabelecendo prioridades, organizando entregas, acompanhando os próprios prazos e criando uma rotina que não dependa permanentemente de alguém dizendo qual é o próximo passo. Também é importante aprender a fazer boas perguntas. Um profissional autônomo não é aquele que não tem dúvidas, mas aquele que consegue identificar o que precisa saber para avançar.

Organização e gestão do tempo se tornam desafios quando a rotina é dividida entre casa e escritório. Quais estratégias ajudam?

Uma das principais estratégias é criar marcadores claros de início e término do trabalho. Quando trabalhamos em casa, desaparecem alguns rituais que antes sinalizavam isso naturalmente, como sair de casa, chegar ao escritório e retornar no final do dia.

Por isso, é importante definir horários, organizar prioridades, fazer pausas e estabelecer momentos em que as notificações profissionais serão encerradas. Também é fundamental abandonar a ideia de que produtividade significa estar ocupado o tempo inteiro. Existe um risco no trabalho híbrido e remoto de o trabalho deixar de ser um lugar para onde vamos e passar a ocupar todos os espaços da nossa vida. Flexibilidade sem limite pode se transformar em disponibilidade permanente. Aprender a encerrar o expediente também é uma competência profissional.

Como a inteligência emocional ajuda a lidar com cobranças, conflitos e estresse em equipes híbridas?

Inteligência emocional começa pela capacidade de reconhecer o que está acontecendo conosco antes de simplesmente reagirmos. Isso é especialmente importante na comunicação digital. Uma mensagem curta pode ser interpretada como cobrança ou hostilidade, dependendo do estado emocional de quem a recebe, mesmo que essa não tenha sido a intenção de quem enviou.

A inteligência emocional ajuda a criar um espaço entre aquilo que sentimos e a maneira como respondemos. Isso significa avaliar uma situação, buscar informações antes de tirar conclusões, tolerar frustrações e conversar sobre conflitos sem transformá-los imediatamente em confrontos pessoais. Também envolve empatia, porque, em uma equipe híbrida, nem sempre temos acesso ao contexto completo do outro. Muitas vezes, uma pequena pausa antes de responder uma mensagem já modifica completamente a qualidade daquela interação.

Como evitar que quem está remoto fique isolado ou tenha menos participação nas decisões?

Existe o risco de surgir uma espécie de proximidade privilegiada: quem está fisicamente mais próximo das lideranças pode acabar tendo mais acesso a informações, decisões e oportunidades. Por isso, a inclusão no trabalho híbrido precisa ser pensada de maneira intencional.

Se parte da equipe participa remotamente de uma reunião, não basta apenas abrir uma câmera. É necessário garantir que essas pessoas tenham espaço real de fala e acesso às mesmas informações. Decisões importantes também precisam ser registradas. Se uma decisão aconteceu em uma conversa de corredor, ela precisa chegar formalmente a quem não estava naquele espaço.

Há também uma responsabilidade do profissional remoto, que precisa se posicionar, participar, comunicar suas entregas e construir presença profissional. No trabalho híbrido, presença não pode ser confundida com presença física.

Por que a capacidade de adaptação é tão importante no modelo híbrido e como desenvolvê-la?

Estamos vivendo um cenário de trabalho em transformação. Ferramentas mudam, processos mudam, equipes se reorganizam e novas tecnologias, inclusive a inteligência artificial, alteram rapidamente a maneira como algumas atividades são realizadas.

Adaptabilidade não significa aceitar qualquer mudança sem questionamento. Significa conseguir compreender um novo cenário, aprender aquilo que é necessário e ajustar estratégias sem perder completamente a capacidade de funcionar diante do novo. Essa competência pode ser desenvolvida com curiosidade, disposição para aprender, abertura ao feedback e tolerância ao desconforto de ainda não dominar alguma coisa. Talvez uma das competências profissionais mais importantes atualmente seja justamente essa: aprender, desaprender algumas formas de fazer e reaprender continuamente.

Para jovens que começaram a graduação, o estágio ou os primeiros empregos em uma realidade mais flexível, quais habilidades comportamentais precisam ser desenvolvidas?

Eu destacaria principalmente comunicação, responsabilidade, autonomia, capacidade de pedir ajuda e abertura para feedback. Muitos jovens ingressaram no mundo acadêmico e profissional já acostumados a resolver grande parte das coisas por meio de uma tela. Isso traz muitas habilidades, mas também pode reduzir algumas oportunidades de aprendizagem que acontecem pela convivência.

No início da carreira, observar profissionais mais experientes, acompanhar reuniões, conversar informalmente e perceber como determinados problemas são resolvidos também são formas de aprender. Por isso, eu diria aos jovens que aproveitem a flexibilidade, mas não subestimem a importância dos encontros. É preciso aprender a circular nos dois ambientes. A competência técnica abre algumas portas, mas a capacidade de aprender, se comunicar e construir boas relações ajuda a permanecer e crescer nelas.

Para quem está começando ou se adaptando ao trabalho híbrido, quais comportamentos e habilidades devem ser desenvolvidos desde o início?

Eu resumiria em três movimentos: organizar a si mesmo, comunicar-se com clareza e permanecer conectado às pessoas. Primeiro, organize sua rotina, saiba quais são suas prioridades, acompanhe seus prazos e estabeleça limites entre trabalho e vida pessoal.

Segundo, não espere que as pessoas adivinhem o que você está fazendo. Comunique avanços, dificuldades e necessidades e aprenda a escolher quando uma mensagem é suficiente e quando uma conversa é necessária. Terceiro, cuide das relações: participe das reuniões, procure as pessoas, ofereça ajuda, peça feedback e aproveite os momentos presenciais para construir vínculos. Não confunda flexibilidade com falta de estrutura. Quanto mais flexível é o ambiente, mais importante se torna a capacidade de criar uma estrutura interna para trabalhar bem.

No fim, acredito que o grande desafio do trabalho híbrido não seja tecnológico. Nós já temos muitas ferramentas para trabalhar de qualquer lugar. O desafio é humano: aprender a exercer autonomia sem isolamento, flexibilidade sem desorganização e conexão digital sem perder a qualidade das relações.

Caroline de Paula Corrêa Bezerra é psicóloga, mestre em Psicologia, coordenadora do curso de Psicologia da FAESA e atua com orientação profissional e de carreira, saúde mental, desenvolvimento humano e formação de profissionais.

Folha Vitória

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