Durante a pandemia de Covid-19, empresas que nunca haviam trabalhado remotamente precisaram adaptar processos em poucos dias para manter as atividades e proteger os funcionários. Com o fim das restrições, porém, o cenário mudou novamente: o retorno ao escritório ganhou força, mas o home office deixou de ser apenas uma solução emergencial e passou a fazer parte da estrutura de muitas organizações.
Dados revelam que o trabalho híbrido não perdeu espaço, mas se tornou mais estruturado. Um levantamento do Insper apontou que, em março de 2025, profissionais brasileiros com atividades compatíveis com o trabalho remoto trabalhavam, em média, 2,32 dias por semana de casa. Na área de Tecnologia da Informação, a média chegava a 3,67 dias.
O modelo também aparece com força nas pesquisas sobre o mercado. Dados da ABRH/Umanni, divulgados em 2025 com base em 3.821 profissionais de Recursos Humanos, mostram que 46,6% das empresas pesquisadas eram 100% presenciais, 46,2% adotavam o modelo híbrido e 7,3% trabalhavam totalmente de forma remota.
Do home office ao modelo híbrido
O dado oficial mais abrangente do IBGE sobre teletrabalho identificou 7,4 milhões de pessoas nessa modalidade em 2022, o equivalente a 7,7% dos ocupados. Como não há uma série anual equivalente até 2026, não é possível medir diretamente, pelo IBGE, a evolução do trabalho híbrido no período.
Para a professora da Unidade de Gestão e Negócios da Faesa Fernanda Anchieta, a pandemia foi um divisor de águas para a estruturação do trabalho remoto, mas a experiência mostrou limites do modelo totalmente a distância.
“Algumas competências que precisam ser desenvolvidas pelas pessoas ficam mais difíceis quando o formato é remoto”, explica.
Segundo Fernanda, o híbrido passou a ser estruturado pelas empresas com combinações como três dias presenciais e dois remotos, ou o inverso. A presença física, segundo ela, favorece a tomada de decisões, a vivência da cultura organizacional e o desenvolvimento de competências comportamentais, como trabalho em equipe, comunicação e tomada de decisão.
Ao mesmo tempo, a professora destaca que a flexibilidade continua sendo valorizada. Menos tempo no deslocamento, possibilidade de praticar atividade física, almoçar com os filhos e ter mais tempo em família estão entre os fatores que tornam o híbrido atrativo.
O desafio para quem começou na pandemia
A mudança também atinge uma geração que iniciou a graduação, o estágio ou os primeiros empregos durante ou depois da pandemia. Pesquisa da Gallup citada pela assessoria da Faesa aponta que 71% da Geração Z prefere o modelo híbrido, enquanto apenas 6% escolheria trabalhar exclusivamente de forma presencial.
Para Fernanda, os jovens passam por uma transformação nas escolhas profissionais. “Os mais jovens têm como crença o trabalho 100% remoto. E a gente vê uma queda dessa opção de oferta de trabalho”, diz. Ainda assim, segundo ela, a maior parte dos jovens tem optado pelo híbrido, exceto nas carreiras que exigem presença integral.
A experiência de João Broto, estudante universitário, ajuda a mostrar essa transição. Ele já passou pelos três formatos: começou em um emprego 100% presencial, depois teve uma experiência híbrida e atualmente trabalha de forma totalmente remota.
Para ele, o presencial pode ser especialmente importante no primeiro contato com o mercado. “Para uma primeira experiência isso é necessário porque você precisa ter alguém ali do seu lado para conseguir tirar a dúvida e estar ali para te apoiar em qualquer coisa que você vai fazer dentro do seu trabalho”, conta.
Depois de experimentar os três modelos, João diz preferir o híbrido. “Tem todo o seu conforto de ficar em casa, no seu espaço, só que ele também faz você encontrar com as pessoas que você trabalha, que é algo necessário, hoje em dia, você ter esse contato físico com a sua equipe. Não só por conta do profissionalismo, mas por conta do humano mesmo”, fala.
Convivência não depende apenas do escritório
A discussão sobre o retorno ao ambiente presencial também envolve aspectos psicológicos e sociais. Para Gabriela de Brito Martins, professora do curso de Psicologia da Faesa, a interação com colegas é importante para processos como aprendizado, reconhecimento do trabalho e construção de vínculos. Mas, segundo ela, não basta estar fisicamente no mesmo espaço.
“Essa questão do contato humano, da interação, essa questão do movimento mesmo, do se direcionar para o trabalho, isso vai fazer diferença”, afirma. Por outro lado, ela ressalta que o simples fato de estar no escritório não garante relações mais próximas. “A gente não tem como garantir que um trabalho presencial vai ser um trabalho em que as pessoas vão ter mais contato”, explica.
Segundo Gabriela, o trabalho remoto pode favorecer vínculos quando existem formas de interação, autonomia e diferentes possibilidades de aprendizado. Para ela, o mais importante é a maneira como o trabalho é organizado.
“O trabalho vai ser cada vez mais saudável na medida em que as pessoas se reconhecem naquilo que elas fazem, na medida em que elas percebem que têm ali um grau de autonomia”, afirma.
Na prática, o híbrido vira diferencial
A experiência da consultora financeira Laís Loss Raphascki mostra como empresas também passaram por esse processo de amadurecimento. Antes da pandemia, sua empresa funcionava 100% presencialmente. Com a chegada da Covid-19, a equipe precisou migrar rapidamente para o home office e permaneceu nesse formato por quase dois anos.
O retorno ao presencial trouxe um novo desafio. “Eu sair de um 100% home office para eu voltar 100% presencial, tem ali uma certa resistência”, relata Laís. Depois da experiência remota, a empresa adotou o modelo híbrido: de segunda a quinta-feira, a equipe trabalha presencialmente; às sextas, trabalha de casa, inclusive por questões de trânsito e mobilidade.
Para a consultora, a modalidade funciona quando existe maturidade tanto da empresa quanto do funcionário.
“O home office não é para todo mundo e ele não funciona em todas as empresas porque ele exige um nível de autogestão, comprometimento muito grande”, conta.
A experiência também transformou o modelo híbrido em um diferencial nos processos seletivos. Segundo Laís, candidatos passaram a perguntar sobre a possibilidade de trabalhar de casa. Ela, porém, ressalta que a flexibilidade depende de responsabilidade, organização e comunicação. “O home office é um dia de trabalho, como qualquer outro, como aqui no escritório”, destacou.
Na equipe, a assistente financeira Valquíria Martins vivenciou o modelo híbrido pela primeira vez na empresa. A adaptação, segundo ela, foi tranquila. “Eu gosto bastante. Eu acredito que o modelo híbrido, com responsabilidade, ele funciona muito bem. E a gente tem autonomia de trabalhar de casa”, avalia.
O que muda para empresas e profissionais
No Espírito Santo, um estudo do Ipea estimou que 21,8% das ocupações têm potencial para o teletrabalho, o equivalente a aproximadamente 413 mil pessoas. O percentual coloca o Estado próximo da média nacional estimada, de 22,7%, e na 10ª posição entre as unidades da Federação.
O número, porém, não significa que 21,8% dos capixabas trabalhem remotamente. Trata-se do potencial de ocupações que, pelas características das atividades, poderiam ser realizadas a distância em algum grau. A presença de setores como indústria, mineração, logística, portos, construção, comércio e transporte limita a adoção do home office.
Por outro lado, áreas como tecnologia, contabilidade, finanças, administração, RH, marketing, análise de dados, consultoria, jurídico, educação, vendas B2B e outros serviços corporativos possuem maior compatibilidade com formatos híbridos.
Para Fernanda, a preparação para esse mercado começa ainda na faculdade. Na Faesa, segundo ela, projetos integradores e extensionistas aproximam os estudantes da realidade profissional por meio de visitas, palestras, estudos e contato com o mercado. “Eles vivenciam na prática aquilo que o mercado está praticando”, diz.
Folha Vitória