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Fábrica da GWM no ES marca virada que vai além dos carros elétricos

Investimento bilionário em Aracruz pode transformar o Espírito Santo de porta de entrada das importações em polo de produção e exportação

Por Redação em 25/07/2026 às 09:00:59
Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

*Artigo escrito por Leonardo Gonoring Gonçalves Simon, sócio e advogado do escritório Abreu Júdice.

A Great Wall Motors e o governo do Estado assinaram em fevereiro de 2026 o termo de compromisso da segunda fábrica da montadora chinesa no Brasil, em Aracruz, Barra do Riacho, e o lançamento oficial ocorreu em 30 de junho. A planta terá processo produtivo completo, da estamparia à montagem final, capacidade de 200 mil veículos por ano e o primeiro carro previsto para 2029, com investimento de R$ 4,6 bilhões que se somam aos R$ 10 bilhões já anunciados pela GWM para o Brasil até 2032.

O anúncio foi recebido como consagração, e com razão. Acompanho o comércio exterior capixaba há anos como assessor jurídico do Sindiex, e vejo nele mais do que uma boa notícia, vejo o Espírito Santo dando, no momento certo, o passo seguinte de uma estratégia que vinha amadurecendo.

O ponto de partida é uma posição que poucos estados podem exibir. O Espírito Santo é a maior porta de entrada de veículos importados do país.

Em 2025, os portos capixabas movimentaram cerca de 186 mil veículos, dos quais aproximadamente 165 mil eletrificados, segmento que somou cerca de R$ 3,3 bilhões; somada toda a importação de veículos, o Estado alcançou perto de R$ 20,3 bilhões no ano, segundo o Sindiex com base no Comex Stat.

Nos dez primeiros meses de 2024, respondeu por 47,1% de tudo que o Brasil importou no setor, e hoje cerca de 90% dos carros eletrificados importados no país desembarcam no litoral capixaba, em sua maioria pelo Terminal de Vila Velha. Essa primazia tem raiz normativa.

Na importação de veículos, o incentivo que pesa é o Invest-ES, e em especial o Invest-Importação, que difere o recolhimento do ICMS na entrada da mercadoria; o antigo Fundap, ainda vigente, vem cedendo lugar a esse desenho mais moderno, para o qual o próprio Estado tem migrado.

Foi uma política pública que tornou os portos capixabas o destino natural de montadoras e importadoras que operam em escala nacional.

A leitura econômica do anúncio já se consolidou, e está correta, a fábrica reposiciona o Espírito Santo na produção, e a oportunidade está em adensar a cadeia local de fornecedores, meta que a própria montadora assumiu ao se comprometer com 35% de conteúdo local nos dois primeiros anos, rumo a 60% na maturidade.

O arcabouço de incentivos que sustenta esse movimento é jurídico, e tem prazo. A reforma tributária do consumo, pela Emenda Constitucional 132/2023 e pela Lei Complementar 214/2025, extingue o ICMS entre 2029 e 2033, e com ele a base legal dos benefícios estaduais, fruíveis com segurança apenas até 2032.

Para quem decide um investimento de longo prazo, esse é o dado central: a vantagem fiscal que atraiu a importação para o Espírito Santo tem data de vencimento na lei.

A boa notícia, e é aqui que o ângulo jurídico se faz otimista, é que o próprio ordenamento oferece uma saída: a exportação é imune ao IBS e à CBS.

Migrar da condição de porta de entrada para a de polo de beneficiamento é o caminho para o Espírito Santo seguir relevante quando incentivos se encerrarem.

E o Estado tem como fazê-lo: a infraestrutura portuária, a competência logística que sustentou anos de crescimento e, agora, a indústria que agrega valor a tudo isso.

A vocação de comércio exterior não se perde nessa virada, ela se aprofunda, ganhando uma etapa a mais na cadeia.

Nada disso é automático, e é aqui que entra o trabalho que cabe ao Sindiex e aos atores do comércio exterior capixaba.

Três frentes, pedem atenção desde já: a segurança jurídica das regras tarifárias federais, hoje renovadas de seis em seis meses e já sob ameaça de judicialização, de que todo investimento de longo prazo depende; o desenho da transição dos incentivos estaduais, do Fundap ao Invest e adiante, para que o importador não fique sem amparo entre um regime e outro; e o bom uso dos regimes aduaneiros e tributários que sustentam a montagem voltada à exportação, como a imunidade constitucional e o drawback. São desafios à altura de quem já entregou resultados maiores.

O Espírito Santo soube ser a porta de entrada do país, e saberá ser também a sua linha de montagem.

A planta de Barra do Riacho é um dos primeiros passos dessa travessia, e o que nos cabe é garantir que o estado a faça com a mesma competência que o tornou líder.

Há motivos de sobra para otimismo, desde que ele venha acompanhado de planejamento e da segurança jurídica que um investimento desse porte exige.

Fonte: Folha Vitoria

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