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Raphael Pereira: “Queremos usar a infraestrutura de gás como ferramenta para o desenvolvimento”

O Espírito Santo vive um novo ciclo de expansão do consumo e da infraestrutura de gás natural, impulsionado principalmente pela indústria. Em 2025, o Estado consumiu 793 milhões de metr

Por Redação em 20/09/2026 às 13:00:14
Raphael Pereira: ES Gás quer ampliar rede de fornecimento e chegar a 180 mil clientes até 2030. Crédito: Reprodução da TV

Raphael Pereira: ES Gás quer ampliar rede de fornecimento e chegar a 180 mil clientes até 2030. Crédito: Reprodução da TV

O Espírito Santo vive um novo ciclo de expansão do consumo e da infraestrutura de gás natural, impulsionado principalmente pela indústria. Em 2025, o Estado consumiu 793 milhões de metros cúbicos de gás natural. Ou seja, uma alta de 14,8% sobre os 690,9 milhões de metros cúbicos registrados em 2024. A indústria respondeu por 83,1% desse volume, enquanto as termelétricas representaram 11,2%.

Até 2030, a ES Gás prevê investir cerca de R$ 1 bilhão, construir aproximadamente 480 quilômetros de novas redes, conectar 92 mil novos consumidores e atender mais 30 indústrias. O plano a empresa inclui ainda a chegada a cinco novos municípios e a integração de usinas de biometano à rede. A meta é alcançar aproximadamente 180 mil clientes e superar a marca de mil quilômetros de rede de distribuição até o fim da década.

À frente desse movimento está Raphael Pereira, diretor-presidente da ES Gás. Engenheiro de produção, com pós-graduação em óleo e gás pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele acumula mais de 20 anos de experiência na indústria de gás natural. Ele acredita que o avanço industrial no Espírito Santo, os investimentos em Aracruz e no Norte do Estado, com a chegada da GWM, podem impulsionar o uso de gás no Estado. Rafael também aponta para o potencial dos data centers, a expansão do mercado livre e o papel do biometano na descarbonização da economia capixaba.

Veja abaixo a entrevista com Rafael Pereira, diretor-presidente da ES Gás:

Como o atual ciclo de investimentos do Espírito Santo mudou a demanda por gás natural?

Antes da privatização, vínhamos de um ciclo de baixos investimentos na infraestrutura de distribuição de gás. Com a privatização, conseguimos dar vazão a investimentos que estavam represados, acessar mais consumidores e destravar novas possibilidades para o Espírito Santo.

Temos investimentos industriais anunciados recentemente que vão consumir gás natural. A montadora chinesa que vai se estabelecer no Estado é consumidora de gás. A ArcelorMittal anunciou o laminador de tiras a frio, que também vai utilizar gás natural. A nova planta de silicatos da Vale terá demanda por gás. Poderíamos passar boa parte da entrevista falando de clientes industriais que estão chegando ou avaliando se instalar no Espírito Santo e para os quais o gás natural é um habilitador.

Também há crescimento forte no mercado residencial. Nos últimos dois ou três anos, tivemos aumento de quase 30% da base de clientes residenciais. Cerca de 95% das novas construções na Grande Vitória já são atendidas ou serão atendidas pelo gás natural quando concluídas.

Há ainda comércio, hospitais, bares e restaurantes que antes dependiam do GLP e que, com o avanço da rede, passaram a ter acesso ao gás natural. Isso aumenta a competitividade desses estabelecimentos e também contribui para setores como o turismo.

A ES Gás prevê investir cerca de R$ 1 bilhão até 2030. Esse valor será suficiente?

Acreditamos que esse R$ 1 bilhão projetado já contempla a chegada dessas indústrias. Entre 70% e 80% desse valor está diretamente conectado à expansão.

Se tivermos a boa notícia de ainda mais indústrias vindo para cá e precisarmos revisar esse plano, vamos revisar. Não vamos perder a oportunidade de atrair empresas e transformar o Espírito Santo em um celeiro para essas indústrias.

Neste momento, entendemos que R$ 1 bilhão é suficiente. É o maior plano de investimento em distribuição de gás que o Espírito Santo já teve.

Quais municípios devem receber gás canalizado e qual é a estratégia por trás da expansão?

A ideia é interiorizar o gás natural e preparar novas regiões para receber investimentos. Linhares é um exemplo importante. Hoje, em número de indústrias, só fica atrás da Serra, e há mais empresas caminhando para a região.

Aracruz também será muito comentada nos próximos anos. Além dessas regiões, nosso plano contempla Pedro Canário, Nova Venécia e Jaguaré, no Norte do Estado, além de Mimoso do Sul e Domingos Martins, mais ao Sul.

Algumas dessas regiões têm forte vocação industrial e agropecuária. Outras, como Domingos Martins, também apresentam um componente turístico importante. Queremos usar a infraestrutura de gás como ferramenta para o desenvolvimento.

E como o gás natural pode contribuir para o agronegócio capixaba?

O gás já cumpre um papel importante no agro há alguns anos, principalmente no café. A torrefação do café feita por uma das grandes empresas instaladas no Espírito Santo já utiliza gás natural há bastante tempo.

Neste ano, concluímos também um projeto de pesquisa e desenvolvimento para utilização de gás natural na secagem do café. É uma aplicação nova, em que substituímos a lenha pelo gás natural e conseguimos ganhos de produtividade e de qualidade no café Conilon.

Os resultados mostraram ganhos de produção, qualidade e nota sensorial. Portanto, acreditamos que o gás natural tem muito a contribuir com o agro.

E não apenas no café. Temos, por exemplo, aplicações na esterilização da pimenta e diversas outras atividades que podem usar o gás para aumentar produtividade, competitividade e qualidade do produto final.

Por que o Norte do ES se tornou tão estratégico para a expansão da ES Gás?

O Norte já vem dando sinais de crescimento econômico forte há alguns anos. Linhares, por exemplo, cresceu muito. Começamos lá com um sistema de distribuição por carretas, porque o volume ainda era pequeno e a região não estava conectada aos nossos dutos.

Porém a demanda cresceu muito, as indústrias começaram a procurar a região e tivemos que fazer a ligação definitiva com os dutos para conseguir atender esse crescimento.

O agro, principalmente o café, ajuda a puxar essa expansão. E as indústrias querem se estabelecer perto das atividades econômicas que estão se destacando.

Acreditamos que o Norte do Espírito Santo está sendo muito observado por investidores brasileiros e estrangeiros. Quando falamos de infraestrutura, temos que olhar para o futuro e nos antecipar. Muitas vezes, depois que a decisão de investimento de uma empresa é tomada, não há tempo suficiente para construir toda a infraestrutura necessária.

Estamos apostando que o Norte do Espírito Santo vai crescer, e crescer muito.

O ES tenta agregar mais valor à produção local, em vez de apenas exportar commodities. Qual é o papel do gás nessa nova industrialização?

Existem dois pontos muito importantes. O primeiro é a competitividade. Ter infraestrutura de gás natural disponível ajuda as indústrias a se estabelecerem aqui e a competir de igual para igual no mercado externo.

O segundo é que novas aplicações do gás natural também contribuem para a qualidade dos produtos e para a descarbonização, que é cada vez mais importante.

Podemos discutir redução da pegada de carbono no aço, no minério de ferro e até na logística, com os caminhões que transportam esses produtos. O gás natural pode contribuir em várias dessas áreas.

Então, tanto do ponto de vista da competitividade como da qualidade e da eficiência do que é produzido no Estado, o gás natural tem relação direta com essa nova industrialização. E isso ganha importância porque mercados compradores, como a Europa, são cada vez mais rigorosos em relação à pegada de carbono dos produtos.

A GWM deve atrair uma cadeia de fornecedores para Aracruz. Há gás suficiente para atender a essa demanda?

Temos, sim. O Espírito Santo é muito privilegiado do ponto de vista de acesso ao gás natural. O Estado é cortado de Norte a Sul pelo duto nacional de transporte da TAG. Isso nos permite acessar gás de diferentes origens, inclusive Argentina, Bolívia, terminais de GNL, Bacia de Campos e outras regiões produtoras.

O investimento na distribuição é o ponto crítico, porque é ele que conecta essa oferta ao consumidor final.

No caso da GWM, nossas conversas já acontecem há bastante tempo. A empresa colocou a infraestrutura de abastecimento de gás natural entre os fatores relevantes para sua instalação. Ela está se estabelecendo aqui também porque existe disponibilidade de gás e investimento em infraestrutura.

Estamos fazendo investimentos na região e devemos iniciar a primeira fase do projeto que levará essa infraestrutura para a GWM.

Mas não estamos construindo infraestrutura apenas para a GWM. Estamos pensando em toda a região de Aracruz e nas outras indústrias que podem se estabelecer ali. Aracruz também tem enorme potencial portuário, com o porto da Imetame em desenvolvimento, e isso deve trazer outros investimentos.

Portanto, a região estará preparada. Tenho convicção de que não vai faltar gás para quem quiser se estabelecer ali.

O ES também quer disputar investimentos em data centers. A ES Gás está preparada para atender esses projetos?

Estamos preparados e acompanhamos essa discussão em Brasília. Tivemos recentemente uma notícia importante, que foi a votação do Redata e a inclusão do gás natural como combustível elegível dentro dessa discussão.

Data center é uma demanda global crescente. Se compararmos o mercado brasileiro com o americano, vemos a dimensão dessa oportunidade. Nos Estados Unidos, o gás natural já é amplamente utilizado para geração de energia destinada a data centers.

Não é apenas uma questão de produzir energia. Data centers precisam de energia firme e confiável.

O Brasil desponta como uma possível localização para esses investimentos, e o Espírito Santo tem características muito favoráveis. Disponibilidade de gás natural, capacidade de investimento e áreas para receber os empreendimentos.

Vamos competir para trazer data centers para o Espírito Santo. É um segmento cuja demanda tende a crescer cada vez mais.

Quais são as obras necessárias para garantir segurança energética e atender o crescimento da demanda?

Hoje, nossa necessidade está basicamente concentrada no sistema de distribuição. Por isso anunciamos esse grande volume de investimentos.

Existia uma demanda represada antes da privatização. Precisamos ampliar a rede, atualizar os sistemas e preparar essa infraestrutura para absorver a nova demanda.

Nosso objetivo é superar mil quilômetros de rede. O Espírito Santo tinha menos rede de distribuição do que outros Estados da região, inclusive alguns menores do que o nosso. Esse cenário está mudando rapidamente.

Para receber data centers, ampliar o uso do gás no agro, dar suporte ao crescimento industrial e tornar as empresas já instaladas mais competitivas, precisamos investir em distribuição. É nisso que estamos focados.

Gargalos em rodovias, ferrovias, portos e outras infraestruturas interferem na capacidade de atrair grandes indústrias?

Fazem muita diferença. Não diretamente do ponto de vista técnico da distribuição de gás, mas uma grande indústria não se estabelece em um Estado por causa de uma única variável.

O gás natural é uma dessas variáveis e é uma das que estão sob nosso domínio. Portanto conseguimos atuar mais rapidamente sobre ela.

No entanto, uma empresa como a GWM não veio ao Espírito Santo apenas por causa do gás. Foi um conjunto de fatores.

Precisamos olhar para a infraestrutura de maneira ampla. Rodovias, ferrovias, portos, energia elétrica e saneamento contam muito. O conjunto desses investimentos cria uma região mais preparada e competitiva para receber novos projetos.

O preço do gás no ES já é competitivo o suficiente para atrair grandes consumidores industriais?

Tenho convicção de que sim. Claro que competitividade e preço são temas dos quais nunca podemos tirar os olhos. Sempre precisamos buscar condições melhores.

O Espírito Santo foi o primeiro Estado do país a chegar a 90% de todo o volume comercializado no mercado livre. Basicamente, somos os únicos hoje nessa condição.

Isso significa que grandes consumidores e clientes industriais podem escolher de quem querem comprar a molécula de gás e montar sua própria estratégia. Em 2023, quando chegamos aqui, o mercado era 100% cativo. Em 2025, 90% já estava no mercado livre. Essa abertura trouxe concorrência e competitividade.

Ainda há espaço para avançar. Temos discussões nacionais sobre gás release e revisão tarifária do transporte que podem trazer mais competitividade. Já tivemos ganhos relevantes, mas acredito que ainda conseguiremos melhorar bastante essa condição nos próximos anos.

Quando o biometano deve entrar efetivamente na rede de gás do ES e qual o papel desse combustível?

O biometano é o futuro e será primordial para o nosso Estado. Temos uma planta em desenvolvimento e a expectativa é conectá-la ainda neste ano. As obras estão praticamente concluídas e devemos iniciar a injeção dessa molécula no segundo semestre.

Será a primeira usina de biometano conectada dessa forma no Espírito Santo. Seremos um dos poucos Estados brasileiros com biometano entrando diretamente na rede de gasodutos.

Já temos discussões para conectar outras plantas.

O biometano substitui 100% o gás natural nas aplicações e tem uma pegada de carbono aproximadamente 90% menor do que o próprio gás natural, que já é o combustível fóssil de menor pegada.

Isso representa uma oportunidade muito grande para o Espírito Santo na descarbonização. Temos uma matriz energética com forte presença de carvão devido à nossa atividade industrial, e algumas dessas indústrias são muito difíceis de descarbonizar.

Com o biometano, podemos contribuir para reduzir a pegada de carbono dos produtos produzidos aqui.

E isso não vale apenas para a indústria. Também vemos grande potencial no transporte pesado. Diesel ainda representa parcela importante das emissões brasileiras. Gás natural, biometano ou uma mistura dos dois podem reduzir emissões e também material particulado, que causa impactos importantes à saúde.

Qual será o tamanho da ES Gás em 2030?

Trabalhamos para chegar a 2030 com aproximadamente 180 mil clientes. Quando chegamos ao Espírito Santo, em 2023, eram aproximadamente 70 mil. Ou seja, nossa ambição é fazer em poucos anos mais do que foi feito em aproximadamente 30 anos desde o início da concessão.

Também pretendemos conectar mais 30 clientes industriais. Isso representa um crescimento próximo de 50% sobre a atual base de clientes industriais conectados no Estado.

Queremos que essa infraestrutura também ajude a atrair novos investimentos. Como a GWM e outras empresas que estão se estabelecendo aqui. Ou seja, gerar riqueza, ampliar a arrecadação, bem como preparar o Espírito Santo para desafios como a reforma tributária.

Pretendemos superar mil quilômetros de rede e construir uma infraestrutura compatível com o tamanho e a ambição do Espírito Santo. E esperamos que todo esse investimento em infraestrutura, novos clientes, indústrias e comércio também gere aumento do volume distribuído e contribua para a modicidade tarifária de todo o sistema.

Fonte: Folha Vitoria

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