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Existe uma ideia ainda muito presente de que, depois de determinada idade, controlar rigorosamente o colesterol deixa de ser tão importante. Afinal, se uma pessoa chegou aos 70 ou 75 anos sem ter tido um infarto ou um AVC, ainda vale a pena começar uma estatina?
Essa pergunta ganhou uma resposta importante recentemente. O estudo STAREE, apresentado agora no congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia 2026, na Alemanha, acompanhou pessoas com 70 anos ou mais, sem doença cardiovascular conhecida, e mostrou que o tratamento com estatina reduziu em cerca de 30% o risco de eventos cardiovasculares maiores, que são morte, infarto e AVC.
Prevenção cardiovascular não tem uma idade
Mais do que o número, porém, o estudo traz uma mensagem que considero importante: não existe uma idade a partir da qual a prevenção cardiovascular simplesmente deixa de fazer sentido.
Hoje vivemos mais. Uma pessoa saudável aos 70 anos pode ter pela frente mais 15, 20 ou até mais anos de vida. E não basta acrescentar anos à vida; queremos preservar autonomia, capacidade física e saúde cerebral durante esse período.
Estatinas podem prejudicar a memória?
É justamente aí que surge outra discussão frequente quando falamos em estatinas: elas podem prejudicar a memória?
Esse receio faz com que algumas pessoas interrompam o tratamento ou tenham resistência em iniciá-lo. Os dados atuais, entretanto, não sustentam a ideia de que as estatinas provoquem demência. E esse novo estudo acrescenta uma informação tranquilizadora: em uma população idosa acompanhada por vários anos, o uso de atorvastatina não esteve associado a aumento do risco de demência.
Mas é importante dizer também o que não podemos concluir. Estatina não é medicamento para tratar ou prevenir Alzheimer, e o estudo não demonstrou que tomar estatina reduza, por si só, o risco de desenvolver demência. A mensagem é outra: reduzir o colesterol para proteger o coração não parece cobrar como preço uma piora da saúde cerebral.
Coração e cérebro estão ligados
E coração e cérebro estão muito mais conectados do que costumamos imaginar. Hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo e alterações do colesterol contribuem para doença vascular ao longo de décadas. AVCs — inclusive pequenos eventos que podem passar despercebidos — e doença dos pequenos vasos cerebrais também podem participar do declínio cognitivo e da demência vascular.
Por isso, quando pensamos em envelhecimento saudável, talvez seja hora de abandonar a ideia de tratar cada órgão separadamente. Cuidar das artérias é cuidar do coração, mas também é cuidar do cérebro.
Isso não significa que toda pessoa que completou 70 anos precise começar uma estatina. A decisão deve considerar risco cardiovascular, colesterol, outras doenças, fragilidade, expectativa de vida, medicamentos em uso e as características de cada paciente.
O que a idade, isoladamente, não deveria fazer é encerrar a conversa sobre prevenção.
Aos 40, 50, 70 ou 80 anos, o objetivo continua sendo o mesmo: não apenas viver mais, mas chegar aos próximos anos com coração, cérebro e autonomia preservados.
Fonte: Folha Vitória