Diretor-presidente do ES em Ação.
O Brasil vai às urnas mais uma vez em outubro, para eleger os seus representantes. É o momento em que o país debate as suas prioridades e os desafios para os próximos anos. Numa sociedade marcada pela cultura do improviso e com tantas urgências, nem sempre dedicamos a devida atenção ao futuro, com foco em planejamento estratégico e visão de longo prazo, almejando a construção de um ciclo sustentado de desenvolvimento e prosperidade.
O nosso futuro certamente não se resolverá em mandatos de quatro ou oito anos, prazo que normalmente norteia uma disputa eleitoral. Contudo, precisamos nos habituar a ir além dessa visão imediata.
As eleições devem ser um exercício para se pensar também num horizonte de 10 ou 15 anos, e não somente na gestão seguinte. É interessante diferenciar o que é política de governo e o que é política de Estado.
Grandes transformações em áreas cruciais como educação, saúde, segurança e meio ambiente só podem ocorrer com políticas de Estado, implementadas ao longo dos anos numa visão de longo prazo, ultrapassando governos.
A transformação da Coreia do Sul é um ótimo exemplo, sempre muito estudado: o país hoje é uma referência mundial em reforma educacional, mas levou 30 anos para atingir os níveis atuais de excelência.
A Coreia saiu de uma taxa de analfabetismo de quase 80% na década de 1950 para 100% de alfabetização, assumindo a liderança global em tecnologia e inovação nos anos 1980 e 1990, no processo chamado de “Milagre do Rio Han”. Isso só foi alcançado graças à continuidade nas políticas públicas voltadas para a educação ao longo de vários mandatos presidenciais.
Uma política de governo geralmente é vinculada às prioridades de uma determinada administração. É natural. Ela nasce do mandato conferido pelas urnas, reflete a visão da equipe que ocupa o poder e pode ser alterada ou substituída ao final do ciclo governamental. Já uma política de Estado está associada a objetivos permanentes da sociedade.
A política de Estado deve transcender governos, partidos e mandatos, justamente porque responde a desafios estruturais que permanecem ao longo do tempo.
Enquanto um governo dura quatro ou oito anos, os desafios relacionados à educação, infraestrutura, segurança, inovação, sustentabilidade ou competitividade econômica exigem décadas de esforço contínuo para produzir resultados consistentes.
Voltando ao exemplo da Coreia, ao longo das décadas, diversos presidentes fizeram ajustes na política educacional, adaptando o ensino ao momento econômico, mas todos souberam preservar a espinha dorsal dessa política, que é o financiamento massivo, a valorização dos professores e o rigor acadêmico.
O próprio Espírito Santo tem uma importante contribuição para o debate sobre planejamento de longo prazo, tão oportuno no processo eleitoral. O Estado, como se sabe, superou uma profunda crise institucional nos anos 90, com base na mobilização da sociedade e na reorganização de suas instituições, gerando um ambiente de equilíbrio fiscal e institucional, com muito diálogo e uma visão compartilhada de futuro.
A mobilização capixaba foi traduzida inicialmente no Plano ES 2025, lançado há 20 anos, no ano de 2006, no início da recuperação econômica e administrativa do Estado. Depois vieram o ES 2030 e o atual Plano ES 500 anos, resultado de um dos mais amplos processos de construção coletiva já realizados no Estado: sua elaboração envolveu quase 2 mil participantes, dezenas de instituições e oficinas realizadas nas 10 microrregiões do Estado, reunindo representantes do poder público, da academia, do setor produtivo e da sociedade civil.
Hoje o Estado tem capacidade de investimentos com recursos próprios e exibe os melhores indicadores em gestão fiscal, saúde, educação e segurança. Isso só foi possível graças ao planejamento e à continuidade de políticas públicas ao longo de sucessivos governos, algo raro no país, como podemos observar.
Em sociedades com instituições mais maduras, as políticas de Estado funcionam como um eixo de continuidade. Elas estabelecem direções estratégicas, metas e compromissos coletivos que permanecem válidos independentemente das mudanças de governo.
Isso não significa imobilismo nem ausência de aperfeiçoamentos. A alternância no poder é parte do processo democrático e as políticas de Estado também podem e devem ser avaliadas sob novas perspectivas, atualizadas e aperfeiçoadas à luz de novas evidências e demandas sociais. O que as diferencia é a existência de um consenso mais amplo sobre sua relevância e sobre a necessidade de preservar seus objetivos fundamentais.
Em um mundo marcado por transformações cada vez mais rápidas, pensar o futuro tornou-se uma necessidade. As sociedades que alcançaram os melhores resultados em desenvolvimento econômico e social foram justamente aquelas capazes de construir consensos mínimos em torno de objetivos estratégicos de longo prazo.
O Espírito Santo já demonstrou, ao longo das últimas décadas, que esse caminho é possível. Existem diversos outros exemplos históricos. Ao nos aproximarmos de mais um ciclo eleitoral, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem governará nos próximos anos, mas quais projetos e compromissos coletivos queremos preservar para as próximas gerações.
Afinal, governos passam, mas o futuro que estamos construindo permanecerá.
Folha Vitória