Ainflaçãooficial no País desacelerou na passagem de maio para junho. OÍndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)fechou junho em 0,16%, informou nesta sexta-feira, 10, oInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice ficou 0,42 ponto percentual (p.p.) abaixo da taxa de 0,58% registrada em maio.
No ano, o IPCA acumula alta de 3,36% e, nos últimos 12 meses, o índice ficou em 4,64%, abaixo dos 4,72% dos 12 meses imediatamente anteriores, mas ainda acima do teto da meta do Banco Central, de 4,50%. Em junho de 2025, a variação havia sido de 0,24%.
A expectativa para o índice de preços ao consumidor era de uma desaceleração para 0,31%, segundo mediana doProjeções Broadcast, após alta de 0,58% em maio.
Habitação pressiona, enquanto alimentos ajudam a conter o índice
Em junho, a maior variação (0,63%) e o maior impacto (0,10 p.p.) vieram do grupo habitação. O grupo de alimentos e bebidas, com queda de 0,24%, registrou a maior variação negativa e o maior impacto negativo (-0,05 p.p.). Os demais grupos apresentaram variações entre o -0,02% observado em educação e o 0,25% de despesas totais.
O grupo habitação desacelerou de maio (1,22%) para junho (0,63%) com o recuo no subitem energia elétrica residencial, que saiu de 3,67% para 1,53%. Ainda figurando como o principal impacto individual no resultado do mês (0,06 p.p.).
No grupo de alimentação e bebidas, a alimentação no domicílio variou -0,39%. Ante a alta de 1,65% de maio, com influência das quedas do café moído (-3,72%), das frutas (-1,58%) e das carnes (-0,64%).
No lado das altas, destacam-se o feijão-carioca (8,31%) e a batata-inglesa (3,57%). A alimentação fora do domicílio desacelerou de 0,49% em maio para 0,15% em junho. Com o lanche saindo de 0,49% para 0,13% e a refeição de 0,51% para 0,15% no mesmo período.
Queda dos alimentos e combustíveis explica alívio da inflação
A queda dos preços de alimentos e de combustíveis em junho, itens de peso importante no IPCA, ajudaram a conter a pressão da energia elétrica sobre o índice. Explicou há pouco o gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves.
“A queda de alimentação e bebidas pode refletir uma combinação de fatores, com o alívio vindo dos combustíveis, que já vêm em trajetória de redução e ajudam a diminuir custos ao consumidor final, uma possível devolução de altas anteriores e, sobretudo, maior oferta de alguns itens, como café, como exemplo, com expectativa de safra melhor pressionando preços para baixo”, disse durante entrevista à imprensa.
Gonçalves destacou ainda que o resultado de alimentação foi o menor para meses de junho desde 2023, mas destacou que alguns produtos seguiram em alta em junho, como batata, alho e feijão carioca, o que mostra um comportamento heterogêneo dentro do grupo.
Despesas pessoais e saúde registram alta em junho
Com variação de 0,25%, o grupo de despesas pessoais aparece com a segunda maior variação. Com destaque para os subitens empregado doméstico (0,53%) e cabeleireiro e barbeiro (0,65%).
Em saúde e cuidados pessoais (0,23%), sobressaem os artigos de higiene pessoal (0,34%), com destaque para o subitem perfume (1,12%). Além do plano de saúde, cuja variação de 0,34% reflete a incorporação do reajuste autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Os preços dos transportes subiram 0,17% em junho, após queda de 0,46% em maio. O grupo deu uma contribuição positiva de 0,03 ponto porcentual para o IPCA, que subiu 0,16% no mês.
Os preços de combustíveis tiveram queda de 0,48% em junho, após recuo de 1,95% no mês anterior. A gasolina caiu 0,12%, após ter registrado queda de 1,46% em maio, enquanto o etanol recuou 3,09% nesta leitura, após queda de 6,20% na última.
OEstadão/Broadcastcalcula o impacto de cada grupo no IPCA com base na variação mensal e no peso mensal disponíveis no Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra). O resultado pode ter divergências pontuais com o impacto divulgado pelo IBGE. Que considera mais casas decimais do que as disponibilizadas publicamente na taxa de cada item.
Resultado de junho surpreende
A alta de 0,16% no IPCA de junho surpreendeu, ao ficar abaixo do piso das estimativas de analistas, e trouxe sinais de melhora na inflação subjacente, ainda que insuficientes para mudar de forma material o diagnóstico de política monetária do Banco Central, segundo o economista do ASA, Leonardo Costa.
Em nota, ele afirma que o resultado do índice aumenta a probabilidade de um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic na reunião do Copom de agosto.
Segundo Costa, a surpresa no IPCA veio do grupo de alimentação e bebidas. Houve deflação de itens in natura e carnes. Além disso, a alimentação fora do domicílio perdeu força, com desaceleração relevante de refeições e lanches, contribuindo para um quadro mais benigno dentro de serviços.
À frente, o ASA espera uma inflação mais fraca no curto prazo, sustentada pela continuidade da deflação de alimentos e pela dissipação gradual dos impactos do choque do petróleo, sobretudo no grupo de bens. Costa afirmou que o balanço qualitativo da inflação deve seguir mais favorável no curto prazo.
Ainda assim, ele ponderou que medidas em média móvel continuam rodando em patamar elevado e “incompatível com uma convergência confortável” da inflação para a meta. Para o Banco Central, o resultado de junho representa “alívio moderado”, mas não o bastante para alterar de forma relevante o diagnóstico. A inflação segue acima do teto do regime de metas, as expectativas continuam desancoradas e a atividade doméstica permanece resiliente.
Bancos avaliam cenário mais favorável para a inflação
Segundo o Itaú Unibanco, o IPCA de junho, com resultado aquém do previsto pelo mercado, refletiu principalmente uma queda mais intensa do que a esperada nos preços de alimentos. Esse alívio deveu-se especialmente aos itens in natura, que já costumam apresentar sazonalidade favorável nesta época do ano, cita.
De acordo com o banco, o resultado do IPCA reforça a visão de uma inflação corrente mais comportada no curto prazo. “O balanço de risco para a projeção de IPCA no ano segue assimétrico para baixo”, diz o relatório assinado pela economista Luciana Rabelo.
Conforme o banco, além do resultado mais benigno do IPCA cheio, as medidas de núcleo também vieram melhores que o esperado, com destaque para a desaceleração dos serviços subjacentes. Esse movimento, explica, foi influenciado por alimentação fora do domicílio.
Segundo a economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, o resultado abaixo do esperado do IPCA de junho corrobora a visão de virada do balanço de riscos da inflação para 2026 e o potencial de estabilidade/leve viés de queda do Focus 2028, dado o panorama melhor da inflação corrente.
“Com a queda das projeções para 2026, há uma leve assimetria baixista para 2028. Assim, deve levar à percepção de aumento de probabilidade da continuidade do ciclo de calibração dos juros”, diz.
Ela destaca, porém, que o complexo panorama fiscal e a proximidade das eleições são fatores de risco que devem impedir quedas mais sustentáveis e uma reancoragem mais clara das expectativas inflacionárias.
Folha Vitoria