O varejo capixaba deve enfrentar um cenário de cautela no curto prazo e de transformação no médio prazo. A avaliação é dos especialistas reunidos no painel “Varejo Capixaba em 2026: Cenários, Capital e Próximos Ciclos”, no encontro Data Business Varejo, uma realização da Rede Vitória e da Apex Partners. Durante o debate, empresários e executivos destacaram o peso dos juros elevados sobre as operações e apontaram mudanças no padrão de consumo como fatores decisivos para o desempenho do setor no próximo ano.
O diretor comercial e de marketing da Rede Vitória, Davi Wescley, afirmou que o Espírito Santo possui características próprias de consumo e forte capacidade de retenção do varejo local, o que, na avaliação dele, dificulta o avanço de grandes grupos nacionais.
“Na história do Espírito Santo, a gente percebe uma dificuldade muito grande do varejista de fora conseguir ter um bom desempenho aqui”, afirmou. Segundo ele, marcas locais conseguem maior conexão com o consumidor por entenderem hábitos regionais e investirem em proximidade e comunicação segmentada.
Os grandes exemplos que eu vi no varejo são multiplataforma. Hoje, a jornada do consumidor passa por diferentes canais e isso constrói a relação da marca com o consumo.
Davi Wescley, diretor comercial e de marketing da Rede Vitória
Para Wescley, o fortalecimento da credibilidade dos veículos locais também se tornou ativo estratégico diante do avanço da desinformação nas redes sociais. O executivo afirmou que empresas regionais passaram a valorizar mais a construção de marca apoiada em conteúdo local e em diferentes plataformas de comunicação, sobretudo em um ambiente de crescente fragmentação digital.
Juros altos e novas tendências de consumo
Já o vice-presidente institucional da Apex, Pedro Chieppe, avaliou que o principal desafio do varejo no curto prazo segue ligado ao custo do dinheiro. “Os juros estão machucando muito, principalmente as operações mais alavancadas”, afirmou. Segundo ele, a manutenção de taxas elevadas pressiona caixa, reduz capacidade de expansão e exige maior disciplina financeira das empresas.
Você pode ter a melhor ideia do mundo. Se não tiver dinheiro para amanhã, está quebrado. Fluxo de caixa para dinheiro empresarial é muito importante.
Pedro Chieppe, vice-presidente institucional da Apex.
Ao mesmo tempo, Chieppe apontou oportunidades associadas à evolução do comportamento do consumidor, sobretudo em segmentos ligados ao bem-estar, esporte e saúde. “O grande desafio e a grande oportunidade são entender qual será a próxima evolução do tipo de consumo”, afirmou. O executivo também citou movimentos de industrialização no Espírito Santo, como os investimentos ligados à cadeia do café e da indústria automotiva. Setores que, segundo ele, são capazes de alterar padrões de renda e consumo no Estado.
Durante o painel, os debatedores também destacaram a força do empreendedorismo regional como diferencial competitivo do Espírito Santo. Chieppe afirmou que negócios locais tendem a apresentar vantagem por compreenderem hábitos de compra, cultura e comportamento do consumidor capixaba. “O varejo é barriga no balcão, 24 horas por dia, sete dias por semana. Quem entende a cultura local normalmente tem mais chance de dar certo”, afirmou.
Na avaliação dos painelistas, o desempenho do varejo em 2026 dependerá da combinação entre gestão financeira rigorosa, capacidade de adaptação às mudanças do consumo bem como leitura antecipada dos movimentos da economia regional. Ou seja, o varejo é um setor pressionado no presente, mas com oportunidades abertas em função dos novos ciclos de investimento no Espírito Santo.
Folha Vitoria