A melatonina ganhou espaço nos últimos anos como uma das substâncias mais procuradas por quem enfrenta dificuldades para dormir. Vendida livremente em farmácias e associada à ideia de produto “natural”, ela passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas que buscam melhorar o sono sem receita médica.
Mas especialistas alertam que o uso indiscriminado da melatonina pode trazer riscos à saúde, principalmente quando a substância é consumida diariamente e sem acompanhamento profissional.
Segundo o médico psiquiatra Kalil Duailibi, coordenador da área de Psiquiatria da Universidade Santo Amaro (Unisa) e presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM), a popularização do hormônio exige mais atenção.
Apesar de ser produzida naturalmente pelo organismo, a melatonina não deve ser utilizada como solução automática para qualquer problema relacionado ao sono.
O QUE É A MELATONINA?
A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo corpo, principalmente durante a noite.
Ela participa da regulação do ciclo do sono e ajuda o organismo a entender quando é hora de dormir e acordar.
A produção acontece principalmente na glândula pineal, localizada no cérebro, e sofre influência direta da luz. Ambientes escuros favorecem a liberação da substância, enquanto luzes artificiais e telas podem atrapalhar esse processo.
Nos últimos anos, a melatonina passou a ser comercializada em larga escala no Brasil, principalmente em cápsulas, gotas e gummies.
PARA QUE A MELATONINA COSTUMA SER INDICADA?
A melatonina pode ser útil em situações específicas, como:
alterações temporárias no sono;
alguns casos de insônia inicial;
distúrbios do ritmo circadiano;
situações avaliadas clinicamente por especialistas.
O problema começa quando a substância passa a ser usada diariamente sem investigação da causa da insônia.
De acordo com Kalil Duailibi, muitas pessoas acabam recorrendo à melatonina sem entender o que realmente está causando a dificuldade para dormir.
PSIQUIATRA ALERTA SOBRE USO SEM ORIENTAÇÃO MÉDICA
O especialista reforça que o fato de a melatonina ser considerada “natural” não significa que ela seja totalmente livre de riscos.
A melatonina é um hormônio natural, mas isso não significa que pode ser usada sem critério. O uso contínuo e sem acompanhamento pode prejudicar a produção natural do corpo e trazer riscos à saúde.
Kalil Duailibi, médico psiquiatra
Segundo ele, o uso frequente pode fazer o organismo reduzir sua própria produção hormonal ao longo do tempo. Isso acontece porque o corpo passa a receber a substância de forma externa regularmente.
USO PROLONGADO DA MELATONINA PREOCUPA ESPECIALISTAS
Nos últimos meses, pesquisas internacionais passaram a investigar possíveis efeitos do uso prolongado da melatonina.
Um dos estudos apresentados na American Heart Association levantou questionamentos sobre uma possível relação entre consumo contínuo e aumento do risco de insuficiência cardíaca em pessoas com insônia crônica.
As pesquisas ainda são consideradas preliminares, mas o alerta chamou atenção da comunidade médica.
Kalil Duailibi afirma que os resultados ainda precisam de mais investigação, mas reforça que o consumo sem acompanhamento merece cautela.
CRIANÇAS E JOVENS PRECISAM TOMAR MELATONINA?
Segundo o psiquiatra, em muitos casos a resposta é não.
Crianças, adolescentes e adultos jovens normalmente já possuem níveis adequados de melatonina produzidos pelo próprio organismo.
Por isso, o uso só deve acontecer após avaliação médica detalhada.
Crianças e jovens, em sua maioria, não precisam de melatonina. Só podemos indicar após avaliação completa, com exames como polissonografia, quando há realmente um distúrbio de sono.
Kalil Duailibi, médico psiquiatra
A preocupação aumenta porque muitos pais passaram a utilizar melatonina em crianças sem avaliação profissional, principalmente diante de dificuldades para dormir.
QUAIS OS POSSÍVEIS EFEITOS COLATERAIS DA MELATONINA?
Embora muitas pessoas utilizem a substância sem apresentar sintomas importantes, alguns efeitos podem ocorrer, especialmente em casos de uso inadequado.
Entre os possíveis efeitos relatados estão:
dificuldade de concentração;
sensação de cansaço ao longo do dia.
Além disso, especialistas alertam para possíveis interações com medicamentos e condições de saúde pré-existentes.
INSÔNIA PODE SER SINAL DE OUTROS PROBLEMAS
Um dos principais pontos levantados pelos especialistas é que a insônia não deve ser ignorada.
Dificuldades frequentes para dormir podem estar relacionadas a:
hábitos inadequados de sono.
Por isso, simplesmente utilizar melatonina sem investigar a causa pode acabar mascarando doenças importantes.
Usar melatonina simplesmente para induzir sono, sem investigar a causa da insônia, é perigoso. Insônia crônica pode ser um marcador de várias doenças.
Kalil Duailibi, médico psiquiatra
COMO MELHORAR O SONO NATURALMENTE?
Especialistas explicam que algumas mudanças simples na rotina podem ajudar bastante na qualidade do sono:
reduzir uso de telas antes de dormir;
evitar cafeína no período da noite;
manter horários regulares;
dormir em ambiente escuro;
reduzir estímulos luminosos;
evitar refeições pesadas antes de dormir;
praticar atividade física regularmente.
Em muitos casos, essas medidas podem ajudar mais do que o uso indiscriminado de suplementos.
QUANDO PROCURAR AJUDA MÉDICA?
A recomendação é procurar avaliação profissional quando:
a dificuldade para dormir persiste;
há despertares frequentes durante a noite;
o cansaço interfere na rotina;
existe dependência de medicamentos ou suplementos para dormir;
surgem sintomas de ansiedade ou alterações emocionais.
O acompanhamento médico ajuda a identificar as causas reais do problema e definir o tratamento mais adequado para cada caso.
Segundo Kalil Duailibi, o sono precisa ser tratado como parte importante da saúde física e mental.
“O organismo funciona de forma integrada. Dormir mal afeta a memória, humor, imunidade, concentração e qualidade de vida”, destaca o psiquiatra.
O especialista reforça que qualquer uso contínuo de hormônios ou substâncias relacionadas ao sono deve ser acompanhado por um profissional de saúde.
Folha Vitória