Entre a regulação da prática psicológica e os avanços da inteligência é capaz de cuidar do ser humano em sua totalidade?
Vivemos um momento curioso no Brasil.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal se prepara para discutir os limites da atuação psicológica em relação à religião, o debate público se organiza em torno de uma dicotomia antiga — e, talvez, insuficiente:
ciência de um lado, fé do outro.
Mas essa pode ser a pergunta errada.
Porque, quando o debate institucional se limita a autorizar ou proibir, corre-se o risco de reduzir o humano — que é profundo — a um enquadramento superficial.
A questão que realmente importa não é se a espiritualidade deve ou não estar presente na prática clínica.
que tipo de inteligência é capaz de lidar com a complexidade do ser humano?
O limite do modelo que separa
A norma do Conselho Federal de Psicologia que chegou ao STF busca preservar algo essencial: o rigor técnico da prática psicológica, evitando interferências que não tenham base científica e protegendo a autonomia do paciente.
Esse movimento é legítimo. Toda ciência madura aprende a delimitar seu campo.
Mas toda delimitação carrega um efeito colateral: ela simplifica o objeto que pretende estudar.
E o ser humano não é um objeto simples.
Dois modelos em tensão
O que está em jogo não é apenas uma norma.
São formas diferentes de compreender o cuidado.
Modelo 1 — Delimitação técnica
Opera pela exclusão de variáveis.
Protege o método. Reduz ruídos.
Modelo 2 — Integração progressiva
Opera pela ampliação de variáveis.
Reconhece contexto, subjetividade e sentido.
Aceita a complexidade como parte do processo.
Nenhum deles, isoladamente, é suficiente.
O desafio surge quando um modelo tenta responder sozinho por um fenômeno que é, por natureza, multidimensional.
Um sinal vindo da medicina
Nos últimos anos, a medicina tem dado sinais discretos de transição. Sem abrir mão do rigor científico, começa a reconhecer que saúde não se resume a parâmetros biológicos.
Há aspectos da experiência humana que não cabem em exames, mas impactam diretamente a forma como as pessoas enfrentam a dor, o tratamento e a própria vida.
O posicionamento recente do Conselho Federal de Medicina ao admitir a abordagem da espiritualidade dentro de critérios éticos e técnicos não representa uma substituição da ciência — mas o reconhecimento de um limite: o de que o método, sozinho, não esgota o humano.
O caso da polilaminina e o fenômeno da interpretação
A recente repercussão da polilaminina — chamada por alguns de “proteína de Deus” — ilustra bem essa dinâmica.
Do ponto de vista científico, trata-se de uma pesquisa em fase inicial, com foco em segurança e ainda em investigação quanto à eficácia.
Mas o que chamou atenção não foi apenas o dado. Foi a interpretação.
A sociedade não reagiu apenas à descoberta científica, mas ao significado atribuído a ela. Esse movimento revela algo fundamental:
o ser humano não processa apenas informação — processa sentido.
E qualquer modelo de cuidado que ignore essa dimensão estará, inevitavelmente, incompleto.
O que já havia sido percebido
Muito antes desse debate ganhar forma institucional, pensadores clássicos já apontavam para essa complexidade.
Carl Jung e Donald Winnicott compreendiam, cada um à sua maneira, que a experiência humana não pode ser reduzida a uma única linguagem.
Jung observou que a psique se expressa também por símbolos e significados.
Winnicott mostrou que o desenvolvimento humano depende de um ambiente que sustente a integração entre o interno e o externo.
Nenhum deles propôs abandonar o rigor técnico. Mas ambos reconheceram algo essencial: o humano é maior do que os modelos que tentam explicá-lo
A polarização atual tende a simplificar o debate:
• ou se defende a ciência
• ou se defende a espiritualidade
Mas essa é uma falsa escolha. O risco real não está em considerar a dimensão espiritual da experiência humana, nem em preservar o método científico.
O risco está em reduzir o cuidado a apenas uma dessas dimensões. Quando tudo se torna técnica, o paciente se torna objeto. Quando tudo se torna crença, o paciente perde proteção.
O desafio da nossa geração não é escolher entre ciência ou espiritualidade.
É desenvolver inteligência suficiente para não reduzir o ser humano a apenas uma delas.
Inteligência ampliada não é misturar dimensões de forma desordenada, mas integrar com discernimento — preservando o rigor do método, reconhecendo os limites de cada linguagem e mantendo o cuidado centrado no humano.
Porque, no fim, não se trata de qual modelo está certo. Mas de qual modelo é capaz de cuidar de alguém por inteiro.
Empreendedor capixaba e colunista convidado do Rede Saúde, é Anjo-investidor no ecossistema Bossa Nova, cofundador do Instituto de Medicina Reprodutiva e especialista em Transformação Digital pelo Hospital Albert Einstein. Certificado em Experiência do Paciente pelo Disney Institute, atua na integração entre inovação, cuidado e inteligência ampliada na saúde.
Folha Vitória