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Artigo escrito por Sandra Bof, médica, mestra em educação profissional em saúde e professora do curso de Medicina da FAESA e Marcelo Costa Vicente, enfermeiro, mestre em Saúde da Família e professor do curso de Enfermagem da FAESA
Na rotina dos serviços de saúde, marcada por demandas intensas, protocolos rigorosos e decisões rápidas, há um elemento que, embora silencioso, sustenta a essência do cuidado: a escuta. Para os profissionais de saúde, comunicar-se vai muito além de orientar, prescrever ou informar: trata-se de estabelecer conexões humanas que impactam diretamente na qualidade da assistência.
Em meio aos avanços tecnológicos da saúde, a comunicação permanece como um elemento central, ainda que muitas vezes não seja valorizada como deveria. Comunicar não é apenas transmitir informações, mas construir vínculos, gerar confiança e reconhecer o paciente em sua singularidade. Nesse contexto, a escuta qualificada deixa de ser um recurso complementar e passa a atuar como uma medida terapêutica.
A comunicação em saúde envolve dimensões verbais e não verbais. Gestos, postura, olhar e tom de voz frequentemente comunicam mais do que palavras, sendo decisivos na formação de uma relação de confiança. O primeiro contato entre profissional e paciente é especialmente importante, pois é nesse momento que começa a se construir a confiança e a forma como o cuidado será percebido.
É por meio dela que se acessam não apenas os sintomas, mas as histórias, os contextos e os significados que cada paciente atribui ao seu processo de adoecimento. Ouvir com atenção permite compreender o que não está explícito, favorecendo diagnósticos mais precisos e condutas mais adequadas.
Essa relação reúne sujeitos com expectativas distintas: o profissional, orientado pelo raciocínio técnico, e o paciente, atravessado por aspectos clínicos, sociais eexperiência individual e subjetiva de “estar doente”, seus medos e dúvidas. A escuta ativa e a empatia tornam-se, portanto, essenciais para identificar demandas nem sempre expostas claramente. Quando o paciente se sente ouvido, tende a confiar mais, compartilhar informações relevantes e aderir melhor ao tratamento.
Na prática cotidiana, muitos profissionais relatam que os momentos mais decisivos do cuidado não acontecem apenas durante procedimentos técnicos, mas nas conversas estabelecidas à beira do leito, nas consultas e nos atendimentos. É nesses espaços que o paciente se sente seguro para expressar medos, dúvidas e inseguranças, possibilitando uma abordagem mais integral.
Uma comunicação eficaz impacta diretamente os resultados do tratamento: reduz ansiedade, melhora a compreensão e fortalece a adesão terapêutica. Em contrapartida, falhas comunicacionais podem gerar insegurança, erros e abandono do cuidado. O uso de linguagem excessivamente técnica, por exemplo, cria barreiras que comprometem a efetividade da assistência. Traduzir o conhecimento científico em uma linguagem clara, acessível e contextualizada é uma responsabilidade ética do profissional.
Entretanto, desafios persistem: sobrecarga de trabalho, tempo limitado e formação centrada em aspectos técnicos dificultam o desenvolvimento de habilidades comunicacionais. Além disso, diferenças sociais e culturais exigem sensibilidade para adaptar a comunicação às particularidades de cada paciente.
A comunicação também é fundamental entre equipes. Falhas na troca de informações estão entre as principais causas de eventos adversos, reforçando a necessidade de uma comunicação clara, estruturada e colaborativa.
Sob a perspectiva ética, comunicar-se bem é respeitar a autonomia, promover o bem-estar e evitar danos. Escutar promove relações mais humanas, reduz conflitos, melhora o ambiente de trabalho e resgata o sentido do cuidar. Esse entendimento acompanha a transição para um modelo de cuidado centrado no paciente, no qual ele participa ativamente das decisões sobre sua própria saúde.
Resgatar o valor da escuta, em um cenário marcado pela pressa e pela tecnologia, é um desafio contemporâneo. Ouvir exige tempo, atenção e disposição. Quando isso acontece, o cuidado se transforma: a confiança se fortalece e o processo terapêutico ganha significado. E, muitas vezes, é justamente nessa escuta atenta que se inicia o verdadeiro processo de cura.
Fonte: Folha Vitória