O Espírito Santo ganhou mais de 266 mil moradores com 60 anos ou mais em 12 anos. O número de idosos passou de 364.745, em 2010, para 631.398, em 2022, um crescimento de 73,1%.
No mesmo período, a participação desse grupo na população capixaba avançou de 10,4% para 16,5%. Na prática, aproximadamente um em cada seis moradores do Estado já havia chegado aos 60 anos no último Censo.
A mudança no perfil etário aumenta a procura por consultas, exames, medicamentos, reabilitação e acompanhamento de doenças crônicas. Também exige que os serviços estejam preparados para atender pessoas que podem apresentar mais de uma condição de saúde ao mesmo tempo.
Os dados fazem parte do estudo Retrato da Saúde Capixaba, apresentado pelo Connect Fecomércio-ES durante o 7º Rede Saúde Summit, realizado nesta quinta-feira (5), em Vitória.
O levantamento mostra que a transformação demográfica acontece em meio ao aumento das internações por câncer e doenças do aparelho circulatório, à concentração de serviços na Grande Vitória e à estabilidade do número de leitos hospitalares.
Internações por câncer aumentaram 57% em dez anos
Entre 2015 e 2025, as internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) relacionadas a neoplasias passaram de 18.447 para 29.003 no Espírito Santo. O aumento foi de 57,2%.
As hospitalizações por doenças do aparelho circulatório, grupo que inclui condições como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), cresceram 39,1%. O número passou de 24.270 para 33.767 no período.
Também houve alta de 19,8% nas internações por doenças respiratórias e de 59,7% naquelas provocadas por causas externas, como acidentes e violências.
Somadas, as hospitalizações relacionadas a esses quatro grupos cresceram 43,7% em uma década.
O avanço não pode ser explicado somente pelo envelhecimento. Mudanças na oferta de serviços, no acesso ao diagnóstico, no registro das internações e na ocorrência de acidentes também interferem nos dados.
O aumento da população idosa, porém, amplia a demanda por tratamento contínuo e por uma rede capaz de atender quadros mais complexos.
Pessoas com 60 anos ou mais podem precisar passar por diferentes profissionais, utilizar vários medicamentos e realizar exames com maior frequência. Sem integração, o cuidado se fragmenta e pode aumentar o risco de repetição de procedimentos, interações medicamentosas e orientações contraditórias.
Estabelecimentos crescem, mas quantidade de leitos fica parada
O número de estabelecimentos de saúde aumentou no Espírito Santo. Em junho de 2025, eram 9.499. Um ano depois, o total chegou a 10.027 unidades, uma alta de 5,6%.
A expansão, porém, não ocorreu de maneira uniforme. O número de farmácias cresceu 39,7%, passando de 652 para 911. Os serviços de diagnóstico tiveram alta de 3,9%, enquanto os estabelecimentos de atendimento ambulatorial avançaram 3,3%.
A quantidade de leitos permaneceu praticamente estável. O Estado passou de 11.045 leitos, em junho de 2025, para 11.029 no mesmo mês de 2026, uma redução de 0,1%.
Do total disponível, 7.095 leitos atendem pelo SUS, o equivalente a 64,3%. Outros 3.934 são destinados a pacientes que não utilizam o sistema público.
Para o economista André Spalenza, do Connect Fecomércio-ES, os números mostram que a saúde precisa ser considerada no planejamento econômico e social do Estado.
A saúde gera empregos, inovação, tecnologia e qualificação. Quando olhamos para o futuro da economia do Espírito Santo, o setor aparece com uma relevância ainda maior do que a observada nacionalmente.
André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES
Segundo ele, o envelhecimento e a mudança na demanda exigem planejamento de longo prazo, formação de profissionais e melhor distribuição dos serviços.
Grande Vitória concentra metade dos serviços
A oferta de atendimento também varia conforme a região. Dos 10.027 estabelecimentos existentes no Espírito Santo, 5.092 estão na Região Metropolitana, o equivalente a 50,8% do total.
A Região Sul concentra 20,6%; a Central, 18,5%; e a Norte, 10,1%.
A diferença aparece ainda na relação entre leitos e população. A Região Metropolitana possui 2,76 leitos para cada mil habitantes. O índice é de 2,67 na Região Sul, 2,62 na Central e 2,10 no Norte.
A concentração pode obrigar pacientes do interior a se deslocarem para municípios maiores em busca de especialistas, exames e tratamentos de alta complexidade.
No caso dos idosos, o deslocamento pode ser ainda mais difícil por causa de limitações de mobilidade, dependência de acompanhantes e necessidade de acompanhamento frequente.
Telemedicina pode reduzir distâncias, mas não resolve tudo
A telemedicina aparece como uma possibilidade para aproximar profissionais de pacientes que vivem longe dos principais centros. O recurso pode ser utilizado em consultas, acompanhamento de doenças crônicas e orientação entre equipes.
Para Wilson Zatt, fundador da plataforma Lauduz, porém, o atendimento remoto precisa ir além de uma videochamada.
A consulta deve contar com segurança das informações, protocolos, profissionais preparados e integração com o atendimento presencial. Em alguns casos, dispositivos conectados podem enviar dados como pressão arterial, temperatura e frequência cardíaca.
Essas ferramentas ajudam a reduzir deslocamentos e ampliar o acompanhamento, mas não substituem todos os atendimentos presenciais nem resolvem sozinhas a desigualdade na oferta de serviços.
O uso também precisa considerar idosos com dificuldades de acesso à internet, pouca familiaridade com aplicativos ou limitações visuais, auditivas e cognitivas.
Saúde precisa agir antes que o paciente seja internado
O crescimento das doenças crônicas exige uma mudança no modelo de atendimento, segundo Fátima Pinho, sócia da Deloitte Brasil.
Em vez de atuar somente quando o paciente procura um pronto-socorro ou precisa ser internado, o sistema precisa ampliar o cuidado preventivo, contínuo e coordenado.
Isso inclui atenção primária, acompanhamento de doenças crônicas, vacinação, exames preventivos, orientação sobre hábitos de vida e compartilhamento de informações entre diferentes profissionais.
A tecnologia pode ajudar a identificar pacientes com maior risco, acompanhar resultados e emitir alertas. A decisão e o contato com a pessoa continuam dependendo das equipes.
A tecnologia precisa ajudar a antecipar riscos e liberar tempo dos profissionais para o atendimento direto e acolhedor.
Fátima Pinho, sócia da Deloitte Brasil
A especialista também alerta que ter acesso a um sistema não significa incorporá-lo ao trabalho. Dados apresentados durante o Summit indicam que 92% das instituições possuem sistemas eletrônicos, mas apenas 23% dos profissionais receberam treinamento recente.
Sem capacitação e integração, as informações podem continuar dispersas mesmo dentro de uma rede digitalizada.
Pacientes idosos enfrentam jornadas mais complexas
O aumento do número de idosos também chama atenção para a experiência de quem precisa utilizar os serviços com mais frequência.
Para Mariana Cerone, executiva da Up Brasil e professora da ESPM, indicadores como tempo de espera e produtividade são necessários, mas não mostram toda a experiência. “O paciente não vive um indicador. Ele vive uma jornada“, afirma a executiva
Essa jornada começa na tentativa de marcar uma consulta e pode passar por autorização do plano, deslocamento, recepção, exames, retorno médico e retirada de medicamentos.
Para uma pessoa idosa, obstáculos aparentemente simples podem se transformar em barreiras. Um agendamento disponível apenas por aplicativo, orientações com linguagem técnica ou a falta de comunicação entre os profissionais aumentam a dependência da família.
A simplificação não significa retirar etapas necessárias à segurança, mas organizar o atendimento para que o paciente compreenda o que deve fazer e não precise repetir as mesmas informações em diferentes setores.
Crescimento da demanda também exige mais segurança
Mais atendimentos e internações exigem que hospitais e clínicas reforcem o acompanhamento de riscos.
Milainy Barbosa Ribeiro Batista, gerente de Qualidade, Segurança e Experiência em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, apresentou durante o evento medidas utilizadas para identificar falhas antes que elas provoquem danos.
Entre 2022 e 2026, a unidade mapeou mais de 200 riscos. Desse total, 39 foram classificados como críticos, principalmente em situações relacionadas ao uso de medicamentos, dispositivos invasivos, cirurgias e sepse.
A instituição também realizou mais de 1,7 mil reuniões rápidas de segurança desde 2020. Os encontros duram cerca de 15 minutos e reúnem diferentes áreas para apresentar problemas que precisam de providência.
Não existe hospital perfeito. A instituição de alta confiabilidade é aquela que permanece inconformada com as falhas, aprende com elas e busca antecipar os riscos.
Milainy Barbosa Ribeiro Batista, Gerente de Qualidade, Segurança e Experiência em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia
Para pacientes idosos, a segurança medicamentosa é uma preocupação importante, principalmente quando diferentes remédios são utilizados ao mesmo tempo. Falhas na comunicação entre serviços também podem comprometer a continuidade do tratamento após uma internação.
Planos médicos atendem mais de 1,4 milhão no Estado
O crescimento da demanda também aparece na saúde suplementar. Em junho de 2026, o Espírito Santo tinha 1.416.557 beneficiários de planos de assistência médica, alta de 2,5% em relação ao ano anterior.
A cobertura chegou a 34,6% da população capixaba. Em junho de 2025, era de 32,8%.
Nos planos exclusivamente odontológicos, o número de beneficiários cresceu 8,4% e alcançou 948.793 pessoas.
Mesmo com o avanço da cobertura privada, a maior parte da população permanece dependente do SUS. Além disso, usuários de planos também podem recorrer ao sistema público em diferentes situações, principalmente nos atendimentos de urgência e de maior complexidade.
O desafio, portanto, não está apenas em abrir novas unidades. O crescimento da população idosa exige profissionais capacitados, prevenção, integração de informações e distribuição mais equilibrada da estrutura.
Folha Vitória