A inteligência artificial pode organizar informações, automatizar tarefas, antecipar riscos e apoiar decisões. Ainda assim, não substitui a escuta, o vínculo e a responsabilidade de quem cuida.
Essa foi uma das principais mensagens do 7º Rede Saúde Summit, realizado nesta quinta-feira (5), em Vitória. O encontro reuniu representantes de hospitais, clínicas, operadoras, empresas de tecnologia e instituições de ensino para discutir o tema “Qualidade como estratégia: para além dos indicadores”.
Ao longo das palestras, os convidados defenderam que tecnologia e qualidade não podem ser tratadas apenas como aquisição de sistemas, equipamentos ou ferramentas de inteligência artificial. Para produzir resultados, a inovação precisa estar associada a processos bem definidos, profissionais capacitados e uma experiência mais segura e acolhedora para o paciente.
O grande ensinamento, em tempos de tanta inteligência artificial, é que o humano no cuidado é insubstituível. A IA vem para substituir processos, mas não pessoas, conexões ou boas parcerias.
Alice Sarcinelli, diretora-executiva do Rede Saúde Summit
estabelecimentos de saúde
de beneficiários de planos médicos
moradores com 60 anos ou mais
Saúde emprega mais de 63 mil pessoas no Espírito Santo
O debate ocorre em um momento de expansão e transformação do setor. Dados apresentados pelo Connect Fecomércio-ES mostram que o Espírito Santo chegou a 63.474 empregos formais nas atividades de atenção à saúde humana em junho de 2026.
O resultado representa crescimento de 4,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando o setor reunia 60.685 trabalhadores. No primeiro semestre de 2026, a saúde criou 1.855 postos formais, o equivalente a 20,2% do saldo de empregos de todo o setor de serviços no Estado.
Para o economista e coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, os números mostram que saúde e desenvolvimento econômico não podem ser analisados separadamente.
A saúde gera empregos, inovação, tecnologia e qualificação. Quando olhamos para o futuro da economia do Espírito Santo, o setor aparece com uma relevância ainda maior do que a observada nacionalmente.
André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES
A quantidade de estabelecimentos de saúde também cresceu. O Estado passou de 9.499 unidades em junho de 2025 para 10.027 em junho de 2026, uma alta de 5,6%. Desse total, 80,5% pertencem ao setor privado, 17,4% são públicos e 2,1% correspondem a instituições sem fins lucrativos.
O crescimento, porém, não ocorreu da mesma forma em todas as estruturas. Enquanto o número de farmácias aumentou 39,7% no período, a quantidade de leitos permaneceu praticamente estável, passando de 11.045 para 11.029.
Envelhecimento amplia demanda por atendimento
Outro dado que ajuda a compreender os desafios da saúde capixaba é o envelhecimento da população. Entre 2010 e 2022, o número de moradores com 60 anos ou mais aumentou 73,1% no Espírito Santo, passando de 364,7 mil para 631,3 mil.
A participação dos idosos na população estadual subiu de 10,4% para 16,5% no período.
A mudança demográfica ocorre junto ao crescimento de internações relacionadas a doenças crônicas e causas externas. Entre 2015 e 2025, as internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por neoplasias aumentaram 57,2% no Estado. Nos casos de doenças do aparelho circulatório, a alta foi de 39,1%.
Também houve crescimento de 59,7% nas hospitalizações por causas externas, grupo que inclui acidentes e violências.
Segundo Spalenza, esse cenário exige planejamento, integração das informações e ampliação da capacidade de atendimento. Também reforça a necessidade de investir em prevenção e acompanhar as diferenças entre as regiões capixabas.
Metade dos estabelecimentos de saúde do Estado está concentrada na Região Metropolitana. No Norte, a oferta é de 2,10 leitos para cada mil habitantes, abaixo dos 2,76 registrados na Grande Vitória.
Ter tecnologia não significa saber utilizá-la
A presença dos sistemas digitais já é uma realidade em grande parte das instituições. Dados apresentados por Fátima Pinho, sócia da Deloitte Brasil, indicam que 92% das organizações de saúde possuem sistemas eletrônicos.
A incorporação, entretanto, ainda encontra limitações. Apenas 37% operam exclusivamente de forma eletrônica e somente 23% dos profissionais receberam treinamento recente para utilizar essas tecnologias.
Para Fátima, essa diferença mostra que adquirir uma solução não significa, necessariamente, integrá-la à rotina de atendimento. “O acesso à tecnologia não representa adoção. É preciso capacitar as pessoas, rever funções e redesenhar os processos para que a inovação gere valor.”
Segundo a especialista, automações e ferramentas de inteligência artificial devem assumir principalmente tarefas repetitivas, organizar dados e apoiar a identificação de riscos. O conhecimento humano continua necessário para interpretar o contexto, tomar decisões e cuidar do paciente.
Ninguém quer um tratamento frio e impessoal. A tecnologia precisa liberar tempo das equipes para que elas possam se dedicar ao atendimento direto e acolhedor.
Fátima Pinho, sócia da Deloitte Brasil
Excelência também é fazer o paciente se sentir visto
A forma como o paciente vivencia o atendimento foi abordada por Mariana Cerone, executiva da Up Brasil e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Segundo ela, hospitais e clínicas costumam medir tempo de espera, desfechos, produtividade e segurança. Esses indicadores são essenciais, mas não registram completamente a experiência de quem precisa de cuidado. “O paciente não vive um indicador. Ele vive uma jornada.”
Para a especialista, a percepção de qualidade é construída em diferentes momentos: na facilidade para marcar uma consulta, na clareza da orientação, no cumprimento do horário, na comunicação dos profissionais e na confiança de que a promessa feita será cumprida.
Mariana defendeu que o aprendizado do mercado de luxo para a saúde não está em estruturas sofisticadas, mas na capacidade de antecipar necessidades e simplificar processos. “Luxo não é tornar complexo. É tornar simples o que é complexo“, afirmou.
Segurança começa antes que o dano aconteça
A qualidade também depende da capacidade de identificar problemas antes que eles atinjam o paciente. Milainy Barbosa Ribeiro Batista, Gerente de Qualidade, Segurança e Experiência em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, apresentou práticas voltadas ao reconhecimento de riscos, análise de quase falhas e aprendizado com os erros.
No Einstein Goiânia, mais de 200 riscos foram mapeados entre 2022 e 2026. A unidade também realizou mais de 1,7 mil reuniões rápidas de segurança no período. Os encontros, com aproximadamente 15 minutos, reúnem diferentes áreas para apresentar situações que precisam de providência.
Até 30 de outubro de 2026, a unidade contabilizava 921 dias sem evento adverso catastrófico.
Segundo Milainy, o resultado não significa que a instituição esteja livre de falhas. A diferença está na disposição para reconhecer vulnerabilidades e agir antes que elas provoquem danos.
Não existe hospital perfeito. A instituição de alta confiabilidade é aquela que permanece inconformada com as falhas, aprende com elas e busca antecipar os riscos.
Milainy Barbosa Ribeiro Batista, Gerente de Qualidade, Segurança e Experiência em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia
Telemedicina precisa ir além da videochamada
A combinação entre tecnologia e cuidado também apareceu na discussão sobre telemedicina. Wilson Zatt, fundador da plataforma Lauduz, destacou que uma consulta a distância não pode ser reduzida a uma chamada de vídeo.
Segundo ele, o atendimento precisa reunir protocolos, segurança das informações, profissionais preparados e, quando necessário, equipamentos capazes de enviar dados clínicos para apoiar a avaliação.
José Eduardo Roma Júnior, sócio e diretor do Grupo Prever, reforçou que a inovação deve respeitar um limite: não pode eliminar os valores que sustentam o relacionamento com pacientes e familiares.
A tecnologia não replica o olhar, o sentimento e a conexão entre as pessoas. Ela precisa facilitar o trabalho, sem retirar aquilo que dá sentido ao cuidado.
José Eduardo Roma Júnior, sócio e diretor do Grupo Prever
Folha Vitória