Nas infecções que comprometem o sistema nervoso central (SNC) — assim como em outras patologias mais críticas —, a rapidez na identificação do microrganismo responsável pode influenciar diretamente a condução clínica, a escolha da terapia e a evolução do paciente. A confirmação precoce do agente causador da doença favorece decisões terapêuticas mais precisas e pode contribuir para reduzir complicações, sequelas neurológicas e o período de hospitalização.
A meningite, caracterizada pela inflamação das membranas que revestem o encéfalo e a medula espinhal, e a encefalite, que envolve a inflamação do tecido cerebral, são condições graves que exigem avaliação e decisão médica imediata. Ambas podem ter origem viral (a causa mais comum em nosso meio), bacteriana ou fúngica, e sua gravidade varia conforme o tempo de evolução, o microrganismo envolvido e as condições clínicas do paciente.
Diagnóstico laboratorial: métodos convencionais e moleculares
A análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), conhecido popularmente como líquor (fluido com funções protetivas que circula ao redor do encéfalo e da medula espinhal), constitui uma etapa central na investigação das meningites e encefalites. A obtenção dessa amostra biológica ocorre, usualmente, por meio de um procedimento médico invasivo, a punção lombar.
A avaliação do LCR classicamente inclui, dentre outros, exames citológicos e bioquímicos, que permitem verificar características como a contagem e o perfil das células, além das concentrações de glicose e proteínas, por exemplo. Esses parâmetros auxiliam na identificação e no diagnóstico diferencial de alterações compatíveis com processos infecciosos bacterianos ou virais, por exemplo.
A investigação também pode envolver métodos microbiológicos e moleculares para detectar o agente etiológico. Entre as técnicas convencionais, a cultura permite promover o crescimento de determinados microrganismos em condições laboratoriais controladas, tornando possível a identificação do agente e, nos casos pertinentes, a avaliação de sua sensibilidade aos antimicrobianos.
Apesar de sua relevância diagnóstica e de ainda ser considerada um método “padrão-ouro” para o diagnóstico, a cultura depende do crescimento do microrganismo in vitro, o que pode prolongar o tempo necessário até a obtenção do resultado definitivo.
Como funciona a reação em cadeia da polimerase multiplex?
As técnicas de biologia molecular revolucionaram e ampliaram as possibilidades de investigação das infecções do SNC. Entre elas, destaca-se a reação em cadeia da polimerase multiplex (PCR multiplex), método capaz de pesquisar simultaneamente, na mesma amostra, sequências específicas do material genético de diferentes agentes infecciosos.
Conforme o sistema diagnóstico utilizado, o resultado pode ser disponibilizado em apenas cerca de uma hora. Para essa tecnologia, são reportados valores gerais de sensibilidade e especificidade de cerca de 94,2% e 99,8%, respectivamente. A sensibilidade expressa a capacidade do teste de detectar corretamente os casos em que o alvo investigado está presente. Já a especificidade indica sua capacidade de apresentar resultado negativo quando esse alvo está ausente.
É importante destacar que, assim como os demais exames laboratoriais, a interpretação dos resultados exige correlação com as manifestações clínicas, os antecedentes do paciente e os achados de outros exames. Além disso, a PCR multiplex não elimina necessariamente a necessidade de cultura, testes de suscetibilidade ou investigações adicionais.
Incorporação da tecnologia à assistência à saúde no Brasil
A utilização de métodos moleculares para a investigação das infecções do SNC também avançou no âmbito regulatório brasileiro. Em novembro de 2024, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) divulgou o Relatório de Recomendação nº 938, favorável à incorporação da PCR multiplex para o diagnóstico de meningite e encefalite no Sistema Único de Saúde (SUS), que se tornou obrigatória no sistema público 180 dias após a publicação e, portanto, já está em vigor.
O relatório de avaliação da Conitec também analisou os efeitos econômicos e assistenciais da associação entre o painel molecular e os métodos diagnósticos convencionais. Segundo as estimativas apresentadas, essa estratégia demonstrou uma relação entre custos e benefícios mais favorável do que a utilização isolada dos métodos tradicionais.
Entre os resultados projetados, foi estimada uma redução de um dia de internação na população geral e de dois dias em pacientes pediátricos. O documento também apontou diminuição do período de tratamento empírico, estimada em 12 dias para a população geral e quatro dias para crianças.
Já no âmbito da saúde suplementar, de acordo com a Resolução Normativa ANS nº 627, o procedimento denominado “Agentes infecciosos na encefalite e meningite – Detecção por PCR multiplex em painel no líquor” passou a integrar a cobertura obrigatória prevista no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), com vigência a partir de 17 de fevereiro de 2025.
Quais microrganismos são pesquisados pela PCR multiplex?
O painel molecular descrito contempla 14 alvos infecciosos associados a quadros de meningite e encefalite, distribuídos entre bactérias, vírus e fungos.
Neisseria meningitidis (meningococo);
Streptococcus pneumoniae (pneumococo).
Vírus herpes simples dos tipos 1 e 2 (HSV-1 e HSV-2);
Herpesvírus humano 6 (HHV-6);
Vírus varicela-zóster (VZV), associado à catapora e ao herpes-zóster.
Fungos do gênero Cryptococcus (C. neoformans e C. gattii).
A PCR multiplex amplia a rapidez e as possibilidades de diagnóstico das meningites e encefalites, ao permitir a pesquisa simultânea de diferentes agentes infecciosos em uma única amostra/coleta, auxiliando no direcionamento do tratamento, apesar de não dispensar outros exames quando necessários nem, tampouco, substituir a avaliação médica.
Assim, a tecnologia e a sua incorporação, tanto no SUS quanto no sistema privado de saúde, representam um avanço importante para a redução da morbimortalidade dos pacientes.
Folha Vitória