Um medicamento experimental conseguiu reduzir significativamente as interrupções da respiração durante o sono em pacientes com apneia obstrutiva. A descoberta foi apresentada em uma pesquisa internacional com 691 participantes, publicada no dia 20 de outubro na revista científica New England Journal of Medicine.
A substância, chamada retatrutida, é investigada para o tratamento da obesidade e de doenças associadas. Nos testes, pacientes que receberam o medicamento apresentaram redução média de até 34,3 episódios de apneia ou hipopneia por hora de sono.
A descoberta chama a atenção pela relação entre a apneia do sono e doenças cardiovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC). Apesar disso, os pesquisadores ainda não demonstraram que o medicamento seja capaz de prevenir um AVC.
Os resultados foram obtidos em dois estudos clínicos de fase 3, que acompanharam adultos com apneia obstrutiva moderada a grave e sobrepeso ou obesidade durante 80 semanas. Entre os participantes sem diabetes que receberam 9 miligramas semanais de retatrutida, a redução média foi de 34,3 episódios respiratórios por hora.
No grupo que recebeu placebo, a queda foi de 9,9 episódios. Já entre os pacientes com diabetes tipo 2, aqueles que receberam 12 miligramas da substância apresentaram redução média de 25,4 episódios por hora, contra 10,3 entre os participantes que receberam placebo.
Qual é a relação entre apneia do sono e AVC?
A apneia obstrutiva ocorre quando as vias aéreas ficam parcial ou totalmente bloqueadas durante o sono, provocando interrupções ou reduções repetidas da respiração. Esses episódios podem causar quedas na oxigenação do sangue e alterações na pressão arterial.
A condição está associada a maiores taxas de hipertensão, AVC e doença coronariana, segundo a American Heart Association, entidade norte-americana de referência em saúde cardiovascular.
A pneumologista Jéssica Polese, especialista em Medicina do Sono e vice-presidente da Associação Brasileira do Sono no Espírito Santo (ABSono-ES), explica que os efeitos da apneia vão além do ronco e das noites mal dormidas.
Durante o sono, essas interrupções respiratórias podem provocar quedas de oxigênio e alterações na pressão arterial. Por isso, investigar e tratar a apneia é fundamental para a saúde do paciente, especialmente quando pensamos nos fatores associados ao risco cardiovascular.
Jéssica Polese, pneumologista especialista em Medicina do Sono
A discussão ganha relevância na semana do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro. No Brasil, dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 292 mil atendimentos por AVC em 2025, dos quais 218 mil foram relacionados ao tipo isquêmico, causado pela obstrução de vasos sanguíneos que irrigam o cérebro.
Medicamento ainda não foi aprovado
Apesar dos resultados apresentados na pesquisa, a retatrutida continua em fase experimental e não está aprovada para comercialização em nenhum país. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, em 14 de outubro, a apreensão e a proibição da comercialização de produtos irregulares anunciados com a substância.
Outro ponto importante é que a redução dos episódios de apneia não significa, necessariamente, uma diminuição comprovada do risco de AVC. Para estabelecer essa relação, serão necessários estudos específicos.
“É uma descoberta importante, mas precisamos ter cuidado com a interpretação. A pesquisa mostrou que o medicamento reduziu os eventos de apneia, não que preveniu acidentes vasculares cerebrais. Essa diferença é fundamental”, ressalta Jéssica.
Segundo a especialista, a redução dos episódios respiratórios representa um resultado promissor, mas ainda não é suficiente para comprovar que o medicamento possa prevenir doenças cardiovasculares.
Quais são os sintomas da apneia do sono?
A apneia obstrutiva pode passar despercebida durante anos, principalmente porque as interrupções respiratórias acontecem enquanto a pessoa dorme.
Entre os principais sinais estão ronco intenso e frequente, pausas na respiração percebidas por familiares, sensação de sufocamento durante a noite, cansaço ao acordar e sonolência excessiva ao longo do dia.
A obesidade está entre os principais fatores de risco modificáveis para a doença, mas a apneia também pode estar relacionada a características anatômicas e outras condições individuais.
Atualmente, o tratamento pode incluir mudanças de hábitos, controle do peso e uso do CPAP, aparelho que mantém as vias aéreas abertas durante o sono. A indicação depende da gravidade da doença e das condições clínicas de cada paciente.
Não podemos esperar que uma pessoa tenha um problema cardiovascular para começar a investigar a qualidade do seu sono. O diagnóstico precoce permite identificar a gravidade da apneia e iniciar o tratamento mais adequado.
Jéssica Polese, pneumologista especialista em Medicina do Sono
A especialista também ressalta que pacientes que conseguem perder uma quantidade significativa de peso precisam passar por uma nova avaliação médica antes de interromper qualquer tratamento para a apneia.
Folha Vitória