Receber um exame de sangue com ácido úrico elevado costuma gerar preocupação. Muitas pessoas associam imediatamente esse resultado à gota, aos cálculos renais ou ao risco de desenvolver doença renal crônica.
Na prática clínica, observo que alguns pacientes chegam ao consultório convencidos de que precisam iniciar um medicamento, mesmo sem apresentar qualquer sintoma. Mas será que todo ácido úrico elevado precisa ser tratado?
O que é o ácido úrico e a hiperuricemia?
O ácido úrico é uma substância produzida naturalmente pelo organismo durante a transformação de componentes presentes nas nossas células e em determinados alimentos. Grande parte é eliminada pelos rins. Quando existe produção excessiva ou dificuldade de eliminação, sua concentração no sangue pode aumentar, condição conhecida como hiperuricemia.
O problema é que o ácido úrico elevado nem sempre provoca sintomas. Algumas pessoas convivem com valores acima do habitual durante anos sem desenvolver complicações.
Sintomas e complicações do ácido úrico alto
Em outras, pode ocorrer a formação de cristais nas articulações, provocando a gota, uma inflamação caracterizada por dor intensa, vermelhidão e inchaço, frequentemente no dedão do pé. O ácido úrico também pode participar da formação de determinados tipos de cálculos renais.
A relação com os rins merece atenção especial. Pessoas com doença renal crônica frequentemente apresentam ácido úrico elevado porque seus rins têm menor capacidade de eliminá-lo. Entretanto, isso não significa que o ácido úrico seja necessariamente o responsável pela perda da função renal. Essa distinção é importante porque duas condições podem estar associadas sem que uma seja diretamente a causa da outra.
Quando o tratamento é necessário?
As principais diretrizes internacionais de nefrologia, como a KDIGO, orientam que a elevação isolada do ácido úrico, sem sintomas, não justifica o uso de medicamentos apenas com o objetivo de evitar a progressão da doença renal crônica. Por outro lado, pacientes com gota, determinados tipos de cálculos renais ou outras complicações podem necessitar de tratamento específico, sempre após avaliação individualizada.
Hábitos alimentares e automedicação
Os hábitos alimentares também fazem diferença. Reduzir o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, moderar carnes e vísceras e evitar o consumo frequente de bebidas adoçadas com frutose são medidas que ajudam no controle do ácido úrico. Manter peso adequado e hidratação apropriada também contribui para reduzir alguns fatores de risco associados.
É importante lembrar que os medicamentos utilizados para tratar a gota precisam ser escolhidos considerando a função renal e outras condições clínicas. A automedicação, especialmente com anti-inflamatórios durante as crises, pode trazer riscos adicionais para pessoas com doença renal.
Meu principal conselho é não tratar apenas o número que aparece no exame. O resultado precisa ser interpretado junto com os sintomas, o histórico de cálculos renais, a função dos rins e as demais condições de saúde. Na medicina, saber quando não prescrever um medicamento também é uma forma importante de cuidar do paciente.
Fonte: Folha Vitória