*Artigo escrito por Yuri Porto Nico, Sócio e COO da Bbutton Ventures, Líder do Comitê Qualificado de Conteúdo de Inovação e Tecnologia do Ibef-ES.
A Enter, startup capixaba fundada em 2023, acaba de se tornar o mais novo unicórnio do Brasil com valuation de US$ 1,2 bilhão.
Ela não treinou um modelo de linguagem fundacional do zero. Combinou modelos de empresas como OpenAI, Anthropic e Google com bases de dados proprietárias e aplicou num problema específico: os 80,6 milhões de processos pendentes no judiciário brasileiro, quase um para cada três habitantes. A Enter não ganhou por ter a melhor IA. Ganhou por ter o melhor modelo de negócio para transformar dados em vantagem.
O mecanismo por trás é um ciclo virtuoso de dados. A plataforma gerencia hoje cerca de 300 mil processos por ano. Cada processo resolvido ensina o modelo a prever melhor o próximo. Quanto mais precisa a IA fica, mais clientes ela atrai. Quanto mais clientes, mais dados, e mais o modelo aprende.
Esse ciclo cria uma vantagem que nenhum concorrente consegue copiar simplesmente comprando a mesma ferramenta. O modelo do Nubank é diferente do modelo do iFood, que é diferente do modelo da Enter, todos calibrados com o histórico específico de cada operação. Ou seja, quem saiu na frente não pode mais ser alcançado só com dinheiro.
Esse é o ponto que o empresário tradicional ainda não percebeu. A corrida não é para quem vai construir o melhor modelo de linguagem ou adotar a ferramenta do momento. A corrida é para quem vai acumular o dado proprietário que nenhuma IA genérica terá acesso. E o Espírito Santo está cheio desse tipo de dado.
O estado movimenta mais de US$ 1 bilhão por ano em rochas ornamentais exportadas, opera o maior terminal de exportação de minério de ferro do mundo e concentra uma cadeia de petróleo e gás com forte peso na indústria capixaba e presença relevante nas cadeias globais de energia.
São décadas de operação, processos produtivos complexos e um histórico que, em grande parte, ainda não foi digitalizado. Porém, a empresa que começar a digitalizar esse histórico e treinar um modelo de IA sobre ele vai construir, no seu setor, exatamente o que a Enter construiu no jurídico.
A diferença é que os setores capixabas já operam em escala global: as rochas ornamentais chegam aos Estados Unidos e à China, o minério e o petróleo abastecem as cadeias internacionais. Ou seja, o ciclo virtuoso de dados, uma vez fechado aqui, não precisa parar no Brasil.
A empresa de 1 bilhão de dólares capixaba não nasce de quem inventou a LLM. Nasce de quem percebeu que os dados da sua operação, quando bem treinados, têm cliente em qualquer lugar do mundo.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
Folha Vitoria