De repente, parece que o quarto começou a girar. Levantar da cama fica difícil, andar em linha reta parece impossível e qualquer movimento da cabeça piora tudo. Náuseas, vômitos, suor frio e uma enorme sensação de insegurança podem acompanhar o quadro. É nesse momento que muitas pessoas dizem: Minha labirintite atacou.
Mas existe um detalhe importante: nem toda tontura é labirintite. Na verdade, o termo “labirintite” é utilizado popularmente para descrever praticamente qualquer crise de vertigem, embora a verdadeira labirintite, que corresponde a um processo inflamatório envolvendo o labirinto, seja apenas uma das possíveis causas.
Quando uma crise começa, portanto, existem duas prioridades: evitar acidentes e tentar identificar sinais que indiquem a necessidade de atendimento médico imediato.
O primeiro cuidado é simples: pare o que estiver fazendo
Se estiver em pé, procure sentar-se ou deitar-se em local seguro. Não tente “vencer a tontura” andando pela casa. Durante uma crise intensa, o equilíbrio pode ficar bastante comprometido e existe risco de queda. Evite escadas, dirigir veículos, operar máquinas ou permanecer sozinho em locais onde uma queda possa causar consequências graves.
Se os movimentos da cabeça piorarem os sintomas, mantenha-se inicialmente em uma posição confortável e levante-se devagar. Em crises acompanhadas de náuseas e vômitos, pequenos goles de água podem ajudar na hidratação, desde que a pessoa consiga tolerá-los.
Pessoas que já possuem diagnóstico estabelecido e receberam previamente orientação médica podem utilizar a medicação prescrita para suas crises conforme essa orientação. Entretanto, iniciar medicamentos por conta própria não é uma boa estratégia, principalmente quando se trata do primeiro episódio.
Isso ocorre porque diferentes doenças podem produzir sintomas muito parecidos e necessitar de tratamentos completamente diferentes. Além disso, medicamentos chamados de supressores vestibulares podem ser úteis durante determinadas crises agudas, mas seu uso prolongado ou indiscriminado pode atrapalhar os mecanismos naturais de compensação do equilíbrio.
Uma pergunta importante durante a crise é: a tontura aparece apenas quando movimento a cabeça?
Uma das causas mais frequentes de vertigem é a vertigem posicional paroxística benigna, conhecida pela sigla VPPB. Tipicamente, a pessoa apresenta crises breves e intensas ao deitar, levantar, virar na cama ou olhar para cima. A sensação de rotação costuma durar segundos, embora algum desequilíbrio possa permanecer posteriormente.
A VPPB está relacionada ao deslocamento de pequenos cristais de carbonato de cálcio existentes no sistema vestibular. O tratamento não consiste simplesmente em tomar medicamentos. Manobras específicas de reposicionamento, realizadas após a identificação do canal comprometido, podem resolver o problema rapidamente.
Outro quadro possível é a neurite vestibular. Nesse caso, a vertigem costuma ser intensa e prolongada, podendo durar horas ou dias e provocar náuseas, vômitos e dificuldade importante para caminhar. Diferentemente de algumas doenças da orelha interna, geralmente não existe perda auditiva associada. Na maioria das vezes, ela ocorre na sequência de um episódio de virose simples e inespecífico.
Quando a vertigem aparece acompanhada de redução da audição, zumbido ou sensação de pressão na orelha, outras possibilidades precisam ser consideradas.
Uma delas é a doença de Ménière, caracterizada por episódios recorrentes de vertigem associados a sintomas auditivos. Outra possibilidade é uma verdadeira labirintite. Uma perda auditiva súbita também merece atenção especial, principalmente quando ocorre em apenas uma orelha. Nessas situações, a avaliação pelo otorrinolaringologista não deve ser adiada.
Existe ainda um grupo de pacientes que apresenta vertigem relacionada à enxaqueca. É a chamada migrânea vestibular. A pessoa pode apresentar crises de tontura mesmo sem dor de cabeça naquele momento. Histórico de sensibilidade à luz ou aos sons e episódios recorrentes podem ajudar na investigação.
Mas existe uma situação particularmente importante: algumas doenças neurológicas, inclusive o acidente vascular cerebral (AVC), podem provocar vertigem aguda.
Por isso, nem toda crise intensa deve ser automaticamente atribuída ao “labirinto”.
Procure atendimento de urgência quando a tontura vier acompanhada de dificuldade para falar, visão dupla, fraqueza ou dormência de um lado do corpo, assimetria facial, perda importante de coordenação, dificuldade súbita para ficar em pé ou caminhar, alteração do nível de consciência ou dor de cabeça súbita e muito diferente do habitual.
Mesmo sem esses sinais, uma primeira crise de vertigem muito intensa, persistente ou acompanhada de vômitos que impeçam a hidratação merece avaliação médica.
Depois que a fase mais intensa passa, é importante descobrir a causa
A investigação começa pela história clínica. Quanto tempo dura cada episódio? Segundos, minutos ou horas? A tontura acontece quando a pessoa vira na cama? Existe zumbido? Houve redução da audição? Existe sensação de pressão na orelha? Há histórico de enxaqueca? O paciente começou algum medicamento recentemente?
Essas informações frequentemente são mais importantes para o diagnóstico do que uma bateria indiscriminada de exames.
O exame clínico pode incluir avaliação dos movimentos dos olhos, pesquisa de nistagmo, testes de equilíbrio e manobras posicionais. Dependendo do caso, podem ser indicadas audiometria, exames vestibulares, exames laboratoriais ou exames de imagem.
E existe algo que possa prevenir novas crises?
Depende completamente da causa. Na VPPB, por exemplo, o tratamento principal são as manobras de reposicionamento. Na doença de Ménière, algumas mudanças de hábitos e tratamentos específicos podem reduzir as recorrências. Na migrânea vestibular, controlar fatores desencadeantes e tratar a migrânea pode fazer grande diferença. Em outros pacientes, a reabilitação vestibular é fundamental para recuperar equilíbrio e confiança.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “o que tomar quando minha labirintite atacar?”, mas “qual é a causa da minha tontura?”.
Quando a crise começar, procure uma posição de segurança, evite dirigir e previna quedas. Utilize apenas medicamentos previamente orientados para aquela situação e observe sintomas associados. Diante de sinais neurológicos, perda auditiva súbita ou uma crise muito intensa e diferente das anteriores, procure atendimento rapidamente.
Depois que tudo parar de girar, não encerre a história dizendo simplesmente que “foi labirintite”. Descobrir qual doença realmente provocou a vertigem é o passo mais importante para tratar corretamente e, principalmente, diminuir a chance de o mundo voltar a girar quando você menos espera.
Folha Vitória