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Post irônico sobre fazer “o básico” no trabalho viraliza e especialistas explicam os conflitos

Anúncio viral reacendeu debate sobre dificuldade para contratar, condições de trabalho e novas expectativas também no Espírito Santo

Por Redação em 18/09/2026 às 13:00:05
Post de restaurante com requisitos para vaga de emprego viralizou e suscitou debate entre empresas e trabalhadores. Foto: Reprodução/Instagram

Post de restaurante com requisitos para vaga de emprego viralizou e suscitou debate entre empresas e trabalhadores. Foto: Reprodução/Instagram

Um anúncio de vaga de emprego publicado por um restaurante de São Paulo viralizou nas redes sociais ao dizer que procurava pessoas capazes de fazer “o básico”. Em tom irônico, a publicação listava entre as exigências “fazer o horário [de trabalho] inteiro”, “não desaparecer no meio do expediente”, “tratar colegas e clientes como gente”, e até “trabalhar durante o horário de trabalho”.

A publicação provocou reações justamente porque listava como exigências comportamentos que, em tese, já deveriam fazer parte de qualquer relação profissional. Mas por que empresas passaram a explicitar esse tipo de requisito, mesmo que em tom de “brincadeira”? E o que está por trás das reclamações sobre dificuldade para contratar e manter trabalhadores?

O debate tem pelo menos dois lados. De um, empresários relatam mudanças no comportamento e nas expectativas dos profissionais. De outro, representantes dos trabalhadores afirmam que as próprias empresas contribuem para o problema ao oferecer condições pouco atrativas, excesso de cobrança e poucos benefícios.

Para entender esse conflito, a reportagem do Folha Vitória ouviu representantes dos setores patronal e dos trabalhadores e uma consultora de desenvolvimento organizacional.

Mudança pode ser uma questão geracional?

A dificuldade para contratar e manter profissionais é apontada pelo setor empresarial como um dos principais desafios atuais. Segundo Rodrigo Vervloet, presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares/Abrasel-ES), encontrar trabalhadores para determinadas funções tem sido uma dificuldade recorrente, assim como encontrar profissionais qualificados.

Ele afirma que o cenário não é exclusivo dos bares e restaurantes do Espírito Santo e está relacionado a transformações mais amplas no mercado de trabalho. No setor de alimentação, porém, o impacto é maior porque se trata de uma atividade intensiva em mão de obra e com uma dinâmica própria de funcionamento.

É preciso considerar também as expectativas de uma nova geração de trabalhadores e as transformações do próprio mercado. O desafio é alinhar expectativas com a realidade das empresas, modernizando as relações de trabalho e tornando o emprego formal atrativo para os dois lados.

Rodrigo Vervloet, presidente do Sindbares/Abrasel-ES

Para a consultora de desenvolvimento organizacional Roberta Kato, a necessidade de transformar pontualidade, responsabilidade e cumprimento de acordos em requisitos explícitos revela que houve uma mudança no que antes se considerava essencial.

“Quando uma empresa precisa exigir pontualidade e responsabilidade, isso mostra que aquilo que antes era pressuposto deixou de ser. Vejo mudanças entre gerações, maior conhecimento sobre direitos e novas expectativas transformando a relação de trabalho. Com a flexibilização das relações, esses códigos profissionais ficaram menos claros, e as empresas passaram a explicitar suas expectativas. Nesse contexto, até o óbvio precisa ser dito”, explica Roberta.

A especialista também aponta uma mudança na maneira como parte dos trabalhadores enxerga a própria relação com as empresas. Segundo ela, o emprego deixou de ocupar, em muitos casos, um lugar tão central na identidade das pessoas quanto ocupava no passado.

Essa mudança ajuda a entender por que comportamentos antes considerados essenciais para permanecer em uma organização podem deixar de ter o mesmo peso para parte dos profissionais.

A pandemia também faz parte desse contexto, especialmente em setores que perderam trabalhadores durante o período e tiveram profissionais migrando para outras atividades ou para a informalidade.

No setor de bares e restaurantes, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Bares, Restaurantes e Similares do Espírito Santo (Sintrabares), Paulo Nascimento, afirma que os efeitos da pandemia ainda são sentidos.

Segundo ele, cerca de metade dos trabalhadores do segmento foi dispensada durante a crise, e muitos passaram quase dois anos afastados do mercado formal.

Garçom virou ‘Uber’, cozinheiras começaram a fazer marmitas, bolos, doces em casa e não retornaram para o mercado formal. Isso foi uma das consequências da pandemia para o setor.

Paulo Nascimento, presidente do Sintrabares

Ele também contesta a ideia de que a dificuldade de contratação possa ser explicada apenas por uma mudança no comportamento dos trabalhadores. Na avaliação dele, empresas precisam observar as condições oferecidas e a forma como tratam suas equipes.

“Ninguém trabalha por esporte. Não acredito que pai ou mãe saia de casa, muitas vezes volte de madrugada, para fazer o básico. A empresa precisa oferecer um ambiente saudável, deixar o trabalhador confortável, humanizar o ambiente, ter menos rigor e mais empatia”, afirma.

Relação precisa ser via de mão dupla

Para Roberta Kato, a cobrança por comportamentos como respeito, responsabilidade e cumprimento de acordos é legítima. O problema aparece quando a empresa exige comprometimento sem avaliar se oferece condições para que ele exista.

Ela defende uma espécie de responsabilidade compartilhada: o comportamento do trabalhador também é influenciado pela cultura da organização, pela liderança e pelo ambiente profissional.

Empresa te contrata por um determinado valor para realizar determinadas entregas e você, em contrapartida, recebe o valor por isso. Quando a organização deixa de entregar o que precisa e o trabalhador também deixa de entregar, começa esse desencontro que está gerando todo esse desgaste.

Roberta Kato, consultora de desenvolvimento organizacional

Rodrigo Vervloet também defende que o setor acompanhe as mudanças na relação com o trabalho. Para ele, não se trata de atribuir a responsabilidade a apenas um dos lados, mas de investir em qualificação, desenvolvimento profissional e melhoria dos processos.

Já Paulo Nascimento aponta como caminhos para a retenção de trabalhadores uma relação mais próxima entre gestores e equipes, diálogo para identificar problemas no ambiente profissional ou na vida pessoal e benefícios capazes de aumentar a permanência, como plano de saúde.

No fim, o “básico” cobrado no anúncio viral revela uma discussão maior: a relação tradicional entre empresa e trabalhador está mudando, e parte dos conflitos surge justamente do desencontro entre o que cada lado espera dessa relação.

Fonte: Folha Vitória

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