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Antes mesmo de um filho nascer, os pais já começam a imaginá-lo. Pensam em como será sua aparência, sua personalidade, as atividades de que vai gostar e até nas habilidades que esperam que ele tenha. Imaginam uma criança organizada, estudiosa, sociável, caprichosa, obediente, boa nos esportes ou interessada em música.
Então, o filho nasce e começa a mostrar quem realmente é.
Às vezes, ele é muito diferente da criança que os pais imaginaram. Pode ser mais agitado, distraído, desorganizado, tímido, sensível ou pouco habilidoso em atividades que a família valoriza. Pode não gostar de esportes, não ter interesse em tocar um instrumento ou apresentar dificuldades na escola. E muitos pais, mesmo amando profundamente seus filhos, têm dificuldade para aceitar que eles não correspondem à imagem que criaram.
Quando os pais precisam deixar de lado o filho idealizado
De alguma maneira, é necessário fazer um luto pelo filho idealizado. Não um luto pela criança que nasceu, mas pelas expectativas construídas antes que ela tivesse a oportunidade de mostrar quem é.
O problema começa quando os pais insistem tanto no filho que imaginaram que deixam de enxergar o filho real. A criança passa a receber, de diferentes formas, a mensagem de que precisa mudar para ser aceita. Ela percebe a frustração dos pais quando não consegue ter a letra mais bonita, tirar as melhores notas, fazer amigos com facilidade ou se destacar em alguma atividade.
Muitas vezes, os adultos dizem que estão apenas incentivando. Mas existe uma diferença entre incentivar uma criança a se desenvolver e tentar transformá-la em alguém que ela não é.
Incentivar é oferecer oportunidades, apoio e recursos. É ajudar a criança a melhorar aquilo que pode ser desenvolvido, respeitando seu ritmo, seus limites e suas características. Forçar é insistir para que ela corresponda a uma expectativa que pertence aos pais.
Aceitar um filho como ele é não significa deixar de educá-lo, não colocar limites ou acreditar que ele não pode evoluir. Também não significa desistir diante de uma dificuldade. Podemos ensinar organização, responsabilidade, autonomia e respeito. Podemos buscar ajuda quando percebemos que algo está dificultando seu desenvolvimento. O que não podemos é fazer a criança acreditar que sua natureza está errada.
Será que seu filho realmente deseja fazer determinada atividade ou você gostaria de vê-lo fazendo? Será que ele precisa melhorar aquele comportamento ou apenas não está agindo da maneira que você imaginou? Será que aquilo é uma dificuldade real ou apenas uma característica que incomoda porque foge do padrão esperado?
Cada criança tem características e talentos próprios
Quando tentamos encaixar nossos filhos em um modelo, podemos acabar apagando justamente aquilo que os torna únicos. Uma criança pode não ser boa nos esportes, mas ter uma enorme capacidade de criar. Pode não ser organizada, mas demonstrar sensibilidade para perceber o sofrimento do outro. Pode não corresponder às expectativas escolares e, ainda assim, possuir talentos que ainda não foram descobertos.
Nossos filhos não vieram ao mundo para cumprir o roteiro que escrevemos para eles. Vieram para descobrir quem são. Podemos orientar, oferecer recursos, colocar limites e ajudá-los a superar suas dificuldades, mas sem tentar mudar sua essência.
Talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade seja justamente esta: abrir mão do filho que imaginamos para conseguir enxergar, conhecer e amar profundamente o filho que chegou.
Fonte: Folha Vitória