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Novas formas de trabalhar e o desafio da arquitetura remota

Com novas tecnologias e modelos de trabalho, arquitetos precisam equilibrar flexibilidade e colaboração para preservar a qualidade dos projetos e as conexões humanas

Por Redação em 04/09/2026 às 21:00:05
Foto: Freepik

Foto: Freepik

Caroline Vallandro Costa é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e Urbanismo e coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAESA. Atua na orientação de projetos de pesquisa e extensão nas áreas de sustentabilidade, bioconstrução e acessibilidade, além de desenvolver materiais didáticos voltados à modelagem tridimensional em BIM.

São múltiplas as modalidades viáveis para o trabalho de um arquiteto e urbanista. Algumas já não fazem sentido, outras ainda vão ser criadas. Mas uma constante é certa: a arquitetura sempre demandará diálogo e colaboração entre diferentes partes. Seja pelo caráter mediador que o arquiteto desempenhará ao traduzir um desejo verbalizado em expressão gráfica, seja pela habilidade de percepção de demandas ambientais nem sempre claras, que, de modo não-verbal estão no campo do “sentir”, seja pela necessidade de comunicação entre parceiros, para aprovação ou execução dos projetos almejados. Por estes e outros motivos, a consolidação do trabalho remoto na arquitetura não representa apenas uma mudança de endereço do escritório para casa: ela impacta a própria organização e qualidade do processo de projetar.

Há ganhos evidentes e estes são de fácil percepção. Basta fazer as contas da economia com combustível, o alívio do estresse e risco, quando não é preciso enfrentar grandes deslocamentos, e as possibilidades de acesso a uma rede mais ampla de profissionais, apoiadores, fornecedores, na formação de redes de parcerias. Na arquitetura essa lógica ganha força com plataformas de videoconferência, modelagem em nuvem e com o Building Information Modeling (BIM), metodologia que permite reunir informações das diferentes etapas do projeto à execução, por meio de modelos digitais compartilhados.

Entretanto, a produção da arquitetura não pode se limitar às etapas digitalmente materializadas. Visitas técnicas, levantamentos, acompanhamentos de obra, percepção das condicionantes ambientais (climáticas, geográficas, sociais e outras), diálogo com comunidades e suas visões e culturas, continuam dependendo de uma experiência “de dentro” do espaço. Estes aspectos são pilares fundamentais de um bom levantamento de dados precedentes, que conduzirão todas as etapas seguintes às possibilidades de sucesso do empreendimento. Foi-se o tempo das navegações onde os colonizadores achavam que podiam interpretar o “novo mundo”, a partir de ilustrações cartográficas dos mapas geográficos vistos “de cima”.

Além disso, quais são os limites da criatividade quando as reuniões coletivas “virtuais” são reduzidas às trocas objetivas de planilhas, números e tarefas? O escritório presencial, principalmente em tarefas de que demandam trocas de imaginários criativos, se revela um ambiente formativo enriquecedor: observar um colega desenhar, discutir uma solução por meio de um croqui, ou ter em mãos acesso a uma biblioteca vasta de materiais e amostras compartilhadas, também são práticas profissionais importantes.

Outro desafio é que, virtualmente, a flexibilidade pode ser facilmente interpretada como “disponibilidade permanente”. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho (Eurofound), que produzem pesquisas conjuntas sobre o mercado de trabalho global e europeu, sinalizam que jornadas estão sendo prolongadas, e as fronteiras entre a vida pessoal e profissional estão sendo diluídas. Para arquitetos, frequentemente apaixonados pelo que fazem, quando submetidos a prazos intensos, em múltiplos projetos simultâneos, esses riscos merecem atenção.

O paradigma mais próspero, portanto, não parece ser a eliminação de métodos, sejam antigos, sejam atuais. Mas sim, combinar a presença e a distância de modo intencional, personalizando as atitudes de acordo com as múltiplas realidades e demandas.

Atividades de concentração, documentação, compatibilização podem ganhar eficiência na distância por meio das novas tecnologias, processos criativos, visitas iniciais, decisões complexas, tendem a se beneficiar do encontro presencial. O desafio contemporâneo é construir uma cultura profissional em que a tecnologia amplie a colaboração sem substituir aquilo que constitui a essência da arquitetura e urbanismo: compreender pessoas, lugares e favorecer as suas relações no espaço.

Fonte: Folha Vitória

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