Contas públicas desarrumadas e pressão dos juros são piores para cidadão comum, cada vez mais pressionado por alta de impostos. Foto: Freepik
Artigo escrito porÉrico Colodeti FilhoCFP®(Certified Financial Planner), especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário.
As contas externas brasileiras acenderam um novo sinal de alerta. Em julho, o déficit nas transações correntes atingiu US$ 8,1 bilhões, o pior resultado da série histórica para o mês. O indicador reflete o forte avanço das remessas de lucros, dividendos e pagamentos de serviços ao exterior.
Enquanto o país perde divisas lá fora, milhões de famílias perdem renda aqui dentro, mostrando que a conta que teima em não fechar na macroeconomia é a mesma que não fecha na mesa do cidadão comum.
As transações de julho expõem sucessivas barras vermelhas de déficit, aprofundando o rombo até o recorde atual. Na prática, o déficit significa que o Brasil consumiu mais moeda estrangeira do que gerou. Pressionando a taxa de câmbio, elevando o dólar, ampliando a percepção de risco e alimentando a inflação doméstica, o que trava a redução dos juros. O país depende de superávits comerciais e de Investimento Estrangeiro Direto para equilibrar essa balança. Porém, a incerteza fiscal constante afugenta o capital produtivo de longo prazo, deixando a economia inteiramente exposta a choques externos.
Esse desequilíbrio externo agrava uma crise interna silenciosa. O endividamento das famílias atingiu a marca recorde de 81,6%, e a inadimplência asfixia o setor produtivo.
As manchetes costumam destacar os CNPJs de grandes companhias pela magnitude dos números. No entanto, a esmagadora maioria das empresas com problemas financeiros é formada por microempreendedores individuais, os MEIs, verdadeiros pilares da economia nacional.
Sufocados por juros elevados, crédito escasso e queda acentuada no consumo, o pequeno comerciante e o prestador de serviços sentem o peso da crise e não encontram alternativas para escapar.
Para cobrir rombos fiscais, o Estado recorre ao aumento da carga tributária, colidindo frontalmente com a lógica da Curva de Laffer, que ensina como a tributação excessiva reduz a arrecadação real ao desestimular a produção. O retrato mais fiel do atual mix macroeconômico é o de um conjunto restritivo com perfil fiscal expansionista: o governo estimula a demanda com gastos e déficits, enquanto o Banco Central compensa esse estímulo com juros altos para conter a inflação.
Esse arranjo gera crescimento mais resiliente do que o esperado, mas com juros elevados, dívida pública crescendo e risco fiscal pressionando o prêmio de risco. Motivo pelo quais órgãos como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Instituição Fiscal Independente (IFI) avaliam a trajetória fiscal como insustentável no médio prazo, já que o gasto expansionista não é financiado por impostos suficientes. Ou seja, conta acaba sendo paga com mais dívida e juros mais altos, neutralizando parte do próprio estímulo.
O resultado é a fuga silenciosa de empresas, que buscam saída fiscal se instalando em países vizinhos de carga tributária bem mais “amigável” para garantir a continuidade dos negócios. A conta que não fecha no país reflete a conta que não fecha em cada lar e em cada pequeno negócio.
O Brasil não precisa de mais arrecadação vinda do esforço de quem mal consegue pagar as contas. Por outro lado, precisa de gestão responsável e de educação financeira para que famílias e MEIs aprendam a planejar, a se proteger e a construir reservas em vez de sobreviver de paliativos.
Enquanto o governo insistir em tratar a economia como número de gráfico e ignorar a realidade de quem a movimenta, a inadimplência e o déficit continuarão crescendo, e o país seguirá diante de uma conta que nunca fecha.
Fonte: Folha Vitoria