Moradores cobram tratamento adequado e criticam demora em obras
Moradores e entidades ambientais da Serra tem cobrado soluções para as denúncias reiteradas de lançamento de esgoto nos corpos d’água e os impactos da poluição sobre rios e praias. Em Manguinhos, a presidente da Associação de Moradores do Balneário de Manguinhos (), Morena Joffily, afirma que o problema não é recente e que a comunidade convive há pelo menos 15 anos com a falta de tratamento adequado do esgoto antes da chegada ao mar.
“O esgoto não está sendo bem tratado. Está sendo jogado in natura em todos os córregos da Serra. Ele está chegando diretamente no mar, principalmente no Córrego Laripe”, afirmou Morena. Segundo ela, não houve uma melhora significativa mesmo após a entrada da Ambiental Serra, concessionária responsável pelo serviço de esgotamento sanitário por meio de parceria público-privada (PPP). “Eu não sei dizer se piorou, mas não melhorou. Zero melhora. O esgoto está sendo jogado diretamente ao mar”, declarou.
A situação, segundo a presidente da associação, é especialmente perceptível na praia da Chaleirinha, em Manguinhos. O local possui formações rochosas que, durante a maré baixa, formam pequenas piscinas naturais. De acordo com Morena, essas áreas acabam acumulando água contaminada, o que impede o uso pelos moradores.
“Na maré baixa, formam piscininhas, por causa daquelas pedras que se chamam rochas lateríticas. E essas piscininhas ficam acumulados esgotos nelas. Então, não tem a menor condição”, relatou.
Morena afirma ainda que a situação não se restringe a Manguinhos. Na avaliação dela, problemas semelhantes são observados em córregos e praias de Jacaraípe, Bicanga, Carapebus e outras regiões da Serra. A associação diz já ter procurado diferentes órgãos públicos para cobrar providências, incluindo Prefeitura e Ministério Público.
Entre as respostas recebidas, estaria a previsão de ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto de Manguinhos (ETE Manguinhos) e de uma intervenção de despoluição do Córrego Laripe. A proposta, segundo Morena, seria utilizar o local como uma espécie de projeto-piloto para posteriormente replicar as ações em outros pontos.
“Que vão aumentar a capacidade da ETE Manguinhos, que vão fazer uma despoluição do Córrego Laripe, como a primeira despoluição que vai ser feita, e depois vai ser usada como base, vai ser usada como despoluição pioneira, depois vai ser replicada em outros… Mas a gente não está vendo isso acontecer”, afirmou.
Ela também questiona o estágio de execução das medidas anunciadas. Segundo a presidente da associação, moradores receberam informações de que a ampliação estaria avançando. Mas, até o momento, não teriam identificado sequer a contratação da equipe responsável pela intervenção. “Eles ficam prometendo, fazem reuniões, reuniões políticas, afirmando que, por exemplo, a ETE Manguinhos vai ter uma ampliação, e pelo que a gente saiba, nem a contratação ainda foi feita”, disse.
Outra proposta mencionada para enfrentar o problema é a implantação de um emissário submarino. Para Morena, entretanto, a medida não garante, por si só, que o esgoto será adequadamente tratado. “Emissário é uma tubulação que joga lá, a um quilômetro pra fora, o esgoto. E eles prometem que o esgoto vai ser tratado e vai jogar lá fora. E não tem como garantir. Se eles já não jogam e não tratam o esgoto que a gente está vendo aqui, imagina lá que ninguém vai ver”, criticou.
O impacto, para a comunidade de Manguinhos, ultrapassa a questão ambiental. A região reúne atividade pesqueira, turismo e um polo gastronômico que depende da presença de visitantes. “A gente tem restaurantes. Pra ter restaurantes a gente precisa do turismo. Como é que a gente faz uma chamada bonita pra Manguinhos se Manguinhos está poluído?”, questionou Morena.
Ela também aponta prejuízos para pescadores que dependem diretamente do mar. “Aqui é um vilarejo, uma vila de pescadores que tiram o sustento do mar. Então, se o mar está poluído, como é que tira o sustento do mar?”, questionou. Na avaliação da presidente da associação, os efeitos atingem ainda saúde, geração de renda, turismo e cultura. “A poluição impacta de forma negativa em todos os quesitos dentro da comunidade de Manguinhos”, disse.
O presidente do Instituto Brasileiro de Fauna e Flora (IBRAFF), Claudiney Rocha, que atua na região de Jacaraípe, amplia a discussão e chama à atenção para o problema das ligações irregulares de esgoto nas redes de drenagem. Segundo ele, informações apresentadas pela própria Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) em audiência pública apontam a existência de ligações irregulares que fazem com que o esgoto alcance corpos hídricos. “Hoje nós temos muita ligação irregular nas redes pluviais. Com a grande quantidade de ligação desenvolvida de forma irregular, isso aumenta a quantidade de esgoto chegando nos corpos hídricos”, afirmou.
Para Claudiney, a situação também revela um conflito recorrente de responsabilidade pela fiscalização. “Cesan fala que é Prefeitura, Prefeitura fala que é Cesan, e assim sucessivamente. Mas quem tem poder de fiscalização, no caso, é a Prefeitura”, disse. Ele defende que o poder público utilize os dados disponíveis que tratam das ligações irregulares para identificar os responsáveis e determinar a correção dos lançamentos. “O que não pode é continuar da forma que está”, afirmou.
O ambientalista pondera, porém, que a responsabilidade não deve ser atribuída exclusivamente ao poder público ou às empresas de saneamento. Para ele, moradores e empreendimentos também precisam cumprir as regras ambientais e evitar o lançamento irregular de esgoto e resíduos.
“Cada um tem que ter a sua obrigação. A população também tem que ter a sua obrigação de fazer certo. (…) A Prefeitura tem que fiscalizar quem está fazendo isso, quem está lançando esgoto nas redes fluviais. E isso não é só morador. Tem empresas também lançando esgoto em redes fluviais”, declarou.
Além dos efluentes sanitários, Claudiney aponta os resíduos sólidos como uma das principais ameaças à fauna marinha. Segundo ele, o IBRAFF continua registrando animais afetados pela poluição e cita especialmente tartarugas marinhas. “O esgoto também tem uma influência muito grande também na tartaruga verde. Aqueles tumores que aparecem tem influência do esgoto sendo lançado nos córregos, chegando até o mar”, disse.
Morena também diz que a associação continuará pressionando os órgãos responsáveis. Segundo ela, moradores se organizam, participam de reuniões e cobram Prefeitura e empresas de saneamento para que as medidas anunciadas saiam do papel. “A gente está sempre pressionando pra ver esse resultado aparecer”, afirmou.
A presidente da associação defende que a proteção ambiental seja tratada como prioridade nas políticas públicas, especialmente diante dos impactos da degradação ambiental e das mudanças climáticas. “A gente já está em meio a uma calamidade mundial de poluição, de aquecimento, então isso aí, na minha opinião, tinha que ser o ponto-chave de qualquer proposta governamental”, afirmou. Para ela, o problema dos rios e praias da Serra não pode ser tratado como uma questão secundária diante do crescimento urbano e econômico da região. “Se os esgotos são jogados na praia, todos nós iremos sofrer, a comunidade vai sofrer, o país, o mundo vai sofrer”, declarou.
O post “Calamidade de poluição”: associação cobra solução para esgoto na Serra apareceu primeiro em Século Diário.
Século Diário