O investimento de até R$ 5 bilhões da ArcelorMittal para a Unidade de Tubarão não deve ser analisado isoladamente. O novo laminador a frio e a linha de revestimento permitirão produzir, no Espírito Santo, 560 mil toneladas anuais de aços de maior valor agregado. É justamente o tipo de material consumido por indústrias como a automotiva. A mesma da chinesa GWM. Deu match?
A expansão da ArcelorMittal conversa diretamente com a chegada da GWM a Aracruz, um investimento aproximado de também R$ 5 bilhões. Ou seja, no total, R$ 10 bilhões de investimento privado no ES, de uma tacada só.
A fábrica da montadora chinesa vai realizar estamparia, soldagem, pintura e montagem final, com capacidade de produzir até 200 mil veículos por ano.
A previsão é inaugurar a unidade da GWM em 2028, enquanto a nova estrutura da ArcelorMittal deve entrar em operação no primeiro semestre de 2030. Os cronogramas não são idênticos, mas apontam para a mesma direção: uma economia capixaba mais industrializada, tecnológica e integrada.
Ainda não existe anúncio de contrato de fornecimento entre as duas empresas. É tudo, ainda, muito prematuro. Porém, a complementaridade é evidente.
E se não há contratos acertados, não se pode dizer o mesmo de conversas. Executivos chineses já visitaram a indústria capixaba. Foi durante o período de anúncio oficial da pedra fundamental da GWM em Aracruz, no final de junho. Ou seja, visitas de cortesia, porém cobertas de significado e senso de oportunidade.
A GWM precisará de aço para carrocerias, estruturas e componentes. Enquanto a ArcelorMittal passará a fabricar localmente produtos laminados a frio e revestidos, com maior resistência à corrosão e acabamento mais sofisticado.
Produzir o insumo perto da montadora pode reduzir custos logísticos, estoques e prazos, além de tornar o Espírito Santo mais atraente para fornecedores.
Oportunidade de verticalizar a indústria capixaba
O salto verdadeiro está na possibilidade de construir uma cadeia quase completa. O minério e os demais insumos chegam pela infraestrutura ferroviária e portuária, viram aço, passam pelo beneficiamento industrial e podem terminar na forma de um automóvel produzido em Aracruz. Depois, o veículo pode seguir pelos portos capixabas para o mercado brasileiro ou para países como Argentina, México, Chile, Colômbia e Uruguai. Ou até Europa, com o novo acordo com o Mercosul.
Essa verticalização muda a qualidade da economia. Em vez de apenas transportar ou exportar matérias-primas, o Estado passa a agregar valor em várias etapas, gerando demanda para empresas de autopeças, ferramentaria, automação, manutenção, engenharia, software e logística. O resultado potencial é uma indústria mais diversificada, empregos mais qualificados, salários maiores e uma arrecadação menos dependente das oscilações das commodities.
No entanto, o encontro entre ArcelorMittal e GWM não acontecerá automaticamente. Será necessário atrair fornecedores, qualificar trabalhadores e garantir energia, gás, rodovias, ferrovias e portos capazes de acompanhar essa expansão.
Se o Estado conseguir transformar os dois grandes anúncios em uma política coordenada de desenvolvimento industrial, o Espírito Santo poderá deixar de ser apenas uma eficiente plataforma de passagem de mercadorias. Vai se tornar um dos principais polos de produção e exportação de bens industriais do país.
Folha Vitoria