Quando alguém decide emagrecer, é comum que a primeira preocupação seja o número que aparece na balança. Mas, como endocrinologista e metabologista, eu sempre reforço que perder peso e perder gordura não são exatamente a mesma coisa.
Durante um processo de emagrecimento, o objetivo não deve ser simplesmente fazer a balança baixar. O foco deve estar em reduzir gordura corporal e, ao mesmo tempo, preservar o máximo possível de massa muscular.
Isso se torna ainda mais relevante com o passar dos anos, quando naturalmente passamos a ter maior dificuldade para manter músculos e força.
A importância da massa muscular
A massa muscular não está relacionada apenas à aparência, mas participa diretamente da nossa capacidade de realizar atividades do dia a dia, manter força, mobilidade e independência. O músculo também é um tecido metabolicamente ativo e está envolvido na utilização da glicose e no funcionamento do metabolismo energético, além des estar ligado à nossa saúde cogniitiva.
Por isso, quando alguém emagrece muito rapidamente ou faz uma dieta excessivamente restritiva, precisamos olhar além do peso perdido.
A balança não conta toda a história. Imagine duas pessoas que perderam exatamente 10 quilos.
Uma delas reduziu principalmente gordura corporal e conseguiu preservar sua massa muscular. A outra perdeu uma quantidade importante de gordura, mas também perdeu mais massa magra.
Na balança, o resultado pode parecer semelhante. No organismo, porém, não necessariamente. É por isso que, em determinados casos, acompanhar apenas o peso pode ser insuficiente. Avaliar composição corporal, força, desempenho físico e evolução clínica pode oferecer uma visão muito mais completa do processo.
Proteína é importante, mas não trabalha sozinha
A alimentação tem um papel fundamental na preservação muscular durante o emagrecimento. A proteína fornece aminoácidos necessários para a manutenção e construção dos tecidos.
No entanto, existe um erro comum: acreditar que basta aumentar muito o consumo de proteína. Não é assim. A quantidade adequada depende de fatores como idade, peso, composição corporal, nível de atividade física e condições de saúde. Pessoas com determinadas doenças, especialmente alterações renais, por exemplo, precisam de uma avaliação individual antes de fazer mudanças importantes na ingestão proteica.
Além disso, a qualidade da proteína e a distribuição da alimentação ao longo do dia também precisam ser consideradas.
E existe outro componente indispensável nessa equação: o exercício de força.
Evidências recentes e recomendações para o tratamento da obesidade reforçam a importância de combinar uma ingestão adequada de proteína com treinamento resistido para ajudar a preservar a massa magra durante a perda de peso.
Isso não significa que todo mundo precise fazer musculação da mesma maneira. O treinamento deve ser adaptado à idade, condição física, limitações e objetivos de cada pessoa.
E quem usa medicamentos para emagrecer?
Esse cuidado também é importante para quem utiliza medicamentos indicados para o tratamento da obesidade.
Esses medicamentos podem reduzir significativamente o apetite. Comendo menos, algumas pessoas podem também reduzir bastante a ingestão de proteínas e de outros nutrientes. Por isso, durante um tratamento para perda de peso, é importante acompanhar não apenas quantos quilos foram eliminados, mas também a qualidade dessa perda.
A própria estratégia terapêutica deve considerar alimentação adequada, atividade física e acompanhamento profissional.
Não precisamos ter medo de emagrecer. Precisamos emagrecer com qualidade. Essa diferença é fundamental.
Um emagrecimento saudável não é aquele que simplesmente produz o menor número possível na balança em pouco tempo. É aquele que melhora a saúde metabólica, reduz o excesso de gordura e busca preservar força e massa muscular.
Por isso, quando alguém me pergunta qual é a melhor estratégia para emagrecer, minha resposta não começa pela balança, começa pelo paciente.
Precisamos entender a composição corporal, a alimentação, o nível de atividade física, o sono, os hábitos, as doenças associadas, os medicamentos utilizados e os objetivos daquela pessoa.
Emagrecer é importante para quem precisa perder peso. Mas preservar músculos, força e funcionalidade também faz parte do tratamento.
No fim das contas, mais importante do que simplesmente pesar menos é estar metabolicamente mais saudável e fisicamente mais preparado para viver bem.
Folha Vitória