*Artigo escrito por Araceli Bufon, Consultora de Novos Negócios na SOU Consultoria e membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de ESG do IBEF-ES.
O Brasil convive há décadas com baixos níveis de produtividade e, em 2022, ocupava posição próxima à 78ª colocação entre 131 países em produtividade por hora trabalhada, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), porém ainda subestima um de seus principais gargalos: a dificuldade de tratar a formação de talentos como infraestrutura estratégica para a competitividade.
Nesse contexto, há hoje um desalinhamento silencioso na forma como muitas empresas utilizam o Investimento Social Privado (ISP), definido pelo GIFE como o repasse voluntário de recursos privados, de forma planejada, monitorada e sistemática, para projetos, programas e ações de interesse público.
Enquanto algumas organizações investem na formação de talentos, outras apenas se beneficiam desses investimentos sem participar diretamente da formação desses profissionais.
No curto prazo, essa estratégia pode parecer uma vantagem competitiva. No longo prazo, porém, revela-se um modelo pouco sustentável e economicamente ineficiente.
O impacto é direto sobre a produtividade. A escassez de talentos eleva custos de contratação e reduz a eficiência operacional. Segundo o Observatório da Produtividade do IBRE/FGV (2025), a produtividade do trabalho no Brasil cresceu apenas 0,8% ao ano entre 1996 e 2024.
Entre as causas estão as lacunas na formação profissional e o desalinhamento entre competências e demandas do mercado, um desafio que também exige o envolvimento do setor empresarial.
De acordo com o Censo GIFE 2022-2023, o ISP mobilizou R$ 4,8 bilhões no Brasil em 2022, com forte concentração de recursos em iniciativas voltadas à educação e ao desenvolvimento de capacidades. Apesar da relevância desses investimentos, grande parte das ações ainda ocorre de forma isolada.
Forma-se, assim, uma lógica pouco eficiente: empresas investem menos na formação de talentos e passam a competir por profissionais já qualificados, aumentando os custos de contratação.
Nesse cenário, iniciativas isoladas de ISP dificilmente conseguem sustentar a formação de talentos na escala e na velocidade exigidas pelo mercado.
O ISP precisa, portanto, evoluir e deixar de tratar a formação de pessoas como um diferencial competitivo individual para reconhecê-la como uma infraestrutura de produtividade essencial ao desenvolvimento sustentável de setores econômicos e territórios.
Para Michael Porter, a vantagem competitiva sustentável não depende exclusivamente do desempenho individual das empresas, mas da capacidade de desenvolver ecossistemas produtivos fortes, nos quais organizações, instituições de ensino, governos e demais atores atuam de forma articulada para ampliar a inovação, a qualificação da mão de obra e a produtividade.
Sob essa perspectiva, investir conjuntamente na formação de talentos deixa de ser apenas uma ação social e passa a constituir uma estratégia de fortalecimento da competitividade regional e setorial.
Afinal, uma andorinha só não faz verão, nem forma, sozinha, os talentos de que a economia precisa.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
Folha Vitoria