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Economia

O Brasil tem seu Atlas

No Brasil, essa retirada não tem forma de greve épica. Aparece em decisões discretas: não reinvestir, levar patrimônio para fora


Foto: Magnific

Artigoescrito porGuilherme Silva Machado, Analista de Dados daGlobalsys e Membro do IBEF Academy.

Atlas, na mitologia grega, foi condenado a sustentar o céu. Em A Revolta de Atlas, Ayn Rand usa essa imagem para perguntar o que ocorre quando quem produz deixa de aceitar um sistema que o trata como suspeito.

No Brasil, essa retirada não tem forma de greve épica. Aparece em decisões discretas: não contratar, não reinvestir, levar patrimônio para fora.

O tema merece reflexão porque o país trata a riqueza como estoque disponível à captura, e não como fluxo que depende de confiança, propriedade e incentivos. A tese é esta: os Atlases brasileiros não sumiram, mas muitos já calculam se ainda vale carregar esse peso.

Eles não são apenas bilionários. São empresários médios, executivos, investidores, médicos, engenheiros, produtores rurais, programadores, fundadores de startups e profissionais capazes de converter conhecimento, capital e trabalho em valor. A importância desses agentes não está no patrimônio que acumulam, mas na função econômica que exercem.

Riqueza não nasce por decreto. Ela surge quando alguém identifica uma necessidade, organiza recursos escassos, assume risco e oferece algo que outras pessoas escolhem comprar. Antes de existir imposto a arrecadar, emprego a proteger ou política pública a financiar, precisa existir produção. Esse é o ponto que o debate brasileiro muitas vezes ignora.

O problema é que o Brasil parece pedir ao produtor que corra como empreendedor e aceite ser tratado como infrator em potencial. Em 2025, a carga tributária bruta chegou a 32,40% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. A partir de 2026, lucros e dividendos acima de R$ 50 mil por mês, pagos por uma mesma empresa a uma pessoa física, terão retenção de 10% na fonte, conforme a Receita Federal.

A discussão sobre justiça fiscal é legítima. Mas ela costuma esquecer o efeito sobre o comportamento. O capital compara riscos, prazos e retornos. Quando a tributação alta se combina com burocracia, instabilidade normativa e hostilidade cultural ao lucro, a reação racional não é protestar; é reduzir exposição.

Essa retirada quase nunca aparece nas estatísticas do cotidiano. Ela surge como decisão privada. Uma filial que não abre; um projeto que espera; um jovem qualificado que passa a vender seu trabalho para fora; uma empresa que estrutura parte de sua operação em outra jurisdição.

O Banco Central registrou US$654,5 bilhões em capitais brasileiros no exterior em 2024. A Henley & Partners projetou a saída líquida de 1.200 milionários do Brasil em 2025, enquanto países como Emirados Árabes, Estados Unidos, Malta e Costa Rica aparecem entre os destinos ou mercados que atraem mais riqueza móvel.

Esses dados não provam que todos saem por causa de impostos. Mas confirmam uma verdade incômoda: capital e talento têm escolha.

O drama brasileiro, portanto, não é apenas a saída dos ricos. É o enfraquecimento das condições que levam alguém a trocar conforto por risco produtivo. Em Por que as Nações Fracassam, Acemoglu e Robinson defendem que países prosperam quando protegem a propriedade, estimulam a inovação e permitem que novos agentes desafiem estruturas antigas.

No Brasil, porém, o debate público muitas vezes se concentra em capturar riqueza já formada, enquanto trata como secundários os incentivos que permitem a próxima empresa, a próxima tecnologia e o próximo investimento.

Um país pode aumentar impostos sobre quem já produziu, mas não consegue decretar o nascimento do próximo empreendedor, a confiança do próximo investidor ou a permanência do próximo talento.

Os Atlases brasileiros não precisam abandonar o país em massa para que a nação empobreça. Basta que arrisquem menos. Quando produzir deixa de parecer racional, a prosperidade não grita. Ela apenas tira, pouco a pouco, o peso dos ombros.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, bem como da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.

Folha Vitoria

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