Conseguir uma consulta com um médico especialista ainda é um desafio para milhares de capixabas que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Apenas nas dez especialidades com maior demanda da Região Metropolitana de Saúde — que reúne 23 municípios, incluindo os da Grande Vitória —, 116.160 pacientes aguardam atendimento. A maior fila é para neuropediatria, com 26.908 pessoas à espera, seguida por cardiologia adulto (13.605) e endocrinologia adulto (12.226).
Diante desse cenário, o Governo do Espírito Santo tem apostado em diferentes estratégias para ampliar o acesso à assistência especializada. Uma delas é o programa de teleconsultas, implantado em 2025 e que, em pouco mais de um ano, já ultrapassou a marca de 125 mil atendimentos realizados em todas as regiões do Estado.
A proposta utiliza a tecnologia para aproximar pacientes de médicos especialistas sem a necessidade de grandes deslocamentos e ampliar a oferta de consultas no SUS. Embora não elimine as filas de espera, a iniciativa tem sido utilizada como uma ferramenta para aumentar a capacidade de atendimento da rede pública.
Teleconsultas chegaram aos 78 municípios capixabas
A implantação começou pela Região Sul, em janeiro de 2025. Em seguida, o serviço foi expandido para a Região Metropolitana e, posteriormente, para as regiões Central e Norte, até alcançar os 78 municípios capixabas.
Hoje, o Espírito Santo conta com 93 salas de teleconsulta distribuídas pelas quatro regiões de saúde. A Região Metropolitana concentra o maior número de atendimentos, com 67.076 consultas realizadas. Na sequência aparecem a Região Norte, com 34.579, a Central, com 11.932, e a Sul, com 11.588 atendimentos.
As especialidades ofertadas variam conforme a demanda de cada região. Na Metropolitana, por exemplo, são disponibilizadas 13 especialidades médicas, com maior procura por psiquiatria, endocrinologia e neurologia.
Já no Norte, destacam-se otorrinolaringologia, neurologia e proctologia. Na Região Central, as maiores demandas são por neurologia, otorrinolaringologia e cardiologia, enquanto no Sul predominam neurologia, ortopedia e urologia.
Atendimento não é feito em casa
Apesar de muitas pessoas associarem a telemedicina a consultas realizadas pelo celular ou computador dentro de casa, o modelo adotado pelo SUS estadual funciona de maneira diferente.
As consultas acontecem em salas instaladas nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou em centros municipais de especialidades. Durante todo o atendimento, o paciente permanece acompanhado presencialmente por um enfermeiro ou técnico de enfermagem, enquanto o médico especialista realiza a consulta de forma remota.
O encaminhamento segue o mesmo fluxo das consultas presenciais. Após passar pela rede pública de saúde, o paciente é inserido no sistema estadual de regulação. Quando a vaga é disponibilizada, a equipe da unidade de saúde informa a data e o horário da consulta e o usuário também recebe notificações pelo celular.
Na prática, o Estado é responsável por credenciar clínicas, disponibilizar vagas e fazer a regulação dos atendimentos, enquanto os municípios oferecem a estrutura física das salas de teleconsulta e prestam apoio ao paciente durante toda a consulta.
Tecnologia busca ampliar capacidade da rede
Segundo o governador em exercício, Ricardo Ferraço, o objetivo da estratégia é reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias eletivas, combinando investimentos em tecnologia com a ampliação da estrutura da rede pública.
Nossa meta é reduzir a fila para exames e consultas. A telemedicina, que hoje está presente em todo o Espírito Santo, tem nos ajudado muito. Em 2019, realizávamos cerca de 48 mil consultas e exames. Em 2025, encerramos o ano com 694 mil atendimentos. O mesmo aconteceu com as cirurgias eletivas, que passaram de 55 mil para 174 mil procedimentos.
Ricardo Ferraço, governador do Espírito Santo
Além das teleconsultas, o governador destacou a construção de novas unidades de saúde, hospitais e a ampliação de contratos com hospitais filantrópicos como parte da estratégia para aumentar a capacidade de atendimento do SUS.
A gente já avançou, mas queremos acelerar ainda mais, ampliando as salas de teleconsulta e fortalecendo a atenção básica. Estamos construindo 108 unidades básicas de saúde em diversos municípios porque queremos cuidar mais da saúde preventiva. Nossa meta continua sendo reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias.”
Ricardo Ferraço, governador do Espírito Santo
Ferraço também ressaltou que o Espírito Santo é o único estado brasileiro que oferece teleconsultas em todos os municípios. “É uma telemedicina realizada dentro das unidades de saúde, com médico, enfermeiro e toda a estrutura necessária para garantir segurança ao paciente. Essa é uma marca da saúde capixaba e vamos continuar ampliando esse serviço.”
A espera ainda faz parte da realidade de muitas famílias
Enquanto o Estado amplia a oferta de teleconsultas, milhares de pacientes ainda aguardam por especialistas. Entre eles está o estudante José Evandro, que espera há dois anos por uma consulta com um neuropediatra.
A mãe dele, Sirlene Rosa do Nascimento, conta que a avaliação médica é fundamental para investigar uma possível condição que tem impactado diretamente o desempenho escolar do filho.
Segundo ela, o menino apresenta dificuldades de concentração, de aprendizagem e de registrar no papel conteúdos que consegue resolver mentalmente.
Já são dois anos aguardando uma consulta com neuropediatra. A escola relata dificuldades de aprendizagem e eu também percebo isso em casa. A gente vai à unidade de saúde, acompanha pelo sistema, mas a informação continua sendo apenas que a consulta está aguardando agendamento.
Sirlene Rosa do Nascimento, cuidadora infantil
Sem condições financeiras para custear uma consulta particular, que pode ultrapassar R$ 800, ela afirma viver a angústia da espera. “A gente sabe que é um direito, mas não consegue ter acesso. Eu espero que não só meu filho, mas todas as pessoas que aguardam consigam essas consultas, porque quem está esperando realmente precisa.”
Os números mostram que as teleconsultas vêm ampliando a oferta de atendimentos especializados no Espírito Santo e facilitando o acesso de pacientes em todas as regiões do Estado. Ao mesmo tempo, a elevada demanda por algumas especialidades evidencia que reduzir as filas continua sendo um dos principais desafios da saúde pública.
Nesse contexto, o programa de teleconsultas passa a integrar um conjunto de ações adotadas pelo Governo do Estado para ampliar a capacidade de atendimento do SUS, aproximar especialistas dos municípios e reduzir o tempo de espera dos pacientes, especialmente em áreas onde a oferta de profissionais ainda é limitada.
Folha Vitória