Fábrica da GWM em Aracruz: foco no mercado doméstico, possibilidade de exportar para latinos e olho atento sobre Europa. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória
A pedra fundamental da fábrica da GWM em Barra do Riacho, Aracruz, marca mais do que o início de um projeto industrial. Ela coloca o Espírito Santo dentro de uma disputa global por produção, tecnologia e mercado. Ricardo Bastos, diretor de assuntos institucionais da GWM Brasil, pensa muito além das Américas. E explica. Para ele, a fábrica nasce para atender o Brasil, mira Argentina, Chile, México e toda a América Latina. Porém a novidade é a Europa nessa lista.
A GWM já considera a possibilidade de exportar a partir do Espírito Santo para a Europa. E, com esse foco, acompanha de perto o acordo entre União Europeia e Mercosul, assinado recentemente. Nesse desenho, a localização tem peso definitivo. A fábrica ficará a cerca de 500 metros do porto. Para uma montadora que pensa em mercado externo, esse detalhe muda a conta da competitividade.
O Espírito Santo venceu a disputa para ter a fábrica da marca chinesa porque entregou logística, previsibilidade e articulação política. Ricardo Bastos lembrou que o Estado já era parceiro da GWM na importação de veículos e que a empresa conhecia o profissionalismo da operação capixaba. Méritos para a Vports que opera o complexo portuário de Vitória. E, mais recentemente, para Portocel, que importou uma carga grande para a GWM.
A ida de representantes do governo capixaba à China em 2024 também entrou na equação. Na prática, o Estado mostrou que queria o investimento e que sabia como recebê-lo.
Investimento e ímã de mais empresas
A operação deve começar no início de 2029, embora a própria GWM admita que o cronograma pode acelerar caso as licenças e as etapas preparatórias avancem bem. A empresa ainda revisa os números finais do investimento, mas mantém como referência o pacote de R$ 10 bilhões anunciado em 2022 para todo Brasil.
O projeto cresceu desde então. Agora, ele inclui não apenas a montadora, mas também fornecedores, tecnologia, automação, estamparia, pintura, soldagem, controle de qualidade e mão de obra qualificada.
Esse é o ponto de mudança. Uma fábrica de carros puxa fornecedores, prestadores de serviço, empresas de tecnologia, logística, manutenção, engenharia, energia, formação profissional e comércio exterior. Por isso, a GWM pode virar um ímã para outras empresas do setor automotivo e também para companhias de outros segmentos que olham para o Espírito Santo como plataforma de produção e exportação.
Patrícia Gouvêa, presidente da NOVA ES, resumiu bem esse novo momento ao afirmar que, depois do anúncio da GWM, o Espírito Santo entrou no radar do setor. Segundo ela, já existem conversas com outras montadoras e fornecedores em diferentes níveis de maturidade.
A pedra fundamental, portanto, não simboliza apenas uma fábrica. Ela abre um ciclo. Se o Estado souber transformar esse projeto em crescimento de cadeia produtiva, Aracruz pode deixar de ser apenas endereço de um grande investimento. Pode passar a ser o centro de uma nova fronteira industrial capixaba.
Fonte: Folha Vitoria