Área da GWM em Aracruz delimitada e mais indústrias e portos: cidade aparece com a configuração ideal para testar alternativas para impulsionar as atividades comerciais. Crédito: Divulgação
Aracruz é hoje o melhor lugar do Espírito Santo para testar uma ideia que a China já usa com escala e resultado. Transformar cidades estratégicas em laboratórios de facilitação de comércio. O município tem Portocel, celulose, Imetame (porto e indústria), estaleiro, cargas industriais, veículos importados, futura fábrica da GWM, Parklog, área disponível e conexão direta com a nova fronteira produtiva do Estado. Ou seja, Aracruz reúne aquilo que uma cidade-piloto precisa ter: cadeia produtiva, porto, empresa, território, demanda real e problema concreto para resolver. No entanto, esta coluna não é apenas sobre Aracruz.
Cidade-piloto de facilitação de comércio é, em linguagem simples, um programa de Estado da China que escolhe uma cidade para testar novas formas de comércio exterior. São novas formas de exportar, importar, liberar carga, integrar sistemas, reduzir documentos, usar tecnologia, melhorar fiscalização e cortar custo logístico.
A lógica não é liberar geral. É regular melhor. A cidade vira um campo de prova. Receita, alfândega, porto, aeroporto, prefeitura, governo estadual, operadores logísticos, bancos, seguradoras, empresas e entidades sentam à mesma mesa. Do mesmo modo, escolhem gargalos e testam soluções. Se funciona, a regra ganha escala. Se não funciona, o erro fica limitado ao teste.
A China fez isso em 2025 com 25 cidades. Entre abril e setembro, testou 29 medidas de facilitação de comércio. Depois, avaliou os resultados e decidiu replicar 25 medidas em todo o país. Desde 2018, o programa chinês já acumulou 144 medidas e levou 110 delas para aplicação nacional. A mensagem? Não precisa saber mandarim para aprender. Comércio exterior não melhora apenas com obra, porto ou incentivo fiscal. Processo, dados, coordenação e velocidade fazem muita diferença.
Os números ajudam a entender a força do modelo. O comércio exterior chinês chegou a 45,47 trilhões de yuans (R$ 34,58 trilhões) em 2025, com alta de 3,8%. As exportações de produtos de alta tecnologia somaram 5,25 trilhões de yuans (R$ 3,99 trilhões), crescimento de 13,2%.
Em Guangzhou, o comércio exterior passou de 1,2 trilhão de yuans (R$ 912,67 bilhões), avanço de 10,4%, e o e-commerce através das fronteiras superou 200 bilhões de yuans (R$ 152,11 bilhões), alta de 19,2%.
Em Ningbo, a inteligência artificial elevou a eficiência de liberação em 30%, reduziu a leitura inteligente de imagens para 12 segundos, encurtou inspeções para até quatro minutos e cortou mais de 15 horas em operações com minério de ferro e concentrado de cobre.
Em Pequim, o modelo de “lista branca” para pescados frescos importados fez a fiscalização alcançar 7,4 bilhões de yuans (R$ 5,63 bilhões) e 10.787,9 toneladas, altas de 104,6% e 155,3%. Além disso, mais de 3.200 empresas AEO tiveram acesso facilitado a crédito, garantia e seguro de exportação.
Preferência a parceiros estratégicos
Empresas AEO (sigla em inglês para Authorized Economic Operator, ou Operador Econômico Autorizado) são negócios do setor de comércio exterior reconhecidos pela aduana de seus países como parceiros estratégicos, seguros e de baixo risco. Ou seja, empresas com autodeclaração regular tiveram redução de 20,961 milhões de yuans (R$ 15,94 milhões) em encargos. Bem como 98% das empresas aprovaram a experiência.
Todos os dados são oficiais, da Administração Geral das Alfândegas da China, órgão oficial chinês.
No Espírito Santo, Aracruz deveria ser a primeira cidade-piloto. A cidade pode testar um corredor de facilitação para veículos, celulose, rochas, insumos industriais, cargas especiais e, mais à frente, componentes automotivos ligados à GWM.
O foco precisa ser prático: reduzir tempo de liberação, antecipar análise documental, integrar porto e Receita, acelerar trânsito aduaneiro, criar tratamento diferenciado para empresas confiáveis, usar dados em tempo real. E depois de tudo isso, medir cada ganho. É preciso responder: quanto tempo uma carga leva hoje e quanto tempo ela poderia levar com sistema, confiança, tecnologia e coordenação? No comércio moderno, tempo é dinheiro.
Missões de comércio exterior
Vitória entraria como cidade-piloto da inteligência de comércio exterior. A capital concentra serviços aduaneiros, empresas, despachantes, bancos, seguros, consultorias, aeroporto, porto, órgãos públicos e tomada de decisão.
Vila Velha entraria pela força do complexo portuário, da armazenagem, da distribuição, da importação e da economia urbana ligada ao comércio.
Serra entraria pela indústria, centros de distribuição, logística rodoviária, BR-101, atacado, e-commerce e mão de obra que sustenta boa parte da operação metropolitana.
Cada cidade teria uma missão. Nesse sentido, Aracruz testaria a nova fronteira industrial e portuária. Vitória testaria governança e serviços. Vila Velha testaria fluxo urbano portuário. Serra testaria indústria, distribuição e escala.
Recomex como ponto de partida
O mais importante é que o Espírito Santo não parte do zero. O Recomex já colocou em curso uma iniciativa de estudo e articulação para preparar o Estado para o comércio exterior do futuro, em especial diante da reforma tributária e do fim do modelo atual de incentivos.
O e-Trânsito também já funciona como uma inovação concreta. A plataforma nasceu no Espírito Santo, com Receita Federal, Ifes bem como setor produtivo, para digitalizar e monitorar o trânsito aduaneiro de cargas. Nesse sentido, usando rastreamento, georreferenciamento e gestão de risco. É exatamente esse tipo de solução que faz uma cidade-piloto deixar de ser discurso e virar ganho operacional.
Se o Espírito Santo organizar esse modelo, pode entregar uma experiência de comércio exterior melhor para quem produz, importa, exporta, transporta e investe. A empresa teria menos incerteza. O porto teria mais previsibilidade. A Receita teria mais informação. O Estado teria mais competitividade. O Brasil teria um caso concreto para replicar.
A China mostrou que facilitação de comércio não é uma questão secundária ou um adereço. Ou seja, é política de desenvolvimento. Para o Espírito Santo, a oportunidade é real e o cavalo passa arreado: transformar localização em inteligência, porto em velocidade e cidade em vantagem competitiva.
Fonte: Folha Vitoria