(Foto: ChatGPT)
Durante muito tempo, os exercícios para pernas foram associados principalmente a objetivos estéticos. Coxas definidas, glúteos fortalecidos e melhor composição corporal costumam estar entre os motivos que levam muitas pessoas a incluir agachamentos, leg press e outros movimentos na rotina de treinos. No entanto, pesquisas recentes e especialistas em saúde têm chamado atenção para benefícios que vão muito além da aparência física.
Entre eles está a possível relação entre a manutenção da massa muscular e a proteção da saúde cerebral ao longo da vida. A médica Bruna Sartori destacou esse tema em um vídeo publicado nas redes sociais ao explicar como a musculação, especialmente os exercícios voltados para a musculatura das pernas, pode contribuir para um envelhecimento mais saudável.
Segundo a especialista, a importância do treinamento de membros inferiores não está apenas na mobilidade ou na força física. Ela afirma que a musculação pode desempenhar papel relevante na prevenção de problemas metabólicos que também estão associados ao funcionamento do cérebro.
Se eu pudesse te convencer a treinar perna por um único motivo, ele não seria estética, seria para diminuir o seu risco de demência, afirmou Bruna Sartori.
A declaração chamou atenção justamente por relacionar uma prática comum das academias a um dos maiores desafios da saúde pública mundial: as doenças neurodegenerativas.
A IMPORTÂNCIA DA MASSA MUSCULAR PARA O ORGANISMO
Os músculos exercem funções muito mais amplas do que simplesmente permitir movimentos.
Além de contribuir para equilíbrio, força e sustentação do corpo, eles participam ativamente do metabolismo energético.
A massa muscular funciona como um importante reservatório para a utilização da glicose circulante no sangue. Quanto maior a eficiência desse processo, menores tendem a ser os riscos relacionados à resistência à insulina.
Essa condição ocorre quando as células passam a responder de maneira menos eficiente à ação desse hormônio, obrigando o organismo a produzir quantidades cada vez maiores para controlar os níveis de açúcar no sangue.
Com o passar dos anos, a resistência à insulina pode favorecer o surgimento de doenças metabólicas, cardiovasculares e diversas complicações de saúde.
POR QUE O QUADRÍCEPS RECEBE TANTA ATENÇÃO
Entre todos os grupos musculares do corpo, a musculatura das pernas está entre as maiores e mais importantes.
O quadríceps, localizado na parte frontal da coxa, é um dos músculos mais volumosos do organismo humano.
Bruna Sartori destaca justamente essa característica ao explicar sua relevância para a saúde metabólica.
“O quadríceps, que é a nossa musculatura da coxa, ele é um dos tecidos do corpo que mais responde à insulina”, explicou.
Segundo a médica, isso acontece porque os músculos possuem grande quantidade de receptores responsáveis por captar a glicose transportada pela insulina.
“E o que isso significa? Quando você come açúcar, quando você come carboidrato, a insulina no seu sangue, ela sobe e ela funciona como um porteiro. Ela pega essa glicose e coloca para dentro das suas células”, afirmou.
Dessa forma, músculos ativos e preservados ajudam o organismo a utilizar melhor a glicose disponível na circulação.
A RELAÇÃO ENTRE INSULINA E SAÚDE CEREBRAL
Nas últimas décadas, diversos estudos passaram a investigar a conexão entre alterações metabólicas e doenças cognitivas.
Embora o Alzheimer seja uma condição complexa e multifatorial, pesquisadores observam que problemas relacionados ao metabolismo da glicose podem influenciar o funcionamento cerebral.
Por esse motivo, alguns estudos passaram a utilizar o termo “diabetes tipo 3” para descrever determinadas alterações metabólicas observadas em pacientes com Alzheimer.
A expressão não representa uma classificação oficial da doença, mas reflete o interesse crescente da comunidade científica em compreender como a resistência à insulina pode impactar o cérebro.
Bruna Sartori comentou esse aspecto ao abordar a importância da musculação para a saúde cognitiva.
“Hoje muitos pesquisadores já falam que o Alzheimer é um tipo de diabetes tipo 3, por conta dos problemas e das consequências que o aumento no açúcar no seu sangue pode trazer para todo o seu sistema cerebral”, disse.
MENOS INFLAMAÇÃO, MAIS PROTEÇÃO
Outro ponto frequentemente citado por especialistas é a relação entre massa muscular e inflamação crônica.
Quando o organismo apresenta excesso de gordura corporal, sedentarismo e resistência à insulina, diversos marcadores inflamatórios tendem a aumentar.
A inflamação persistente está associada a diferentes doenças crônicas, incluindo problemas cardiovasculares e algumas condições neurológicas.
Segundo Bruna Sartori, pessoas com maior quantidade de massa muscular costumam apresentar vantagens importantes nesse contexto.
“Por isso, pessoas com mais massa muscular tendem a ter menos resistência à insulina, menos inflamação, menos risco de doenças metabólicas, cardiovasculares e cognitivas”, afirmou.
O IMPACTO DO TREINAMENTO NO ENVELHECIMENTO
A perda de massa muscular faz parte do processo natural de envelhecimento.
A partir dos 30 anos, o organismo começa gradualmente a reduzir a quantidade de tecido muscular, processo que pode se acelerar após os 60 anos.
Quando não há estímulo adequado por meio de exercícios físicos e alimentação equilibrada, essa redução pode comprometer mobilidade, equilíbrio e independência funcional.
Nesse cenário, a musculação surge como uma das principais estratégias para preservar força e qualidade de vida.
Treinar pernas, especificamente, ajuda a manter a capacidade de caminhar, subir escadas, levantar-se de cadeiras e realizar tarefas cotidianas com autonomia.
Mas os benefícios não se limitam à mobilidade.
“Então treinar pernas não é só sobre o seu corpo, não é só sobre ter forças para levantar do vaso sanitário, para conseguir subir ou descer uma escada”, destacou a médica.
EXERCÍCIOS QUE PODEM SER FEITOS EM CASA
Embora academias ofereçam equipamentos específicos para fortalecimento muscular, diversas atividades podem ser realizadas em casa utilizando apenas o peso corporal.
Agachamentos estão entre os exercícios mais conhecidos para estimular o quadríceps e outros músculos das pernas.
Sentar e levantar de uma cadeira de forma controlada também funciona como uma alternativa simples para iniciantes e idosos.
Elevações de panturrilha, avanços e exercícios de equilíbrio complementam o trabalho muscular sem necessidade de equipamentos sofisticados.
O mais importante é respeitar as condições físicas individuais e buscar orientação profissional sempre que possível.
UMA ESTRATÉGIA ACESSÍVEL PARA A SAÚDE
Entre os aspectos mais positivos da musculação está o fato de que ela pode ser adaptada a diferentes realidades financeiras.
Muitos exercícios utilizam apenas o peso do próprio corpo e podem ser realizados em espaços pequenos.
Além disso, caminhadas associadas a movimentos de fortalecimento representam uma alternativa econômica para quem deseja iniciar uma rotina de atividade física.
Pequenas mudanças de hábito ao longo dos anos podem resultar em benefícios significativos para a saúde metabólica e funcional.
PROTEGER O CORPO E O CÉREBRO
A relação entre músculos e cérebro continua sendo alvo de pesquisas em diversas partes do mundo. Embora não exista uma fórmula única para prevenir doenças neurodegenerativas, especialistas concordam que hábitos saudáveis desempenham papel fundamental na preservação da saúde ao longo da vida.
Praticar atividade física regularmente, manter alimentação equilibrada, controlar fatores de risco metabólicos e preservar a massa muscular estão entre as medidas mais frequentemente associadas ao envelhecimento saudável.
Como resume Bruna Sartori, os benefícios de uma coxa forte vão muito além da aparência física.
“É também sobre proteger o seu cérebro, te dar independência cognitiva, não só corporal, proteger a sua velhice. Ter uma coxa forte não é só sobre estética, é saúde a longo prazo.”
Fonte: Folha Vitória