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Todos os dias, recebo em consultório pacientes preocupados com o colesterol, a glicemia ou o excesso de peso. Porém, existe um diagnóstico que costuma surpreender muita gente: a gordura no fígado.
Na maioria dos casos, se descobre a condição durante um exame de ultrassom solicitado por outro motivo. É comum ouvir frases como: “Mas eu não sinto nada” ou “Achei que isso só acontecia com quem bebe muito”. A verdade é que a gordura no fígado se tornou uma das doenças metabólicas que mais crescem no mundo e, justamente por evoluir de forma silenciosa, merece cada vez mais atenção.
Como ocorre o acúmulo de gordura no fígado
O acúmulo de gordura no fígado pode ocorrer mesmo em pessoas que não consomem bebidas alcoólicas em excesso. Na maior parte dos casos, ele está relacionado ao excesso de peso, à obesidade, ao diabetes tipo 2, ao pré-diabetes, à resistência à insulina, aos níveis elevados de colesterol e triglicerídeos e ao sedentarismo. Em outras palavras, ele faz parte de um conjunto de alterações metabólicas que costumam caminhar juntas.
O problema é que, nas fases iniciais, a doença raramente provoca sintomas. Isso faz com que muitas pessoas convivam durante anos com o quadro sem saber. Enquanto isso, o fígado pode sofrer um processo inflamatório que, em alguns pacientes, evolui para fibrose, cirrose e aumenta o risco de câncer hepático.
É importante destacar que nem toda pessoa com gordura no fígado desenvolverá essas complicações. Felizmente, a maioria não chega a esse estágio. Ainda assim, identificar a doença precocemente faz toda a diferença, porque permite interromper sua progressão antes que ocorram danos permanentes.
Quando a doença progride e o fígado fica inflamado ou aumentado, podem surgir os seguintes 8 sinais de alerta:
Cansaço excessivo e sensação constante de fraqueza.
Dor ou desconforto no lado superior direito do abdômen (abaixo das costelas).
Inchaço abdominal ou sensação de barriga pesada.
Náuseas e enjoos frequentes.
Coceira na pele pelo corpo todo.
Icterícia, caracterizada por pele e olhos amarelados.
Dor de cabeça constante e sem causa aparente.
Outro ponto que costumo explicar aos meus pacientes é que a gordura no fígado não é um problema isolado. Ela também funciona como um importante sinal de alerta para a saúde cardiovascular. Pessoas com esse diagnóstico frequentemente apresentam maior risco de desenvolver diabetes, hipertensão e doenças do coração. Por isso, olhar apenas para o fígado não basta: é preciso cuidar da saúde como um todo.
Tratamento baseado em mudanças de hábitos
Muitas pessoas perguntam se existe um remédio capaz de eliminar a gordura no fígado. A resposta depende de cada caso. Hoje, ainda não existe uma medicação única indicada para todos os pacientes. O tratamento começa com mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, perda de peso quando necessária e controle adequado das doenças associadas, como diabetes e alterações do colesterol.
Mesmo uma redução moderada do peso corporal já pode trazer benefícios importantes para o fígado. Não estamos falando de transformações radicais, mas de mudanças consistentes e sustentáveis, construídas ao longo do tempo.
Também gosto de reforçar que emagrecer não deve ser o único objetivo. Ganhar qualidade de vida, preservar a função do fígado e reduzir o risco de outras doenças metabólicas são conquistas igualmente importantes.
Vivemos um momento em que a obesidade e o sedentarismo cresceram de forma significativa, tornando a gordura no fígado um problema cada vez mais frequente. Ao mesmo tempo, temos uma boa notícia: quando diagnosticada precocemente, a doença pode ser controlada e, em muitos casos, até revertida.
Por isso, deixo um convite aos leitores: não espere sentir sintomas para cuidar da sua saúde. Faça seus exames de rotina, converse com seu médico e encare um diagnóstico de gordura no fígado como uma oportunidade de mudar hábitos e proteger o seu organismo.
A saúde do fígado começa muito antes de qualquer dor aparecer. E, muitas vezes, as pequenas escolhas feitas hoje são as que fazem a maior diferença no futuro.
Fonte: Folha Vitória