Duas mulheres sentadas, desarmadas, assassinadas por um cabo da Polícia Militar (PM), em Cariacica. Uma comandante da Guarda Civil Municipal (GCM) de Vitória morta dentro de casa pelo ex-namorado, um policial rodoviário federal (PRF). Um empresário executado durante uma confraternização familiar por um soldado da PM, na capital.
Casos recentes no Espírito Santo reacendem um debate urgente: o poder letal das armas nas mãos de agentes de segurança e os limites entre o dever profissional e decisões pessoais que terminam em tragédia.
Conflitos interpessoais e feminicídio estão entre as principais motivações desses crimes, que envolvem justamente profissionais treinados para proteger a vida.
Na quarta-feira (8), o casal Francisca Chaguiana Dias Viana e Daniele Toneto Rocha foi assassinado no bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica. O autor é um cabo da PM. Segundo informações, o crime teria sido motivado por um desentendimento entre as vítimas e a ex-companheira do suspeito. No momento dos disparos, as duas estavam desarmadas.
Outro caso que chocou o estado foi o feminicídio da comandante da GCM de Vitória, Dayse Barbosa, morta no dia 23 de março. O autor, o policial rodoviário federal Diego Oliveira, invadiu a residência da vítima enquanto ela dormia e efetuou cinco disparos.
Em novembro do ano passado, o empresário Fernando Silva, de 32 anos, também foi morto diante de familiares e amigos. Testemunhas afirmam que ele foi baleado por um soldado aluno da PM, que teria interpretado a presença de uma arma como ameaça — posteriormente identificada como falsa.
Uso da força e cultura da violência
Diante desse cenário, surge a pergunta: o que leva alguém a decidir
sobre a vida ou a morte de outra pessoa?
Para entender o fenômeno, o ES HOJE ouviu o doutorando em Ciências Sociais e pesquisador de cultura policial e segurança pública, Rusley H. Medeiros Miorim.
Segundo ele, a escalada da violência está ligada a fatores sociais e culturais profundamente enraizados no país.
“Há uma cultura do uso da força como solução de conflitos no Brasil. Isso aparece em linchamentos, discursos de ódio nas redes sociais e até em situações cotidianas que terminam em agressões ou mortes. Trata-se de uma violência cultural, em que muitos ainda acreditam que tudo se resolve ‘na porrada’”, afirma.
O pesquisador ressalta que a arma de fogo ganha destaque nesse debate, mas não deve ser vista como causa isolada.
“A arma não atira sozinha. Ela é um instrumento. O foco precisa estar em quem a utiliza e nas condições em que essa pessoa está inserida”, pontua.
Impulsividade e letalidade
Miorim destaca que o problema vai além do acesso à arma e envolve comportamento e preparo emocional.
“O indivíduo armado, sem o devido preparo, pode se sentir mais poderoso. Somado a uma cultura violenta, isso pode levar à ideia de que atirar é uma solução. A arma potencializa tanto a defesa quanto o ataque, mas também aumenta significativamente a letalidade”, explica.
Ele acrescenta que a impulsividade pode gerar consequências graves, independentemente do tipo de arma.
“A diferença é que a arma de fogo tende a ser mais letal, o que eleva o risco de desfechos fatais”, diz.
Decisões em segundos
Outro ponto crítico é o tempo de reação dos agentes de segurança. Segundo o especialista, decisões são tomadas em segundos — muitas vezes entre um e 20 segundos.
“Nesse intervalo, o policial precisa agir com base em princípios como legalidade, necessidade e proporcionalidade. O uso da força deve ser sempre o último recurso e voltado à proteção, nunca ao ataque”, afirma.
Ele alerta que o problema se agrava quando há desvio de conduta.
“O grande risco surge quando ocorre a inversão de papéis: quando o policial deixa de agir como agente da lei e passa a agir como criminoso. Nesse caso, não há justificativa legal.”
Crimes motivados por conflitos pessoais
No caso do duplo homicídio em Cariacica, o pesquisador aponta a existência de uma “crise relacional”.
“São crimes emocionais, marcados por histórico de conflitos. A ideia de ‘resolver na bala’ surge como uma resposta distorcida, baseada em vingança. Isso é inadmissível, sobretudo para quem tem a função de proteger”, destaca.
Ele reforça que o uso da arma por policiais deve ocorrer exclusivamente em situações extremas.
“Atirar só pode ser considerado quando não há outra alternativa para preservar vidas.”
Preparo policial e responsabilidade
Para Miorim, policiais estão inseridos na mesma cultura que influencia toda a sociedade, mas precisam de um nível de preparo ainda maior.
“Não basta treinamento técnico. É essencial investir em formação ética e emocional. O policial atua em nome do Estado e não pode tomar decisões baseadas em impulsos ou pressões sociais”, afirma.
Ele também chama atenção para a necessidade de inteligência emocional no exercício da função.
“Não é admissível usar a estrutura policial para resolver conflitos pessoais. Isso compromete a credibilidade de toda a instituição.”
Acompanhamento psicológico e falha sistêmica
Outro ponto crítico é a falta de acompanhamento contínuo dos agentes.
“Profissionais da segurança precisam de suporte psicológico. O medo de estigmatização faz com que muitos escondam problemas emocionais. Isso é uma falha sistêmica que coloca em risco toda a sociedade”, alerta.
Mudança cultural urgente
Por fim, o pesquisador defende que o enfrentamento da violência exige uma transformação cultural ampla.
“É preciso priorizar a vida, incentivar formas pacíficas de resolução de conflitos e responsabilizar desvios de conduta. A mudança não depende apenas das polícias, mas de toda a sociedade — da educação às instituições.”
Ele conclui com um alerta:
“Não existe sociedade sem violência, mas ela não pode ser a resposta padrão. O caminho está no respeito à vida e na construção de relações mais equilibradas.”
ES HOJE