O mercado de café entrou em uma fase que exige mudança de mentalidade no campo. Depois de um período de preços excepcionais, o novo ciclo não será de supervalorização. E o produtor que insistir em esperar novas máximas pode comprometer o resultado. A leitura é do presidente do Conselho dos Exportadores do Café do Brasil (Cecafé), Márcio Cândido Ferreira, durante o Agro Business nesta quinta (9) em Linhares. O evento é da Rede Vitória em parceria com a Apex. Nesse sentido, Márcio coloca o custo de produção no centro da decisão do produtor. “Se você conhece o seu custo e o mercado te paga acima disso, coloque o lucro no bolso. O erro é esperar mais”, afirmou.
Para ele, o cenário atual não sustenta a repetição dos picos recentes. No ano passado a saca de café conilon chegou a R$ 1,9 mil. Hoje, fica em torno de R$ 800. A combinação de aumento de oferta global, entrada da safra brasileira e mudança no comportamento dos fundos financeiros indica um mercado mais pressionado. “O mercado esticou demais. E tudo que estica, volta”, disse. Em outras palavras, a lógica agora é defensiva: proteger margem, não perseguir preço.
Esse movimento ganha ainda mais relevância diante de um fator adicional: o câmbio. A escalada das tensões no Oriente Médio, com a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, trouxe volatilidade global. Porém, no caso brasileiro, o efeito recente tem sido de desvalorização do dólar frente ao real. Para o produtor, isso significa uma dupla compressão: preço internacional sob pressão e conversão cambial menos favorável.
Margem espremida para o café
É nesse ponto que a visão do diretor de Novos Negócios da Apex, Tiago Pessotti, reforça o alerta. “O produtor recebe menos em dólar pela saca e ainda tem incerteza de quanto isso vai valer em reais”, explicou. Segundo ele, a combinação de queda na cotação com câmbio desfavorável funciona como uma “faca” sobre as margens.
Ao mesmo tempo, os custos seguem pressionados. A cadeia do café é altamente dependente de insumos importados e logística global. Ou seja, ambos impactados por conflitos internacionais. “O café depende de energia, fertilizantes e transporte global. Tudo isso é afetado”.
Custo alto, mas inevitável
Para o presidente do Centro do Comércio do Café de Vitória, Fabrício Tristão, o cenário é de volatilidade estrutural. “Hoje a realidade é incerteza. Qualquer evento global impacta diretamente o café”, afirmou. Isso vale tanto para fretes quanto para insumos, especialmente fertilizantes, que tendem a subir com o petróleo.
Ainda assim, ele fez um alerta estratégico: cortar custo de forma errada pode agravar o problema. “Reduzir nutrição compromete produtividade. E a perda é maior do que a economia”, disse. Ou seja, o produtor precisa ser seletivo. Ajustar eficiência, mas sem sacrificar a base produtiva.
Folha Vitoria