Ana Carolina Kurth foi assassinada em maio de 2023. Foto: Reprodução/Redes sociais
A maioria dos feminicídios no Espírito Santo é cometida por maridos, companheiros e namorados das vítimas. Dados da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) mostram que 51% dos autores são maridos; 24%, companheiros com quem a vítima apenas morava; 9%, namorados; e 15%, ex-parceiros que, em geral, não aceitam o fim do relacionamento.
Em 2023, 35 mulheres foram assassinadas por motivos de gênero no Estado. Segundo o levantamento, a maioria das vítimas era parda, tinha mais de 30 anos, morava na Região Metropolitana e foi morta com arma branca.
No ano seguinte, 2024, 41 mulheres foram vítimas de feminicídio no Espírito Santo. Já em 2025, esse número foi de 34 vítimas.
Jovem foi assassinada com 47 facadas
Entre os casos registrados em 2023 está o de Ana Carolina Kurth, de 24 anos, morta com 47 facadas dentro do apartamento onde morava.
O acusado é o namorado, Matheus Stein Pinheiro, estudante de Direito e estagiário da Defensoria Pública. O relacionamento tinha cerca de quatro meses. A Justiça já decidiu que Matheus vai a júri popular pelo assassinato. Ele está preso.
As irmãs de Ana Carolina, Letícia Kurth e Paola Rocha, conversaram com a reportagem da TV Vitória/Record e contaram que o assassinato foi precedido por sinais considerados sutis, comuns ao ciclo da violência doméstica, que costuma começar com ameaças, ofensas e controle excessivo, evoluindo para agressões físicas.
A síndica do prédio onde Ana Carolina vivia com Matheus relatou que já havia histórico de violência. Vizinhos teriam acionado a polícia quatro vezes, informação confirmada posteriormente por registro no sistema da Polícia Civil, segundo a família.
Em todas as ocasiões, a vítima teria negado as agressões.
A síndica falou que já havia uma situação de violência, que Ana Carolina apanhava dele e que os vizinhos já tinham feito denúncias por quatro vezes. Quando a polícia comparecia ao apartamento, ela atendia junto com ele e falava que não era nada, que não tinha acontecido nada. No dia que aconteceu (o assassinato), ninguém chamou, porque acharam que… Ela pediu socorro, ela gritou, pediu socorro, só que ninguém chamou.”
Paola Rocha, irmã de Ana Carolina.
Em meio ao luto, a família de Ana Carolina afirma que transformar a dor em alerta é uma forma de preservar a memória da jovem e conscientizar outras mulheres sobre os riscos e a importância de buscar ajuda.
“Tenho certeza de que a Carol iria querer que a gente continuasse, tentasse ser feliz e vivesse os momentos que estão aí para ser vividos. A gente vê o sofrimento muito escancarado na nossa mãe. Ela fica tentando o tempo todo ser feliz, fazendo aquele esforço para continuar, porque quando aconteceu, ela falava que não queria viver mais. Quando as pessoas chamam a gente para dar entrevista, eu falo para a minhairmã: ‘Vamos’. Porque a gente pode tirar dessa tragédia que aconteceu com a gente algo bom, que é alertar”, declarou Paola.
Professora explica ciclo da violência
Após os episódios de violência, é frequente que o agressor peça perdão, instaurando um período de aparente tranquilidade antes de nova fase de tensão, segundo a professora universitária Catarina Cecin Gazele.
“A mulher às vezes fica com medo de ir à delegacia. E aí ela não sai do ciclo da violência por quê? Ou ela depende emocionalmente ou financeiramente desse homem, ou é dos dois lados. E ela fica patinando entre tensão, explosão, depois ele pede perdão, aí volta para a lua de mel com ele. Daqui a pouco está tenso, daqui a pouco explode, aí ele pede perdão, ela volta. Por que ela volta? Ela volta devido a essas dependências”, detalha a especialista.
Fonte: Folha Vitória