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“Nunca vai acabar”, diz irmã de Araceli após saber da morte de um dos investigados

Raquel ainda não era nascida na época em que a irmã foi assassinada, mas conviveu por toda a vida com sua presença

Por Redação em 05/02/2026 às 20:30:06
Reprodução/TV Vitória

Reprodução/TV Vitória

Existem dores que nos atingem antes mesmo de nascermos. Muitas vezes, o sofrimento está em um núcleo familiar, em uma casa, nas paredes que lembram uma perda. No caso de outras pessoas, a lembrança de uma tristeza aparece no sobrenome.

Este é o caso de Raquel Onório Crespo. O sobrenome pode não chamar atenção logo à primeira vista, mas é dividido com a irmã mais velha, Araceli Cabrera Sánchez Crespo, que morreu aos 8 anos, em 1973, vítima de um crime bárbaro que chocou o Espírito Santo e o Brasil.

Raquel ainda não era nascida na época em que a irmã foi assassinada, mas conviveu por toda a vida com sua presença, fosse em noticiários, fosse ao ver o semblante do pai, o espanhol Gabriel Crespo, que viveu com a dor da perda da filha.

O caso Araceli voltou a ser notícia nesta quarta-feira (4), com o assassinato de Dante de Brito Michelini, o Dantinho, um dos envolvidos no assassinato da menina.

De acordo com Raquel, o caso da irmã nunca deixará de ser uma ferida aberta para a família, pois notícias sobre a menina sempre voltarão a aparecer.

Vem de novo, sempre. Toda vez que fala nela, toda vez que dá alguma notícia, e isso, infelizmente, não vai acabar, porque sempre vai haver notícias dela. Queira ou não, mexe com a gente. Mexe com a família, mexe com todos, porque relembra o caso

Raquel Onório Crespo, irmã de Araceli

Gabriel Crespo morreu vítima de um infarto fulminante em 2001, 28 anos após a morte de Araceli. Raquel se lembra do pai como um homem cuidadoso. Ela relata que muito deste cuidado veio justamente do assassinato da irmã.

Pelo fato de ser uma outra menina, o pai se tornou mais protetor e mais apegado a ela durante sua infância e adolescência, muito disso devido ao trauma da perda.

“Para o meu pai, a morte representou mais cuidado comigo, por exemplo. Como foi com uma menina que aconteceu o caso, e eu nasci logo após, nasceu primeiro meu irmão, mas logo depois fui eu, uma menina. Ele teve um cuidado maior comigo, por medo, por zelo, pela experiência que ele já teve”, contou.

Ela relata que por muitas vezes se lembra de ver o pai triste e abatido após notícias sobre o caso reaparecerem em jornais ou na televisão.

Tanto que era comum que ele trocasse de canal para não ser novamente confrontado com as lembranças da filha.

Para ela, o que mais machuca é o fato de que o pai morreu sem que nenhum dos responsáveis pelo assassinato de Araceli tivesse sido punido pelos crimes.

“Ele partiu triste, sem justiça. É o que mais dói. Seria importante se ele estivesse agora aqui para ver isso. Talvez se sentisse aliviado, talvez não, porque queira ou não, não traz ela de volta”, afirmou.

O dia 18 de maio, que marca o assassinato de Araceli, se tornou o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, uma forma de manter viva a memória da menina e também de dar visibilidade ao tema de violência contra menores.

Segundo Raquel, o dia relembra a importância da história da irmã, além de ter transformado toda a família de Araceli em pessoas que lutam contra o abuso e a exploração infantil.

“O meu sobrenome é Crespo, ela também levava o Crespo, que é do meu pai. Isso tem um peso muito forte, a responsabilidade é muito grande. A gente continua na batalha, lutando contra a violência contra a criança e juventude”, disse.

Ainda de acordo com Raquel, mesmo com todo o impacto negativo sobre sua família, ela também consegue sentir empatia por familiares de Dante, mas não esconde o alívio que sentiu com a notícia da morte.

“Eu sinto um alívio em respeito a tudo, mas também sinto uma tristeza pela família dele. Pelos filhos, pelos netos, que também estão sofrendo pela perda dele. Mas sinto sim um alívio“, relatou.

Corpo encontrado carbonizado

O corpo de Dante de Brito Michelini foi encontrado decapitado e carbonizado em um sítio em Meaípe, em Guarapari, na terça-feira (3).

A descoberta ocorreu depois que uma funcionária do sítio, de 40 anos, procurou a Polícia Militar relatando que não tinha contato com ele desde o dia 7 de janeiro.

Preocupada, ela foi até a propriedade e encontrou o imóvel com portas e janelas quebradas. Ao entrar na residência, se deparou com o cenário de destruição e acionou a polícia.

Dentro da casa, os militares localizaram o corpo caído com a barriga para baixo, em meio aos escombros do incêndio.Desde o início, a principal suspeita era de que se tratasse de Dantinho, hipótese agora confirmada oficialmente pela perícia.

Família se manifestou antes da confirmação

Na ocasião, o advogado declarou que os parentesnão tinham informações sobre possíveis ameaças ou desavençasenvolvendo o idoso e que aguardariam a conclusão das investigações para entender o que teria motivado o crime.

Ele também disse não acreditar que o assassinato tenha relação com o histórico Caso Araceli, ocorrido há mais de 50 anos.

“O motivo de ter acontecido um massacre como esse não deve ter ligação com o caso Araceli, mas sim com algum outro fato. Segundo meu cliente, ele não tinha desavenças e a família não tinha nenhuma informação sobre ameaças”, afirmou Adir Rodrigues, em entrevista na quarta-feira.

Investigação segue em andamento

Com a confirmação da identidade, a Polícia Civil agora concentra as investigações para esclarecer as circunstâncias da morte e identificar possíveis autores do crime.

Até o momento, não há informações sobre suspeitos ou sobre a motivação do assassinato. A corporação informou que novas diligências serão realizadas e que outras perícias ainda estão em andamento. O caso é investigado pela Delegacia de Guarapari.

Caso Araceli: crime em 1973

A menina Araceli Cabrera Sanchez tinha 8 anos quando foi assassinada.Ela desapareceu no dia 18 de maio de 1973, e esta data se tornou símbolo de luta contra violência infanto-juvenil e deu origem ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes.

O caso é considerado um dos mais emblemáticos da história judicial brasileira. A menina morava em Bairro de Fátima, na Serra, ehavia saído de casa para ir à escola, na Praia do Suá, em Vitória.

Após as aulas, ela foi vista em um bar entre o cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, em Vitória. Depois disso, Araceli não foi mais encontrada e a família iniciou as buscas.

O corpo de Araceli apareceu em um matagal seis dias depois atrás do Hospital Infantil, em Vitória, e a perícia da Polícia Civil concluiu queela havia sido drogada, estuprada, assassinada, desfigurada e queimada.

Após as investigações, três suspeitos foram indiciados e denunciados pelo crime:Dante Brito Michelini, o Dantinho; seu pai, Dante de Barros Michelini; e Paulo Constanteen Helal, todos membros de tradicionais e influentes famílias capixabas.

Os dois Michelini investigados pela morte de Araceli são filho e neto de Dante Michelini, empresário que dá nome à orla de Camburi e morreu em 1965.

Investigação e julgamento

A acusação alegou que Araceli foi raptada por Paulo Helal. No mesmo dia, a menina teria sido levada para o Bar Franciscano, na Praia de Camburi, pertencente a Dante Michelini, onde foi estuprada e mantida em cárcere privado sob o efeito de drogas por dois dias.

Em razão do excesso de drogas no corpo, Araceli teria entrado em coma e morreu. Paulo Helal e Dantinho teriam jogado o corpo da menina em uma mata atrás do Hospital Infantil.

Mais de 300 pessoas foram ouvidas ao longo das investigações, gerando mais de 12 mil páginas no processo de 33 volumes.

Na época, foi denunciado a forte influência dos acusados com a polícia local para dificultar as investigações. Além disso,testemunhas-chave do processo morreram durante as investigações.

Em 1980, aJustiça condenou Dantinho e Paulo a 18 anos de prisão. JáDante de Barros Michelini (que já morreu) foi condenado a 5 anospor cumplicidade.

No entanto, asentença foi anuladapelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Em 1991, 18 anos após morte de Araceli, um novo julgamento, mas desta vez a Justiça absolveu os três acusados por falta de provas e até os dias atuais ninguém foi responsabilizado pela morte da menina.

O Ministério Público chegou a recorrer, mas o TJES manteve a absolvição. O crime prescreveu em 1993.

*Com informações da repórter Luciana Leicht, da TV Vitória/Record

Fonte: Folha Vitória

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