Registro do 7º Rede Saúde Summit. Foto: Thuanny Louzada
Crescer é importante. Mas, na saúde, ampliar serviços, incorporar tecnologias como Inteligência Artificial (IA) e aumentar a capacidade de atendimento não são suficientes para garantir bons resultados. A expansão precisa vir acompanhada de processos eficientes, profissionais preparados e, principalmente, de uma experiência que faça o paciente se sentir acolhido e seguro.
Essa foi uma das principais reflexões do 7º Rede Saúde Summit, realizado na quinta-feira (5), em Vitória. Com auditório cheio, o encontro reuniu empresários, gestores, executivos, médicos e profissionais de diferentes áreas da cadeia produtiva da saúde para discutir o tema “Qualidade como Estratégia: Para além dos indicadores”.
Realizado pela Rede Vitória de Comunicação e pela Ás Consultoria, sob a liderança da Dra. Alice Sarcinelli, diretora-executiva do Rede Saúde Summit e Head de Saúde da Rede Vitória, o evento chegou à sua sétima edição com uma questão central para organizações de todos os portes: como avançar em um mercado em expansão sem comprometer a qualidade do atendimento?
As discussões apontaram que a resposta não está em escolher entre tecnologia e humanização, nem em crescer a qualquer custo. O desafio é integrar inovação, gestão e pessoas para que os resultados das organizações também representem valor para quem utiliza os serviços.
Crescimento do setor exige planejamento
O cenário capixaba apresentado por André Spalenza, coordenador de Estudos e Pesquisas do Connect Fecomércio-ES, ajuda a dimensionar esse desafio.
“O Espírito Santo reúne mais de 10 mil estabelecimentos de saúde e ultrapassou 63 mil empregos formais no setor. No primeiro semestre de 2026, as atividades de atenção à saúde humana registraram crescimento de 4,6% no emprego formal, quase o dobro da expansão observada no conjunto dos serviços, de 2,4%”.
Além disso, ele destaca que o avanço ocorre em paralelo a mudanças no perfil da população. Entre 2010 e 2022, o número de moradores com 60 anos ou mais aumentou 73,1% no Estado, ampliando a demanda por serviços e modelos de atendimento capazes de responder a necessidades cada vez mais diversas.
Spalenza também chamou atenção para um contraste: enquanto os estabelecimentos de saúde aumentam, o número de leitos hospitalares permanece praticamente estável. Outro movimento observado é a interiorização da atividade, com municípios como Linhares, Colatina e Cachoeiro registrando avanços na geração de empregos e na presença de serviços.
Tecnologia precisa resolver problemas reais
Na abertura da programação, Fátima Pinho, sócia-líder para o setor de Health Care na Deloitte Brasil, provocou os participantes a refletirem sobre a diferença entre adquirir uma tecnologia e conseguir transformá-la em valor para a instituição e para o paciente.
Em vez de apostar automaticamente na ferramenta mais sofisticada, a especialista defendeu a importância de fortalecer fundamentos da gestão. Dados confiáveis, controle de custos, processos bem definidos e capacitação das equipes são elementos necessários para que a inovação produza resultados.
“Às vezes, o arroz com feijão bem feito vai te ajudar a caminhar com bases sólidas”, destacou Fátima, ao lembrar que a transformação do setor também depende de organizações capazes de conhecer sua própria operação e preparar as pessoas para novas formas de trabalho.
A tecnologia, nessa perspectiva, deve reduzir tarefas repetitivas e a sobrecarga dos profissionais, liberando tempo para aquilo que exige escuta, análise e contato humano. A inteligência artificial pode apoiar decisões e organizar informações, mas não substitui a responsabilidade de quem cuida.
Crescer sem perder a excelência
Essa integração também apareceu no painel executivo “Crescer sem Perder a Excelência”, que reuniu José Eduardo Roma Júnior, sócio e diretor do Grupo Prever, e Wilson Zatt, fundador e CEO da Lauduz.
Para Roma Júnior, a qualidade precisa ser avaliada a partir da percepção de quem recebe o serviço, e não apenas da avaliação que a própria empresa faz sobre o que entrega. Na visão do executivo, pessoas bem treinadas, valores claros e processos consistentes formam a base dessa experiência.
Wilson Zatt acrescentou que o avanço da telemedicina depende de investimentos simultâneos em tecnologia e qualificação profissional. Para ele, o atendimento remoto precisa ir além da videochamada, incorporando informações clínicas e recursos que contribuam para a tomada de decisão médica. Ainda assim, decisões e interações que envolvem o cuidado não devem ser transferidas integralmente para a tecnologia.
A qualidade também acontece na jornada do paciente
Outro ponto discutido foi a diferença entre os indicadores acompanhados pelas instituições e aquilo que o paciente efetivamente vivencia. Mariana Cerone, executiva da Up Brasil e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), destacou que métricas como produtividade, tempo de espera e segurança são fundamentais, mas não conseguem traduzir sozinhas toda a experiência de quem procura atendimento.
“O paciente não vive um indicador. Ele vive uma jornada”, afirmou Mariana. A percepção de qualidade é construída em diferentes etapas, desde a facilidade para marcar uma consulta até a clareza das orientações, o cumprimento dos horários e a confiança transmitida pelos profissionais.
Qualidade exige uma cultura de prevenção
No encerramento do Rede Saúde Summit, Milainy Barbosa Ribeiro Batista, representante do Einstein Hospital Israelita apresentou práticas voltadas à construção de uma atuação mais proativa em qualidade e segurança. A proposta é deixar de agir apenas depois que um problema acontece e fortalecer a identificação antecipada de riscos, com planos de ação e acompanhamento contínuo.
A Gerente de Qualidade, Segurança e Experiência em Saúde, também ressaltou a importância de integrar segurança assistencial e experiência do paciente. A qualidade, nesse sentido, não depende apenas de protocolos ou indicadores, mas de uma cultura organizacional em que diferentes equipes reconheçam vulnerabilidades, compartilhem informações e trabalhem para evitar danos.
A discussão mostrou que a excelência não é um resultado que se alcança uma única vez. Ela exige revisão permanente de processos, aprendizado com falhas e compromisso das lideranças com a melhoria.
Um debate que envolve toda a cadeia da saúde
A diversidade de participantes também refletiu a proposta do encontro. Médicos, gestores hospitalares, empreendedores, profissionais de odontologia, fonoaudiologia, clínicas e empresas de tecnologia estiveram entre os públicos representados.
Vinicius Ximenes, CEO do Hospital de Olhos do Espírito Santo (HOES), destacou a importância da troca entre instituições e profissionais. Para ele, o encontro permite acompanhar novidades e soluções que contribuem para o desenvolvimento do setor. “É muito importante participar de um evento que reúne todos os players e grandes centros de saúde do Espírito Santo e até de fora do Estado, trazendo o que há de mais moderno e novo para que possamos acompanhar essas inovações e seguir com o desenvolvimento da saúde capixaba”, afirmou.
Bruno Tomazelli, diretor técnico do Hospital Vitória Apart, também ressaltou a importância da integração entre os diferentes representantes do mercado. Segundo ele, discutir os caminhos do setor em conjunto é uma oportunidade de buscar melhorias para a assistência à população e para os clientes das instituições. O executivo ainda destacou o papel da tecnologia nesse processo: “A inteligência artificial veio para somar, mas não para substituir o humano no cuidado”.
Tecnologia e humanização precisam caminhar juntas na saúde
Tatiane Chagas, fonoaudióloga e CEO da Estímulos Desenvolvimento, destacou a importância de reunir diferentes áreas em torno das transformações do setor. Para ela, já na primeira palestra, Fátima Pinho, por exemplo, reforçou uma discussão que já faz parte do trabalho de sua equipe: a IA deve atuar em conjunto com os profissionais, e não ocupar o lugar das relações humanas.
A fonoaudióloa avalia que a automação de tarefas pode otimizar o tempo das equipes e ampliar a disponibilidade para o contato direto com pacientes e famílias. “O face a face nunca vai deixar de existir”, observou.
Entre as atividades da programação, os participantes também tiveram um momento de descontração e bem-estar, com música e uma ação promovida pelo Sesi Saúde, antes da continuidade das palestras.
Ao reunir diferentes perspectivas, o 7º Rede Saúde Summit reforçou uma mensagem que atravessa hospitais, clínicas, consultórios, operadoras e negócios de tecnologia: crescer é uma oportunidade, mas a expansão só se sustenta quando a qualidade acompanha cada etapa.
Mais do que incorporar ferramentas ou ampliar estruturas, o desafio está em construir organizações capazes de combinar eficiência, segurança e acolhimento. Afinal, na saúde, o resultado de uma empresa não se mede apenas pelo que ela cresce, mas também pela confiança que consegue construir com as pessoas.
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Fonte: Folha Vitoria