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Economia

Juros, inflação e contas públicas: por que 2027 pode ser difícil para o Brasil

O resultado das urnas deve influenciar as expectativas do mercado, enquanto o desafio fiscal pode limitar as promessas de campanha


Foto: Magnific

Seria de supor que, diante do elevado grau de incerteza quanto ao desfecho das urnas, fosse mais difícil traçar cenários para 2027 e os anos seguintes. Até o momento, pelo menos enquanto escrevo este artigo e examino a profusão de dados das pesquisas eleitorais, não me arriscaria a antecipar quem será o vencedor.

Sem dúvida, estamos diante de uma das eleições mais acirradas e polarizadas da história recente do país.

E, mais grave, pouco ou nada se discute sobre uma agenda consistente para o futuro. Isso nos conduz a uma constatação preocupante: independentemente de quem vença, 2027 tende a ser um ano difícil.

A julgar pelas promessas dos candidatos, dificilmente será um ano de ajustes, justamente quando eles se mostram cruciais para os anos seguintes.

Na disputa eleitoral, as promessas se multiplicam e se assemelham na profusão de bondades.

Vão desde transformar o SUS em um sistema com padrão de atendimento comparável ao do Hospital Albert Einstein até instituir passe livre nos fins de semana; desde ampliar o Bolsa Família até flexibilizar ainda mais as condições de um sistema previdenciário cuja sustentabilidade já enfrenta enormes desafios.

Somam-se a isso promessas de juros baixos, perdão de dívidas e outras facilidades, como se bastasse a vontade política para torná-las realidade.

São promessas frequentemente dissociadas das condições concretas da economia, que ignoram tanto as restrições presentes quanto a força inercial dos problemas acumulados.

Constituem, assim, propostas construídas mais no campo da abstração do que no terreno das possibilidades reais.

Tomemos apenas um exemplo. Todos desejamos juros baixos. Entretanto, alcançar patamares sustentavelmente menores pressupõe, entre outras condições, credibilidade fiscal, expectativas de inflação ancoradas e maior equilíbrio das contas públicas.

E é justamente o ajuste fiscal que não aparece, com a necessária clareza, no repertório das promessas eleitorais. Imaginar que os juros cairão de forma consistente sem enfrentar os desequilíbrios fiscais é, no mínimo, um devaneio.

Por sorte, continuaremos contando com um Banco Central autônomo, orientado por parâmetros de política monetária voltados à preservação da estabilidade de preços.

Por outro lado, supor que o crescimento econômico, por si só, antecederá e resolverá a questão fiscal parece uma aposta excessivamente otimista.

O crescimento ajuda a ampliar a arrecadação, mas dificilmente substitui reformas capazes de conter a expansão estrutural das despesas e melhorar a qualidade do gasto público.

Não precisaremos recorrer à Sibila, figura da Antiguidade associada à arte de interpretar o futuro e cujos oráculos eram consultados pelos romanos, para antever as dificuldades que se apresentam.

Na segunda-feira seguinte à eleição, terá início um processo de revisão das expectativas, com o mercado financeiro refazendo suas apostas.

Poderemos assistir a um rally de alta ou a um movimento de queda, dependendo do resultado das urnas e, sobretudo, das expectativas quanto à orientação da futura política econômica.

Na percepção hoje predominante em determinados segmentos do mercado, uma vitória de Lula tenderia a provocar uma reação inicial mais negativa, enquanto uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia favorecer um movimento de valorização dos ativos.

Não se trata, contudo, de movimentos inevitáveis. Sua intensidade e duração dependerão das sinalizações econômicas, da composição das equipes e das condições de mercado.

São movimentos típicos de reacomodação dos portfólios de ativos, potencialmente mais intensos no início e sujeitos a perder força à medida que novas informações permitam a formação de expectativas mais estáveis.

Como as decisões dos agentes econômicos — empresas, investidores e consumidores — são fortemente influenciadas pelas expectativas construídas no dia a dia, poderemos atravessar, pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, um período de maior instabilidade e cautela.

Nesse intervalo, ficará mais evidente a distância entre as promessas de campanha e as possibilidades concretas de sua execução.

Muitas delas poderão revelar-se inexequíveis, outras perderão prioridade diante das restrições orçamentárias, e algumas talvez precisem ser reformuladas.

Para muitos, cairá a ficha de que a realidade econômica costuma impor limites mais rigorosos do que aqueles admitidos no discurso eleitoral.

E talvez seja essa a principal dificuldade que nos espera em 2027: um país que precisa de ajustes, mas cujas promessas eleitorais apontam, predominantemente, para mais gastos.

Folha Vitoria

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