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Economia

Gigantes internacionais desmentem Cinelli sobre serviços à Apex

Reportagem do Estadão revela que apresentações feitas a investidores e ao conselho da Apex indicavam auditoria e avaliação financeira de multinacionais que negam ter realizado os trabal


Fernando Cinelli. Foto: Instagram/@feernandoakcinelli

O empresário Fernando Cinelli, ex-presidente da Apex Partners, apresentava a investidores e ao conselho de administração da companhia documentos que indicavam a participação de grandes empresas internacionais de auditoria e consultoria em trabalhos que elas afirmam não ter realizado. Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (23) pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), uma apresentação utilizada na tentativa de captar R$ 100 milhões mostrava o logotipo da KPMG e classificava um serviço de auditoria independente como “em execução”.

A multinacional, entretanto, negou ter auditado os números da Apex. O material foi apresentado meses antes da descoberta de problemas financeiros que levaram à revelação de um passivo próximo de R$ 1 bilhão.

Os documentos mostravam uma empresa em forte expansão, com projeção de alcançar R$ 74 bilhões em ativos sob supervisão até 2032, o equivalente a aproximadamente quatro vezes o volume da época. A Apex afirmava ter crescido 44% ao ano até 2025 e apresentava seu modelo de negócios como “validado após dez aquisições”.

“Crescimento com controle”

Antes da crise, a companhia chegou a uma avaliação de R$ 1 bilhão. As apresentações também destacavam a estrutura administrativa, com 25 comitês ativo. Do mesmo modo, afirmavam que o modelo de governança permitiria “crescimento com controle e alinhamento de riscos”.

A reportagem do Estadão revela ainda que o cronograma da captação mencionava “valuation PwC”, indicando que a consultoria internacional faria uma avaliação do valor da Apex em abril. A PwC negou ter realizado esse serviço. A empresa explicou que sua atuação como assessora financeira não incluía auditoria nem verificação independente dos números apresentados pela administração.

A consultoria Falconi também aparecia nos documentos, mas informou que seus serviços estavam limitados à gestão de rotinas em um sistema de software e ao acompanhamento de indicadores comerciais já produzidos pela própria Apex.

Apex acusa Cinelli de esconder situação

Procurada pelo Estadão, a atual administração da Apex atribuiu a Fernando Cinelli a responsabilidade por esconder dos órgãos de governança a verdadeira situação financeira do grupo. Segundo a empresa, o ex-presidente ocultou a deterioração do caixa e o risco de insolvência, situação que motivou uma investigação interna iniciada em julho.

Em 6 de agosto, Cinelli e o então diretor financeiro, Eduardo Siqueira, foram afastados após a identificação de “inconsistências contábeis, gerenciais e financeiras”. A companhia afirma que as apurações também encontraram indícios de gestão temerária, transferências de valores para contas pessoais de Cinelli e desorganização administrativa e contábil.

Em manifestação reproduzida pelo Estadão, a Apex destacou a concentração de poderes nas mãos do antigo presidente.

“Cinelli acumulava funções estratégicas no grupo: era presidente do Conselho de Administração, diretor executivo do Grupo Apex e único representante da BRM Apex Investimentos, entidade que concentra a maior parte dos passivos. Também figurava como administrador legal de mais de 170 entidades do grupo e detinha poder exclusivo de aprovação da maioria das contas bancárias, o que concentrava em suas mãos todas as decisões para a gestão financeira da companhia”.

A administração da companhia informou ainda que adotou medidas judiciais e administrativas para esclarecer os fatos e buscar a responsabilização dos envolvidos. Em nota reproduzida pelo jornal, declarou:

“A Apex reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a seriedade na condução desse processo. Nesse sentido, o pedido de recuperação judicial integra as medidas adotadas para viabilizar uma reestruturação ordenada da companhia, preservar seus ativos e criar condições para a reorganização de suas atividades, resguardando os interesses de investidores e credores”.

Cinelli nega irregularidade sobre consultorias

Ao Estadão, Fernando Cinelli afirmou que a presença da KPMG nas apresentações não significava que a empresa estivesse contratada para auditar as contas da Apex. Segundo o ex-presidente, a contratação de uma auditoria independente ainda estava em avaliação. Ele também declarou que as conversas com a PwC tratavam de estratégia e visão de negócios, e não da conferência dos números financeiros.

Cinelli sustentou que os materiais da rodada de captação foram preparados pela administração, com apoio técnico da PwC e participação de diferentes áreas e sócios. Acrescentou que o conteúdo apresentado ao conselho foi discutido e aprovado em reunião e, posteriormente, levado à assembleia.

As explicações das consultorias, no entanto, mostram diferenças entre os serviços apresentados aos investidores e aqueles efetivamente realizados. A PwC afirmou que não verificou de forma independente os dados fornecidos pela administração da Apex. A Falconi esclareceu que teve acesso a indicadores comerciais consolidados somente depois de sua elaboração pela própria companhia. Já a KPMG negou ter prestado a auditoria mencionada nos documentos.

Questionada pelo Estadão se a apresentação poderia representar uma fraude, a KPMG não respondeu. A reportagem não estabelece que tenha ocorrido fraude na utilização dos nomes das consultorias.

As revelações acrescentam um novo capítulo à crise da Apex Partners, que pediu recuperação judicial em setembro, depois da descoberta do passivo bilionário. O caso também levanta questionamentos sobre a qualidade das informações fornecidas a investidores e integrantes do conselho de administração durante a gestão de Fernando Cinelli.

Enquanto os documentos apresentavam uma companhia com perspectivas de crescimento acelerado, a situação financeira real se deteriorava. Agora, uma das questões centrais é esclarecer quem conhecia os números verdadeiros da empresa, quando os problemas foram identificados e quais informações serviram de base para as decisões de investimento e expansão do grupo.

Folha Vitoria

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